Sporting 1-3 Belenenses

08-05-2017 08:00

Análise: Nunca Alvalade tinha visto um despertar assim

Belenenses venceu no terreno do Sporting ao fim de 62 anos, quando nem sequer existia Estádio José Alvalade, numa manhã que caiu mal aos 'leões'.
Equipa do Belenenses festeja em Alvalade
Foto: Lusa

Equipa do Belenenses festejou como nunca em Alvalade

Por Inês Antunes sapodesporto@sapo.pt

Soava o apito final do Sporting-Belenenses e as primeiras piadas começavam a surgir nas redes sociais. Até a mítica frase de Marco Fortes – aquela que dizia que, de manhã, só se está bem na caminha – foi utilizada para resumir um jogo matinal em que o Sporting, bem vistas as coisas, resolveu ‘dormir na forma’. Porque, de facto, este era um encontro atípico pelo horário a que foi disputado, a que também não ajudou o ritmo mastigado, para não dizer aborrecido, de grande parte dos 90 minutos. Só que foi muito mais do que isso. Porque este também foi o dia do despertar de um Belenenses que há 62 anos (!) não vencia os ‘leões’ fora de portas. Quando ainda nem sequer havia Estádio José Alvalade.

O jogo:

De um lado, uma formação que não perdia há onze jornadas – nove vitórias e dois empates – do outro, um conjunto que há sete jogos que só sabia perder e que não havia marcado qualquer golo nos últimos três duelos na condição de visitante. Era tudo a pedir para que os ‘leões’ entrassem em piloto automático. Sem o rasgo de Gelson – rendido por Matheus Pereira - e Podence, esse cenário ganhava ainda mais força.

Não foi, portanto, surpreendente testemunhar a lentidão com que a bola era trocada, o ritmo pachorrento a que as jogadas se desenrolavam durante a primeira parte. Do Sporting, apenas um remate, de Adrien, ao minuto 27 - Bas Dost teimava em chegar atrasado a todos os cruzamentos – e muito, muito poucas ideias. Já o Belenenses tinha os seus homens mais compactos e encostados à baliza de Ventura, conseguindo ainda algumas jogadas de contra-ataque, mas sem grande incómodo para Rui Patrício. Alvalade quase encheu mas devem ter sido poucos os adeptos que não soltaram um bocejo.

Antes do jogo, falava-se na possibilidade de a equipa ‘leonina’ aumentar a pressão sobre o FC Porto, que na véspera havia empatado com o Marítimo - em caso de vitória, os sportinguistas ficariam a apenas três pontos do terceiro lugar. Jorge Jesus sabia disso, tanto que o puxão de orelhas ao intervalo teve efeitos imediatos. A equipa da casa entrou mais atrevida e foi uma questão de tempo até as redes da baliza de Ventura balançarem: cruzamento de Bryan Ruiz na esquerda, a bola bate na trave, e Bruno César, de carrinho, encosta para o primeiro da partida (52′).

O Sporting, como seria de esperar, acelerou em direção ao 2-0, com Domingos Paciência a aproveitar para reforçar a linha ofensiva, lançando Maurides. Foram, no entanto, os defesas que estiveram na origem da reviravolta dos ‘azuis’ do Restelo. A começar pela ‘mãozinha’ de Matheus Pereira, a tocar a bola com o braço na área. A conversão ficou a cargo de Abel Camará, a libertar toda a sua raiva nos festejos, depois de uma semana marcada pela relação difícil com alguns adeptos belenenses. Mais tarde ficou-se a saber que seria mesmo o último golo do jogador no emblema da cruz de Cristo.

Jesus arregaçou as mangas e lançou Campbell para o lugar de Matheus Pereira, e Castaignos por troca com Bryan Ruiz, mexidas que o próprio técnico viria a lamentar mais tarde. O holandês foi responsável pelo falhanço do jogo, quiçá da jornada, a atirar com toda a força por cima da trave, quando estava isolado perante a hesitação de Ventura. Em sentido inverso, Domingos Paciência foi bem mais feliz nas substituições, sobretudo com a entrada de Benny.

Foi dos pés do médio português, de apenas 20 anos, que saíram os dois livres que consumaram a reviravolta do Belenenses, concretizados por dois centrais, primeiro Dinis Almeida, num movimento à avançado (83’), e cinco minutos depois, Gonçalo Silva, após assistência de Maurides, a fechar as contas. Três lances de bola parada, três golos dos ‘azuis’ do Restelo e um ‘leão’ a ver jogar. Houve quem esperasse 62 anos por uma manhã assim.

O momento:

Golo de Dinis Almeida: Foi o momento de viragem no jogo. Ao minuto 83, pouco depois de uma perdida inacreditável de Castaignos, o Belenenses chegou ao 2-1, na sequência de um livre na esquerda, cobrado por Benny. A bola sofre um ligeiro ressalto em Coates e sobra para Dinis Almeida que, num remate acrobático em esforço, atirou para o fundo da baliza. Balde de água fria em Alvalade, quando ainda estava mais para vir.

Casos do jogo:

Falta de Bruno César sobre Edgar Ié: Ao minuto 18, fica a ideia de que o médio ‘leonino’ travou o defesa do Belenenses em falta, no limite da área, quando este seguia em posição privilegiada para a baliza de Rui Patrício. Os jogadores visitantes reclamaram falta e cartão para o brasileiro, mas Bruno Paixão mandou seguir. Nada a dizer na análise ao lance da grande penalidade cobrada por Camará.

Os melhores:

Gonçalo Silva: Foi o dono da defesa do Belenenses, conseguindo anular Bas Dost, o que não é tarefa para qualquer um. Revelou-se intransponível no jogo aéreo e influente no ataque, com o golo apontado já perto do minuto 90.

Domingos Paciência: Conseguiu a primeira vitória no comando técnico dos ‘azuis’ e logo na casa de outra equipa que já teve oportunidade de orientar. No duelo do banco, ganhou sem espinhas a Jorge Jesus, principalmente com as substituições que operou na equipa.

Bruno César: O melhor elemento em campo do Sporting. Incansável, fez com que a equipa subisse no terreno, tendo sido o mais produtivo a nível ofensivo. Bem no lance do 1-0, ao perceber a jogada e, desse modo, antecipar-se a Ventura.

Os piores:

Matheus Pereira e Bas Dost: O primeiro, pelo erro que originou a grande penalidade favorável ao Belenenses, o segundo, por ter estado completamente ausente da partida, muito também por culpa dos defesas adversários, que não lhe deram grande margem de manobra. Falta-lhe mais mobilidade na área.

As reações:

Bruno de Carvalho: "Infelizmente foi um jogo deprimente para o Sporting"

Jesus: "Jogadores que entraram não melhoraram a equipa, pelo contrário"

Domingos Paciência: "A equipa tem tido um comportamento exemplar"

Paulo Oliveira: "A este nível, alguma falta de rigor paga-se caro"

Gonçalo Silva: "Hoje fizemos história"

Curiosidades (via playmakerstats)

- Há 2 meses que o Belenenses não vencia qualquer jogo: a última vitória fora de portas foi em Arouca (1-2), em fevereiro

- É a primeira vitória de sempre do Belenenses no Estádio José Alvalade (antigo e novo)

- Foi a primeira grande penalidade assinalada em Alvalade contra o Sporting em 2016/17; no total, foi o quarto golo de penálti que os ‘leões’ sofreram esta época

- Bruno César chega aos 10 golos pelos ‘leões’ e iguala Adrien e Gelson como o terceiro melhor marcador (6) do Sporting em 2016/17

Conteúdo publicado por Sportinforma