Reportagem

04-07-2017 16:00

O que o futebol da China nos está a ensinar sobre a globalização

A China vai entrando em cena aos poucos no futebol, com empresas chinesas a gastarem biliões de euros na aquisição de clubes europeus, além de investir na modalidade no seu próprio país.
O que o futebol da China nos está a ensinar sobre a globalizaçã
Foto: AFP

Adeptos da seleção chinesa de futebol

Por João Agre sapodesporto@sapo.pt

A China vai entrando em cena aos poucos

A 4 de junho de 2002, a seleção nacional de futebol da República Popular da China entrava em campo para a sua primeira partida num Mundial. Para os poucos milhares de adeptos chineses no estádio, e os cerca de 500 milhões de chineses em casa, o facto de a equipa ter lá chegado já era considerado a maior conquista da história do futebol chinês. "A Grande Muralha" daria um passo de gigante se conseguisse marcar um golo durante a maior competição de futebol do mundo.

Não conseguiram. A jogar contra a Costa Rica, o Brasil (vencedor do torneio) e a Turquia, a China terminou no fundo do grupo, tendo sofrido nove golos. Até hoje, a China ainda não conseguiu regressar a um Mundial. Depois de falhada a qualificação em 2006, 2010 e 2014, os chineses ainda podem chegar à Rússia, em 2018.

Caso a China marque presença no próximo campeonato do mundo de futebol, o país teria de agradecer ao atual presidente, Xi Jinping, um amante da modalidade. Ele quer ver o país a liderar o futebol mundial, prometendo (muito) dinheiro para que isso aconteça. Isso inclui a criação de academias de futebol, contratação de treinadores de sucesso e até mesmo oferecer a cidadania a jogadores estrangeiros.

Os fãs chineses de futebol também podem agradecer a uma coisa chamada globalização, um processo pelo qual os mercados, pessoas, bens e cultura integram-se, tal como como acontece no futebol europeu. A companhia aérea Emirates, com base no Dubai, patrocina algumas das equipas mais reputadas do futebol, na Inglaterra, Espanha e França. Mais de 20% dos clubes da Premier League são administrados por proprietários americanos e mais de metade dos clubes das duas principais divisões da Inglaterra são de propriedade de investidores estrangeiros.

A China vai entrando em cena aos poucos, com empresas chinesas a gastarem biliões de euros na aquisição de clubes europeus, além de investir no futebol do seu próprio país. Então, o que podemos aprender com o interesse da China no futebol? E o que tudo isso nos diz sobre globalização e o estado do mundo atualmente?


A centralização do poder está a mudar

Desde a Segunda Guerra Mundial, o mundo tem sido amplamente moldado pelas influências liberais e ocidentais. Esta estrutura de poder surgiu após o conflito entre 1939 e 1945, criando instituições como o Banco Mundial, a União Europeia, a NATO e o Fundo Monetário Internacional. Após a queda da União Soviética, os ideais promovidos pelas países ocidentais mais fortes ficaram mais fortes.

No futebol, tal como na política, existem centros de poder. Tradicionalmente, estes surgiram na América Latina e na Europa: dos 20 Mundiais até à data, nove foram conquistados por países latino-americanos e 11 por nações europeias e 65% dos títulos ficaram-se pelo Brasil, Itália e Alemanha. A América Latina tende a produzir jogadores individuais mais habilidosos, enquanto a Europa desenvolve estilos e filosofias de jogo. Um núcleo de países europeus conseguiu expandir-se de forma bastante síncronizada por causa das fronteiras comuns e económicas em rede. Tal como em qualquer economia globalizada, a inovação conseguiu espalhar-se rapidamente e esses países tornaram-se em bases de poder influentes no futebol mundial.

Não é surpresa para ninguém que os poderes do futebol e política estejam ligados. Ao longo do tempo, os governos perceberam que o desporto é um poderoso instrumento de poder, mesmo sabendo das suas limitações. Estudos mostram que os eventos desportivos podem ser usados para mostrar os valores culturais de uma nação. Num mundo globalizado, onde todos estão a competir com recursos limitados, a capacidade de atrair talentos e investimentos torna-se imperativo.

À medida que os tradicionais detentores de poder enfrentam dificuldades, como é o caso de campeonatos mais pequenos como o português, um espaço abre-se noutros países para preencher lacunas de liderança, como é o caso da China. Com o crescer do valor patriota, muitas nações ocidentais estão a virar-se para os mercados internos. Xi alertou para este ’retrocesso’ em Davos, pedindo mais cooperação entre os mercados mundiais. Porém, recentemente, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que o seu país abandonaria o Acordo de Paris (objetivo de fortalecer a resposta global à ameaça das mudanças climatéricas e reforçar a capacidade dos países para lidar com os impactos decorrentes dessas mudanças). Perante este cenário, a China assumiu o papel de líder nesta matéria.

Quem nos está a ler deve entender a incursão da China no futebol como uma extensão da sua política existente, cuja velocidade do investimento é impressionante.


China à boleia da globalização

No livro Soccernomics, o jornalista Simon Kuper mostra como o sucesso da seleção espanhola evoluiu com a integração do país nos mercados económicos. A trajetória da 'Furia Roja' foi superior à medida que a economia espanhola também se globalizava, começando nos Jogos Olímpicos de 1992 em Barcelona e culminando com três vitórias consecutivas em competições internacionais de futebol - o Mundial de 2010, intercalado com o campeonato europeu de 2008 e 2012.

Curiosamente, Kuper também atribui melhorias no futebol norte-americano graças à globalização: “A evolução do futebol nos EUA é um índice de como a globalização está a afetar o dia a dia da modalidade. Há dois grupos de norte-americanos que estão cada vez mais interessados no futebol, os imigrantes e as elites costeiras como Los Angeles e Nova Iorque, e estes fazem parte da classe americana mais globalizada do país. O número estimado de hispânicos que vivem atualmente no país é de 43 milhões, tendo triplicado desde 1980, sendo esta, aproximadamente, a população de Espanha. Os EUA têm mais jovens jogadores de futebol do que qualquer outro país. Não é de admirar que a seleção nacional esteja a melhorar a cada dia que passa".

Do mesmo modo, a globalização económica trouxe melhorias nos padrões de vida em todo o mundo. De acordo com o Banco Mundial, a comercialização além fronteiras ajudou a reduzir para metade, desde 1990, o número de pessoas que vive em extrema pobreza. O jornal The Economist descreveu a China como o país que mais lucrou com a globalização, com centenas de milhões de habitantes a saírem da pobreza, representando um crescimento de 19% na escalada social nos últimos 10 anos.

Nos últimos meses, os clubes chineses contrataram jogadores estrangeiros para aumentar a qualidade dos seus clubes, injetando assim milhões de euros nos clubes europeus. Mas não se deixem enganar, a China quer absorver os conhecimentos dos europeus, as técnicas e táticas de treino e marketing do mundo do futebol. Noutras palavras, a China está a surfar na crista da onda da globalização para promover a sua economia e criar empregos.


A globalização cria vencedores e perdedores, e a China precisa de ser cautelosa


O equilíbrio das prioridades entre os clubes e as seleções nacionais é um debate que continua na ordem do dia. Na Europa, a imigração leva a que a constituição das seleções seja etnicamente mais diversificada. Basta olhar para a seleção suíça, onde recentemente se votou para limitar o número de jogadores nacionalizados. À medida que a contratação de jogadores estrangeiros aumenta a qualidade nos campeonatos europeus, este comércio pode ser a fatura a pagar nas seleções nacionais. Um estudo mostra que, nos últimos campeonatos europeus, apenas 37% dos jogadores atuaram nas suas ligas domésticas - e 25% dos jogadores foram contratados para clubes ingleses.

Na Premier League, apenas cinco equipas ganharam o campeonato nas últimas 20 temporadas e a maioria das receitas de direitos televisivos ficaram na divisão principal. Ao mesmo tempo, mais de 50 clubes declararam insolvência.

A China está a observar atentamente estes desenvolvimentos e claramente quer ‘dar uma mão’ e, ao mesmo tempo, proteger o seu campeonato com salários e transferências astronómicos. A Federação Chinesa de Futebol introduziu regras que limitam o número de jogadores estrangeiros em campo, além de anunciar um imposto de 100% sobre as taxas de transferência para jogadores estrangeiros em clubes de risco financeiro.


Rezar pelo sucesso

Há uma brincadeira bem conhecida entre os adeptos chineses: um homem morre e, ao ir para o céu, Deus concede um desejo. Infelizmente, o homem pede algo inalcançável, mesmo para Deus, então ele pede um segundo desejo. O homem responde: "Desejo que a China vença um campeonato do mundo”. Depois de pensar uns segundos, Deus responde: "Diga-me novamente qual foi mesmo o seu primeiro desejo?"

À medida que os centros globais de poder se movem para o leste, e a China continua a globalizar-se, o sucesso no futebol pode não mais estar nas mãos dos deuses.

*Reportagem escrita com base num artigo do World Economic Forum

Conteúdo publicado por Sportinforma