Rio2016

10-08-2016 12:30

Negra, pobre e da favela: o ouro de Rafaela Silva é o do Brasil que deu certo

Rafaela Silva deu o primeiro ouro ao Brasil ao sagrar-se campeã olímpica no judo, categoria -57kgs.
Rafaela Silva conquista ouro no Judo (-57 kgs)
Foto: AFP

Rafaela Silva conquista ouro no Judo (-57 kgs)

Por SAPO Desporto sapodesporto@sapo.pt

O primeiro ouro do Brasil nos Jogos Olímpicos saiu de um ´conto de fadas`. Saiu dos braços pequenos e da garra de Rafaela Silva, uma negra nascida na favela de Cidade de Deus, Rio de Janeiro. Há quatro anos, esta judoca nascida numa das favelas mais pobres do Rio de Janeiro, foi insultada após eliminação precoce em Londres, depois de aplicar um golpe ilegal numa adversária. Nas redes sociais houve quem a tivesse chamado de macaca e dito que ela devia estar numa jaula. Muitos disseram que ela era a vergonha da família, a vergonha do Brasil.

"Neste momento, eu só posso falar que o macaco que tinha de estar na jaula é campeã olímpica e que eu não sou a vergonha para a minha família, vergonha para ninguém", atirou Rafaela à TV Globo, logo após a conquista do ouro no judo na categoria -57 kgs.

Depois de Londres2012, logo após a eliminação por um golpe que “já tinha visto outros homens aplicarem aos adversários e não serem castigados”, Rafaela Silva voltou para o Rio determinada a nunca mais praticar judo. Humilhada nas redes sociais, a judoca da Cidade de Deus esteve três meses longe do tatami. Leo Salvado, um psicólogo da ONG de Flávio Canto, o mesmo que quis levar o judo às favelas, ajudou Rafaela Silva a voltar ao ativo. Em 2013, por exemplo, sagrou-se campeã mundial no Rio.

A história de Rafaela Silva é a cara do Brasil, é o Brasil que ´deu certo`.

Rafaela Silva nasceu há 24 anos na favela Cidade de Deus, onde o realizador Fernando Meireles realizou o filme com o mesmo nome. A entrada da pequena Rafa no judo deu-se por acaso.

Tudo começou com o "Projeto Reação", um projeto social da autoria de Flávio Canto, o judoca que deu um bronze ao Brasil nas olimpíadas de Atenas em 2000. A ideia era levar a modalidade às principais favelas do Rio de Janeiro. Começou na Rocinha e foi até a Cidade de Deus onde, Luiz Carlos do Rosário, pai de Rafa, levou as duas filhas para o judo "para as tirar da rua". A mais velha, Raquel, engravidou com 15 anos. Abandonou o judo e por lá deixou a irmã para que ela, 16 anos depois, pudesse mostrar que é possível ter-se sucesso mesmo para quem nasceu e cresceu numa favela.

"É muito bom para as crianças que estavam a assistir ao combate. Se eu pude ajudá-las com este resultado, de mostrar que uma criança que saiu da Cidade de Deus com cinco anos, começou no judo por brincadeira e hoje é campeã mundial e campeã olímpica. Se elas têm um sonho, elas têm que acreditar, porque pode se realizar", frisou a nova campeã olímpica de judo nos -57 kgs.

Logo após a conquista da medalha, Rafaela Silva só tinha olhos para a família. Na terça-feira, depois de dormir apenas quatro horas, foi acordada às 8h00 por pessoas que queriam abraçá-la e ver a sua medalha. E quando voltou a abrir o seu Instagram, viu que o número de seguidores tinha passado de 10.000 para 90.000. As mensagens de felicitações chegaram de todo o lado, incluindo de desportistas famosos. A jogadora Marta, estrela da seleção de futebol feminino do Brasil, e o craque Neymar foram alguns dos que fizeram questão de dar os parabéns a esta lutadora.

Na final, Rafaela Silva, aplicou um wazari à mongol Sumiya Dorjsuren, a mesma que afastou Telma Monteiro nas meias-finais e ´roubou` o sonho de uma medalha com outro brilho à campeã portuguesa. Rafaela Silva é apenas a segunda atleta do judo a dar um ouro ao Brasil em Jogos Olímpicos.

Conteúdo publicado por Sportinforma