Apostas Ilegais

26-04-2017 13:57

Viciação de resultados: Um problema enraizado que não é recente em Portugal

Encontro entre Penafiel e Freamunde levantou de novo a questão sobre resultados combinados para apostas.
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Foto: Paul Giamou

Apostas on-line são um tendência no desporto

Por José Rafael Lopes sapodesporto@sapo.pt

O jogo da Segunda Liga entre o Penafiel e o Freamunde está na mira das autoridades portuguesas por poder estar evolvido num esquema de viciação de resultado. A GNR identificou várias pessoas no final do jogo, incluindo a equipa de arbitragem liderada por Hélder Malheiro, por suspeitas relacionadas com apostas.

SMS suspeito e vários erros de arbitragem

No rescaldo do encontro entre duas formações que estão em polos opostos da classificação, a GNR foi chamada ao Complexo Desportivo do SC Freamunde por haver suspeitas dos dirigentes do Freamunde de que o resultado de 1-2 tenha sido viciado. A denúncia foi feita por Miguel Azevedo Brandão, presidente do Freamunde, depois de ter sido contacto por alguém que é ´coaching` de jogadores.

"No final do jogo de [do passado domingo], uma senhora, que, pelos vistos, é ‘coaching' de jogadores, embora não a conheça, pediu para falar comigo e mostrou-me umas mensagens que teria recebido no telemóvel antes do encontro, com o resultado exato verificado ao intervalo e no final do mesmo. Perante a gravidade dos factos, disse-lhe que já não a podia deixar sair e liguei de imediato para a Polícia Judiciária (PJ). Na PJ, disseram-me que não tinham nenhum inspetor no piquete da corrupção e remeteram o processo de identificação para as forças da autoridade presentes ao jogo, e, além da senhora, a quem fizeram ainda um termo de leitura de mensagens, foi identificada toda a equipa de arbitragem", contou Miguel Azevedo Brandão.

O Penafiel, agora quarto classificado da II Liga, com os mesmos 59 pontos do Benfica B, vencia ao intervalo o Freamunde, antepenúltimo classificado e em sério risco de descida, com 39, por 1-0, acabando por vencer por 2-1.

Uma das suspeitas pendia sobre o facto de uma casa de apostas estar a apresentar ‘odds’ muito favoráveis à vitória da formação visitante de uma equipa que luta por não descer frente a uma candidata à subida. Com Efeito, o Penafiel tinha uma ‘odd’ de sete euros pagos por cada euro apostado na sua vitória. Este tipo de ‘odd’ é incomum e apenas é utilizado em equipas que não são favoritos à vitória.

A acrescentar à suspeita devido à ‘odd’, o encontro entre as duas equipas ficou marcado pelos três golos anulados ao Freamunde e os dois penáltis que ficaram por marcar a favor da equipa da casa, de acordo com relatos da imprensa. A equipa de arbitragem chefiada por Hélder Malheiro, de Lisboa, teve dificuldades de deixar as instalações do Freamunde, face aos protestos dos adeptos, desagrados com a sua prestação no jogo.

A suspeita de viciação de resultado no Freamunde-Penafiel está na ordem do dia, mas não é caso único em Portugal. Nos últimos tempos, houve várias situações que levaram a crer que haviam suspeitas de combinação de resultados.

Um dos casos mais icónicos surgiu na 20ª jornada da Primeira Liga deste ano. Na altura, o encontro entre o Feirense e o Rio Ave esteve debaixo de várias suspeitas de jogo combinado devido à alta afluência de apostas no duelo no Placard. A história de que um apostador chinês tinha colocado 100 mil euros na equipa ‘fogaceira’ esteve em destaque durante a tarde, mas acabou por ser desfeita depois da investigação por parte da Santa Casa da Misericórdia.

Contudo, todas as apostas nesse encontro foram encerradas devido às suspeitas de que o encontro estava condicionado. O Feirense acabou por vencer o encontro frente a um Rio Ave que, na altura, seguia fragilizado no campeonato.


O jogo Freamunde- Ponferradina que nunca aconteceu

Um dos primeiros casos a ganhar notoriedade na imprensa apareceu na pré-epoca de 2014/2015, num suposto encontro amigável entre o Freamunde e o Ponferradina, de Espanha. O caso foi denunciado pelo departamento de integridade da Liga de Futebol Profissional (LFP). O organismo explicou na altura que o "suposto encontro (…) despertou o nível máximo de alerta na Federbet", entidade que controla as apostas online, e prometeu denunciá-lo à polícia espanhola, à FIFA, à UEFA e à direção geral que regula os jogos sociais.

Na altura, o Freamunde informou logo qua ia denunciar o "jogo fantasma", demarcando-se deste “lamentável e insólito episódio". Em declarações ao jornal Record, Hilário Leal, diretor desportivo do clube, afirmou que "nunca houve contactos com o Ponferradina para a realização de qualquer jogo". Várias casas de apostas estiveram inclusive a acompanhar o jogo ao minuto. O encontro teria ocorrido na manhã de 2.ª feira, 06 de agosto de 2014. Ora, o Freamunde tinha jogado no domingo para a Taça da Liga, em Portimão com o Portimonense, tendo a comitiva chegado na madrugada de segunda-feira à Freamunde, dia em que devia fazer o suposto jogo com o Ponferradina.

Operação "Jogo Duplo" ´abala` Segunda Liga
Em março de 2017 arrancou a segunda fase da “Operação ‘Jogo Duplo’. As suspeitas de viciação de resultado e ‘match fixing’ resultou numa megaoperação conduzida pela Polícia Judiciária que terminou com seis detenções e oito arguidos. A investigação durou mais de um ano e teve ramificações desde o último processo da temporada passada onde 15 pessoas foram detidas.

A primeira fase da investigação resultou na detenção de 15 pessoas, entre eles quatro futebolistas que militavam no Oriental em 2015/2016 (João Pedro, André Almeida, Rafael Veloso e Diego Tavares), outros tantos da Oliveirense (Luís Martins, Pedro Oliveira, Ansumane e Hélder Godinho) e mais dois que alinharam na equipa de Oliveira de Azeméis em 2015/2016 (Moedas e João Carela). Entre os detidos estavam o presidente da SAD do Leixões, Carlos Oliveira, e o diretor desportivo, Nuno Silva, o ex-futebolista Rui Dolores. ‘Aranha’ e Custódio, dois elementos associados aos Super Dragões, claque do FC Porto.

As ações investigadas dizem respeito sobretudo à época 2014/15, mas também à temporada 2015/16. Os arguidos são acusados ainda de estarem envolvidos com uma rede asiática de viciação de resultados, nomeadamente com ligações a empresários malaios.


Jogo do Benfica também já esteve debaixo de olho

O encontro entre o Feirense e o Rio Ave foi o mais recente embate da Primeira Liga a estar debaixo de suspeitas de estar viciado, mas não foi o primeiro. Em junho de 2015, a partida entre o Benfica e o Penafiel da temporada 2014/15 também foi investigado. A suspeição surgiu num relatório da FederBet, um organismo que monitoriza as apostas on-line.

O secretário-geral do organismo, Francesco Baranca, explicou que as suspeitas em torno do encontro não se prendem com a vitória folgada do Benfica, que era naturalmente favorito na receção ao Penafiel – os ‘encarnados’ deram então mais um passo rumo ao título e ditaram a despromoção dos penafidelenses nessa partida -, mas com o “movimento louco” e pouco lógico das apostas ‘online’ que se verificou e a forma como este se processou, com apenas um ‘handicap’, a apontar para pelo menos quatro golos.


Suspeitas até no Euro2016

O ressurgimento da questão das apostas começou no Campeonato da Europa conquistado por Portugal. Na sequência do torneio em França foram mesmo detidas 236 pessoas na China por apostas ilegais durante a prova, segundo números divulgados pelo Ministério da Segurança Pública da China.

Em termos monetários, foram apreendidos ou "congelados" cerca de 3,8 milhões de euros. No mesmo período de tempo, foram realizadas mais de 4 mil buscas em diversos países: China, França, Grécia, Itália, Malásia, Singapura, Tailândia e Vietname. Para a Interpol, foi uma das operações mais significativas e com mais resultados dos últimos anos.

FPF na luta contra o 'Matchfixing'
O problema dos resultados combinados tem sido umas das questões que tem merecido especial atenção da Federação Portuguesa de Futebol. Na época 2015/2016, a FPF anunciou uma parceria com a Sportradar, empresa suíça que se dedica à prevenção e combate à fraude no desporto, para ter a questão debaixo de olho. Na altura, Fernando Gomes disse que a viciação de resultados era uma ameaça ao desporto, mas que não era exclusiva de Portugal.

“É uma ameaça para o desporto em geral e para o futebol em particular. Em maio tive a oportunidade de chamar a atenção para este problema. Tratando-se de um fenómeno à escala mundial, não devemos partir do princípio que Portugal está imune", esclareceu.

A viciação de resultados volta a pairar sobre o futebol português com a Segunda Liga de novo a ser o principal alvo das investigações. O combate ao ‘matchfixing’ é uma das ´bandeiras` da FPF que continua a lutar por futebol transparente e sem intromissões de agentes de fora do desporto.

*Artigo corrigido e atualizado

Conteúdo publicado por Sportinforma