Entrevista SAPO Desporto

17-03-2016 12:48

Nelson Cruz: "Já me chamaram louco, mas isso dá-me mais motivação"

O atleta amador de 38 anos surpreendeu ao sagrar-se campeão nacional de corta-mato, deixando Benfica e Sporting para trás.
Nelson Cruz
Foto: Miguel Henriques

Atleta português

Por Miguel Henriques sapodesporto@sapo.pt

Nelson Cruz tem cerca de 20 anos de carreira. De uma carreira vivida na sombra do amadorismo e no desconhecimento de muitos. Pelo menos até ao passado domingo, dia em que se sagrou campeão nacional de corta-mato. A história tem contornos de encantar, mas é carregada de uma dura realidade espelhada no suor, perseverança e paixão por correr. Leva isto a sério, como um profissional. Mas o que lhe paga as contas é o emprego que tem no supermercado Jumbo de Almada.

A vida descronometrada

Combinámos com Nelson Cruz às 11 horas da manhã no local habitual onde treina: a pista Municipal de Almada. O atleta português chegou um pouco atrasado, mas por hoje trocam-lhe as voltas, da mesma forma como fez com os adversários. Pede desculpas com um sorriso envergonhado e explica de pronto: “Tive de parar numa estação de serviço para uma entrevista por telefone. Esticou-se um pouco mais e tudo se atrasou”.

Não vive do atletismo, mas por agora o atletismo e a atenção mediática vivem de e para ele. Ainda não se habituou, claro está: “As pessoas querem ouvir-me, querem que eu explique tudo o que aconteceu, mas não consigo estar em todo o lado. Tenho de treinar, trabalhar, fazer a minha vida normalmente, isto continua... Mas tenho feito um esforço para que todos estejam satisfeitos comigo”.

A corrida da minha vida

Vamos então à corrida que centrou nele todos os holofotes. Reconstituímos “o crime perfeito” sem querer deixar escapar nenhum pormenor. Onde estava no dia 12 de março? Tinha trabalhado nesse sábado até à meia-noite. E às seis da manhã de domingo já entrava no autocarro, cedido pela Câmara de Almada, com os seus colegas, rumo ao Algarve, tendo como destino o crosse das Amendoeiras onde disputaria o seu 12.º ou 13.º campeonato de corta-mato. Aqui perde-se a precisão, pelos anos acumulados nesta vida que passa a correr.

No aquecimento da prova decidiu picar os seus colegas mais novos do Clube Pedro Pessoa: “Estava a fazer o aquecimento e os miúdos que já tinham corrido as provas anteriores vieram-me dar-me um incentivo. Eu, por brincadeira, dei um abraço a cada um e disse 'Vejam como é. Vejam e aprendam'”.

A competitividade está-lhe no sangue, não fosse isso aquilo que o levou ao desporto e à corrida: “Eu sempre fui muito competitivo, quando era jovem experimentava tudo o que fosse possível. Experimentava e gostava”. E aquelas palavras ditas a brincar, tornaram-se sérias dentro dele. Disse-as aos outros, talvez para se convencer a ele próprio. E resultou.

“Aquilo deu-me um certo moral. Inicialmente, fui para a frente para lhes fazer ver como era possível andar com os melhores”. E por lá ficou. A mente e o corpo uniram-se em harmonia rara, e os adversários “mais fortes” que tinham um Sporting – Benfica a disputar o título coletivo, deixaram-no ir. Mais tarde apanhavam-no. O dérbi ia desenrolar-se e ele, quanto muito, era um convidado VIP, ali na primeira fila.

Nelson Cruz alimentava-se dos gritos que lhe iam chegando do público para crescer mais e mais na prova: “As pessoas começaram a acreditar em mim. Gritavam de todo o lado: 'Acredita, acredita!' Por onde eu passava ouvia: 'Força, acredita'. E isso deu-me força. Aguentei e aguentei...”.

Olhar para trás era inevitável. Alguma vez chegariam os verdadeiros favoritos para acabar com este seu monólogo. Já tinha feito o seu número. Porém, o restante elenco não aparecia, e a peça continuava com o inusitado protagonista. “Provavelmente eles iam responder, só que tardava, e tardava essa resposta. Isso aumentava a minha confiança. Quando entrei na última volta só pensava: 'vou dar tudo o que tenho e vou acreditar neste sonho'”.

Metros, altos e baixos, curvas e meta à vista. O desgaste era muito, mas o sonho estava ali, um punhado de metros à frente. O atleta do Clube Pedro Pessoa “não queria acreditar que estava mesmo a acontecer”, mas aconteceu. Ganhou e tornou-se no novo campeão nacional.

E este corta-mato que era apenas um atalho. Um atalho para a maratona de Praga que está a preparar com o afinco possível, entre o trabalho, os dois filhos que tem e o terceiro que vem a caminho.

Aos 38 anos já não espera que este título o mude. Tem noção que a idade é um obstáculo que se agiganta com o passar do tempo. Quer então que este título mude a vida dos outros, dos mais jovens que treinam consigo e que um dia gostava que pudessem ser profissionais. Ter o que ele não teve.

“Eu, infelizmente, passei ao lado, as coisas podiam ter acontecido de maneira diferente. Não tive a possibilidade de ser profissional, agora é acreditar nos que estão para a vir. Que eles consigam o que eu não consegui”, atira com os olhos posto no futuro.

O seu derradeiro esforço no atletismo acontecerá nos próximos meses onde tentará os mínimos na maratona para os Jogos Olímpicos 2016, depois de Pequim 2008. É português, mas lá fora corre por Cabo Verde, país que lhe deu a mão e a hipótese de cumprir um sonho de criança com o possível profissionalismo de um amador.

Conteúdo publicado por Sportinforma