Portugal 2-3 Suécia

29-03-2017 07:20

'Tiros no pé' mancharam noite do filho pródigo

Ronaldo estreou-se a marcar pela Seleção na sua terra natal, num jogo em que tudo apontava para a vitória da equipa das quinas. Erros defensivos na segunda parte, também por culpa das alterações promovidas por Fernando Santos, deram outro final ao encontro.
Cristiano Ronaldo em ação contra a Suécia
Foto: FRANCISCO LEONG / AFP

Cristiano Ronaldo em ação contra a Suécia no jogo da Seleção Nacional no Estádio dos Barreiros, na Madeira.

Por Inês Antunes sapodesporto@sapo.pt

Não era difícil fazer futurologia sobre este Portugal-Suécia, que, convém não esquecer, não passava do chamado ‘jogo a feijões’. Iria Fernando Santos mexer na equipa? Mexeu, mas, contrariamente ao que se esperava, não o fez em função do clássico. Iria Ronaldo marcar na estreia em jogos com a camisola da Seleção na ‘sua’ Madeira? Marcou. Iria o encontro do próximo sábado dominar o pensamento dos jogadores de Benfica e FC Porto? Esta é mais difícil de responder, mas a avaliar pelo que se passou em campo, é de se arriscar o ‘sim’. Falhou, no entanto, uma previsão que parecia ter tudo para dar certo. Iria a Suécia estender a passadeira ao campeão europeu em noite de festa e numa Madeira que já não visitava há quase 16 anos? Errado.

O que parecia ganhar contornos de goleada, isto numa altura em que Portugal já vencia por 2-0, acabou por dar lugar a um balde de água fria. Fria como a própria equipa visitante, que não mostrou quaisquer problemas em castigar o entorpecimento da equipa lusa na segunda parte e, como consequência, a estragar uma noite que se adivinhava de festa, tal como havia acontecido até então. Claesson foi o homem do jogo depois da saída do capitão português, mostrando que há vida na Suécia depois de Ibrahimovic. A infelicidade de Cancelo fez o resto.

O jogo:

No final do encontro, Fernando Santos, que não gosta de perder nem a feijões, afirmou que não há cá jogos de festa e que os seus pupilos jogaram como se estivessem numa ‘pelada’, numa alusão à forma como a equipa praticamente não defendeu na segunda parte, depois de ter ido para o intervalo com uma vantagem de dois golos. Um encontro com duas histórias, por assim dizer. Porque na primeira parte tudo parecia ir de encontro ao que se esperava. Era Ronaldo e mais dez – mudança radical de onze relativamente ao jogo com a Hungria – e tudo estava feito para que o filho pródigo brilhasse.

E Ronaldo lá fez o jeito, com um golo que levou os cerca de 17 mil adeptos nos Barreiros ao delírio, após cruzamento de trivela (alguém anda a passar bastante tempo com Quaresma) de Gelson Martins, igualando Miroslav Klose no terceiro lugar da lista dos melhores marcadores de seleções europeias. Muitos madeirenses tiveram oportunidade de representar Portugal, assim como muitos outros fizeram golos pela Seleção. Só o jogador do Real Madrid conseguiu jogar e marcar pela equipa lusa em solo madeirense.

Apenas 18 minutos depois do apito inicial, tudo corria conforme o guião. Portugal foi-se entusiasmando e acabou mesmo por chegar ao 2-0 ainda antes do intervalo, por infelicidade do outro capitão em campo, Granqvist, também ele o único resistente no onze de Jan Andersson, na sequência de nova iniciativa de Gelson (bom jogo do ‘miúdo’).

Fernando Santos voltou a baralhar a equipa ao intervalo - Eliseu e Danilo puderam descansar para o clássico, assim como Bernardo Silva e Moutinho, que já devem pensar na final da Taça da Liga francesa, dando lugar a Éder, Pizzi, William Carvalho e Nelson Semedo. Pedia-se estabilidade nesta altura do jogo, o que não aconteceu, porque juntar jogadores pouco utilizados com outros jogadores também eles pouco habituados à titularidade na seleção não podia dar bom resultado.

Chegou a ser gritante a falta de entrosamento na equipa lusa e a apatia na abordagem aos lances, sobretudo a nível defensivo. Só que desta vez a Suécia não foi o adversário ‘mansinho’ e perdulário do início do encontro nem Claesson parecia minimamente importado com a festa que se fazia nas bancadas. Dois golos do extremo confirmaram a tal falta de agressividade dos portugueses, que, verdade seja dita, só podiam estar com a cabeça noutro lado que não naquela ilha. Antes do segundo golo já Ronaldo tinha dado lugar a Quaresma, sob nova ovação do público, deixando muita gente a suspirar pela eficácia da parceria com André Silva, que desta vez nem do banco saiu.

Nesta altura, tudo indicava que a ‘peladinha’ no Funchal iria terminar da mesma forma que todas as outras ‘peladinhas’ entre amigos e conhecidos: com um empate, que é para ninguém ficar triste. Só que o pior ainda estava para vir. João Cancelo, com um desvio fatal para a própria baliza, acabou por ser a personificação de todo aquele entorpecimento coletivo da equipa lusa na segunda parte. Porque, sim, este era apenas um jogo particular, mas nem por isso Fernando Santos deixou de ter razão na forma zangada como surgiu na conferência de imprensa pós-jogo. Mesmo com quota-parte de culpa pelas mudanças que operou.

O momento:

Golo de Ronaldo: O português só teve de esperar 18 minutos para se estrear a marcar pela seleção na sua terra natal, concretizando da melhor forma um belo centro de Gelson. O golo do capitão levantou o ‘caldeirão’, fazendo com que muitos madeirenses riscassem da sua lista o sonho de ver um golo ao vivo do seu conterrâneo.

Os melhores:

Ronaldo: Depois do ‘bis’ no Estádio da Luz, Ronaldo voltou a fazer o que melhor sabe, desta vez com um sabor ainda mais especial, no regresso à terra natal para o primeiro jogo ao serviço da seleção. Brindou os adeptos com um golo aos 18 minutos esteve perto de repetir a dose por outras duas vezes, numa delas travado pelo guardião sueco, na outra com o remate a sair ligeiramente por cima da baliza, na sequência de um livre direto. Acabou por sair logo após o 2-1.

Gelson Martins: Na estreia a titular pela Seleção, Ronaldo não poderia ter pedido melhor discípulo. Destaque para a assistência com nota artística para o golo do avançado do Real Madrid e para a jogada individual que culminou no auto-golo de Granqvist. Com apontamentos desta qualidade, Fernando Santos não terá outra hipótese senão deixá-lo jogar. Com regularidade.

Claesson: O avançado do Krasnodar foi o mais endiabrado da equipa sueca, gélido na forma como concretiza as jogadas, bem ao estilo nórdico. Bisou na partida mas convém não esquecer outras tantas oportunidades desperdiçadas no início da primeira parte.

Os piores:

Defesa lusa na segunda parte: A grande dor de cabeça de Fernando Santos. E não há desculpa que sirva para uma equipa que, a vencer por 2-0, permite a reviravolta ao adversário num lance de bola parada e em duas situações de contra-ataque. Faltou, acima de tudo, velocidade, acerto nas marcações e agressividade na abordagem aos lances. O auto-golo de Cancelo, já no último suspiro, foi apenas o culminar de uma noite ‘negra’ para a defensiva lusa.

As reações:

Fernando Santos: "Equipa jogou como se fosse uma 'pelada'"

Gelson: "Resultado não foi o melhor, mas temos de levantar a cabeça"

Curiosidades:

- Depois deste jogo, a Suécia passa a ser, a par da Arménia, a seleção que mais sofreu nas ‘mãos’ de Ronaldo, com um total de cinco golos encaixados

- Ronaldo somou o quinto jogo consecutivo a marcar pela equipa das quinas, igualando Eusébio e Pauleta e ficando a apenas um jogo de atingir a marca de Torres

- A última vez que Portugal perdeu depois de estar a vencer por 2-0 foi em 1985, num amigável com a Roménia (2-3)

- Foi a primeira vez desde que Fernando Santos assumiu o cargo de selecionador que Portugal perdeu um duelo no qual faturou mais do que uma vez

Conteúdo publicado por Sportinforma