Carlos Queiroz

10-09-2010 09:18

Crónica de um despedimento anunciado

Foi desta forma literária que o advogado de Carlos Queiroz se pronunciou sobre a decisão tomada quinta-feira pela Federação Portuguesa de Futebol de dispensar Carlos Queiroz. Há muito que era tudo uma questão de tempo.
Crónica de um despedimento anunciado

Por Inês Henriques sapodesporto@sapo.pt

Carlos Queiroz sucedeu a Scolari no cargo de seleccionador nacional, após a saída do técnico brasileiro para o Chelsea, anunciada pelo mesmo em pleno campeonato da Europa de 2008. Na bagagem trazia a promessa de conquistar tudo. A 11 de Junho de 2008, Carlos Queiroz regressava aos comandos da Selecção Nacional, onde já tinha estado entre 1991 e 1993 (com apenas 38 anos, sendo o mais jovem seleccionador de sempre), e de onde saiu com a polémica frase: “É preciso limpar toda a porcaria da Federação!”.

Quase duas décadas depois, essa mesma citação não foi recordada e o professor, que abandonava o seu posto de adjunto de Alex Ferguson no Manchester United, reunia o consenso de várias figuras de peso do futebol, como Figo, Rui Costa e Cristiano Ronaldo e Gilberto Madaíl propôs um contrato de quatro anos, a 1,6 milhões de euros/ano, bruto.

No entanto, as polémicas começaram logo na primeira convocatória da qualificação para o Mundial2010, quando deixou de fora 10 jogadores que estiveram no Europeu e esta foi anunciada no site da fpf, sem direito a perguntas. O primeiro jogo, porém, convenceu (4-0 a Malta), mas daí para a frente foram-se sucedendo as derrotas e os empates que obrigaram Portugal a disputar o play-off com a Bósnia.

Já no Mundial, a primeira polémica, com Nani, que ainda em Oeiras se tinha lesionado na clavícula e já não participou no último treino em território português. O avançado foi dispensado, mas à chegada a Lisboa disse que estaria “bem dentro de três ou quatro dias”. Depois foi Deco, no final do enconctro com a Costa do Marfim (0-0), que criticou as opções do técnico, mas no dia seguinte se retratou através de comunicado.

Tudo abrandou com a goleada histórica frente à Coreia do Norte (7-0), não houve percalços no jogo frente ao Brasil (0-0), já que o empate garantiu a qualificação para os “oitavos”, onde Portugal defrontou a Espanha. A derrota por 1-0 e consequente eliminação do Mundial fez ferver o ambiente, com Ronaldo a não querer responder na zona mista à pergunta sobre a causa da derrota: “Perguntem ao Queiroz”, disse na altura o capitão. Hugo Almeida também contradisse o técnico, ao afirmar que não estava desgastado no momento em que foi substituído.

A Selecção chegou a Lisboa no dia 1 de Julho e, apesar de parecer que as coisas não estavam bem, a Federação emitiu um comunicado, a 14 de Julho, onde dava conta que “os objectivos tinham sido cumpridos, apuramento para a fase final e depois para os oitavos-de-final”.

Mas a bomba ainda estava para vir. 10 dias depois, o Secretário de Estado da Juventude e do Desporto dava a conhecer o caso Queiroz. “São factos graves”, disse, sobre as palavras proferidas por Carlos Queiroz aos médicos da Autoridade Antidopagem de Portugal (ADoP), que a 16 de Maio se deslocaram à Covilhã para um controlo.

Suspenso primeiro pelo Conselho de Disciplina da FPF, mas ilibado de perturbar o controlo, Carlos Queiroz foi pouco depois suspenso pelo ADoP por seis meses por ter perturbado um controlo antidoping. Ainda com um processo disciplinar a correr na FPF (pelas declarações proferidas sobre Amândio de Carvalho ser “a cabeça do polvo), o seleccionador foi dispensado a 9 de Setembro de 2010, 760 dias após a chegada.