FC Porto

08-06-2017 16:50

Sérgio Conceição, um treinador 'à Porto' para despertar o 'dragão' adormecido

Treinador manteve o lado emotivo que o caracterizava como jogador.
Sérgio Conceição reage após o empate com o Nice
Foto: JEAN-SEBASTIEN EVRARD

Sérgio Conceição

Por SAPO Desporto sapodesporto@sapo.pt

Não foi fácil. Chegou mesmo a adquirir contornos de ‘novela’, mas está encontrado o sucessor de Nuno Espírito Santo. Sérgio Conceição chega ao Dragão depois de um processo complexo, principalmente por causa da rescisão com o Nantes, emblema com o qual tinha contrato até 2020, para tentar resgatar o FC Porto de uma travessia no deserto que já dura há quatro anos. Foi, aliás, o emblema gaulês a dar conta da "vontade irreversível" do técnico em rumar à Invicta - o clube portuense oficializou esta quinta-feira a chegada do técnico.

O treinador português regressa, assim, ao clube que representou entre 1996 e 1998 – já tinha cumprido parte da formação nos ‘dragões’ – e em 2003/2004, ao fim de seis épocas no futebol italiano (jogou na Lazio, Parma e Inter). Nas três temporadas em que representou os ‘azuis e brancos’ sagrou-se sempre campeão, tendo ainda somado uma Taça de Portugal e uma Supertaça.

O adeus aos relvados chegou em 2009/2010, quando representava o Paok de Salónica. Para trás ficavam 16 anos a ganhar a vida dentro das quatro linhas. Foi convidado a assumir o cargo de diretor desportivo do emblema grego, mas a experiência acabou por terminar de forma abrupta, devido a incompatibilidades com o vice-presidente do clube.

Foi a oportunidade perfeita para dar início a uma nova carreira: a de treinador. Depois de uma passagem pelo Standard Liège como adjunto, Conceição assumiu o comando técnico do Olhanense em 2011, de onde rapidamente ‘saltou’ para a Académica. O bom trabalho na Briosa motivou o convite de António Salvador, presidente do SC Braga, em 2014, para ocupar o lugar deixado vago por Jorge Peixão, que já tinha sucedido a Jesualdo Ferreira. Os minhotos tinham terminado o campeonato na 9.ª posição numa época muita abaixo das expetativas.

Com Sérgio Conceição no banco, os números do SC Braga melhoraram – quarto lugar na Primeira Liga e ainda uma presença na final da Taça de Portugal. No entanto, e apesar de ter estado a vencer por 2-0, acabou por perder para o Sporting, então orientado por Marco Silva, nas grandes penalidades.

A boa campanha dos bracarenses nessa época não foi suficiente para ‘sarar’ as feridas provocadas pela derrota no Jamor e Sérgio Conceição acabou mesmo por deixar a Pedreira, saída igualmente motivada pela relação instável com o presidente dos minhotos.

O verão foi quente no Minho, com Conceição a trocar o SC Braga pelo Vitória de Guimarães, dois clubes com forte rivalidade no futebol. Curiosamente, nesta altura já se falava no FC Porto como possível destino do técnico, mas acabou por ser o emblema vitoriano a receber o ex-internacional português como sucessor de Rui Vitória (nesta altura o treindor ribatejano estava de malas feitas para o Benfica).

A mudança acabou por não ser positiva. Em Guimarães, Sérgio Conceição não foi além de um 10.º lugar no campeonato, posição bem aquém dos objetivos traçados pelo presidente do clube, Júlio Mendes. A saída era, portanto, um cenário mais do que anunciado. E assim foi.

Foi então que a carreira do técnico tomou um ano sabático. Sem clube durante um ano, a oportunidade de treinar fora de Portugal chegou pela mão de um ‘aflito’ Nantes. A equipa da Ligue 1 estava na zona de despromoção na altura em que o português recebeu o convite de Waldemar Kita para assumir o comando técnico. Meses depois, o Nantes terminou o campeonato seguro a meio da tabela e com os adeptos rendidos ao trabalho do treinador.

O resto é história. A saída de Nuno Espírito Santo colocou Conceição no radar de potenciais escolhas para o Estádio do Dragão – chegou a falar-se também de Marco Silva, Paulo Sousa ou Pedro Martins. O presidente dos gauleses não gostou e veio a público dizer que não ia abdicar do português, com quem havia renovado recentemente. E apenas um dia depois, o mesmo Waldemar Kita deu conta do pedido do treinador para sair, apontando o dedo a Pinto da Costa.

"Estou, sobretudo, chateado com o presidente do FC Porto, qua contactou um treinador que tem um contrato, sem nos avisar. Aqui em França falamos de falta de ética dos políticos, mas também temos de olhar para os dirigentes desportivos. O Porto tinha de ter entrado em contacto connosco. É uma questão de respeito", disse então o presidente do Nantes.

A transferência de Sérgio Conceição para o FC Porto começava a fazer correr muita tinta mas rapidamente ficou acertada. Os responsáveis do clube francês reconsideraram a situação, perante o cenário de manterem à frente da equipa um treinador contrariado, e baixaram a fasquia quando se admitiu a entrada de alguns jogadores portistas no negócio – Kayembe e Chidozie.

O lado emotivo e radical de Conceição

Seis anos volvidos do primeiro desafio como treinador, uma coisa é certa. O lado emotivo de Sérgio Conceição, que se destacou durante a carreira de jogador, mantém-se. Mas não só. O técnico vai impor o seu cunho pessoal nos ‘dragões’, sendo vários os comportamentos que o distinguem dos antecessores. Há quem diga mesmo que nunca conheceu um treinador assim.

De acordo com o jornal O Jogo, Conceição dá bastante importância ao jogador e às dinâmicas de grupo, não se esquivando de ajudar nas questões pessoais que possam preocupar os atletas e condicionar o seu rendimento. O balneário é um dos espaços mais sagrados para o técnico, de tal forma que só entra no espaço quem o treinador autoriza.

Por outro lado, Sérgio Conceição acredita no humor como forma de descontração, chegando a promover convívios de grupo com direito a espectáculos de ‘stand up comedy’. São também comuns as atividades de grupo que promove, desde sessões de paintball a corridas de karting, tudo com o objetivo de ajudar o plantel a descomprimir da pressão dos jogos.

As questões psicológicas também merecem grande atenção por parte do agora treinador dos ‘dragões’, que recorre ao ‘coaching’ com frequência. Susana Torres, a famosa mentora que ajudou Éder, chegou a estar em Braga e em Guimarãe, para sessões às 6 horas com os jogadores, antes do treino. O técnico acredita que a motivação dos seus atletas, com técnicas específicas do ponto de vista mental, assume grande importância.

Artigo publicado originalmente a 04/06/2017

Conteúdo publicado por Sportinforma