Pela primeira vez, Cabo Verde vai participar numa competição internacional por mérito próprio e não por convite. O autor da proeza é o atleta paralímpico cabo-verdiano, Márcio Fernandes, que vai marcar presença nos Jogos Paralímpicos de Londres em finais de agosto. O SAPO Desporto foi descobrir mais sobre o desporto paralímpico cabo-verdiano e os seus atletas.

COPAC

O desporto paralímpico cabo-verdiano é uma atividade impulsionada pelo Comité Paralímpico de Cabo Verde (COPAC), que surgiu em 1998 no seio do da Associação Cabo-verdiana de Deficientes (ACD). Na altura designava-se Comité Cabo-verdiano de Desporto para Deficientes (CCD). A iniciativa tinha como intuito “introduzir a prática de atividades desportivas para pessoas portadoras de deficiência”, explica o atual secretário-geral do Comité, Rodrigo Bejarano. Contudo para pertencer à família paralímpica internacional, o comité mudou de nome para Comité Paralímpico de Cabo Verde, em 2009.

O COPAC tem dois grandes objetivos: a integração dos jovens e crianças portadores de deficiência na sociedade através da educação, reabilitação, integração e atividade desportiva; e o desporto paralímpico de alto nível onde participam os atletas nacionais que mais se destacam pela sua classificação e performance.

A nível de financiamento, Rodrigo Bejarano explica que o COPAC subsiste das ajudas públicas bem como de protocolos estabelecidos com empresas cabo-verdianas e parceiros internacionais. Uma verba anual e a disponibilização de técnicos formados são os contributos do Ministério de Educação e Desporto de Cabo Verde.

O COPAC é uma instituição que faz parte do Comité Olímpico Cabo-verdiano e tem representações em todas as ilhas. Em Santo Antão, por exemplo, existem duas sedes, estando a ser criada mais uma.

Participação nos Jogos Paralímpicos de Londres

O atleta paralímpico, Márcio Fernandes vai levar o nome de Cabo Verde aos Jogos Paralímpicos de Londres em finais de agosto. Mas o secretário-geral salienta: “Para que um atleta possa participar, há um caminho muito longo”. Para tal é necessário obter uma classificação internacional, ter inscrição obrigatória, efectuar uma série de testes de classificação desportiva e, principalmente, há que competir e em Cabo Verde e no continente africano não há muitas competições no âmbito do desporto adaptado.

A nível de custos a participação nos Jogos Paralímpicos é financiada com o apoio de privados mas também com fundos públicos. “Levar um atleta e o seu treinador para Londres, desde o período de qualificação, fica à volta dos cinco milhões de escudos (5 mil contos ou seja, perto 45000 euros) ”. Bejarano salienta que o desporto olímpico convencional, em si, exige requisitos elevados.

O secretário-geral explica que em Cabo Verde não há infra-estruturas adaptadas para os treinos de atletas de alta competição. Assim estes têm de deslocar para o estrangeiro, inclusive para marcar presença em provas homologadas para “fazer marcas” que lhes permitam fazer qualificações para as grandes competições.

“Para se qualificar há mínimos específicos”, explica Orlando Mascarenhas, director desportivo da COPAC e chefe da missão para Londres, e acrescenta que cada modalidade tem os seus valores mínimos.“ E como Cabo Verde é um país novo nessa rota internacional, os nossos dirigentes não entendem que um atleta não se faz a seis meses dos jogos”. Mesmo depois da qualificação, um atleta tem de manter a performance. No caso do Márcio, o atleta participou no Campeonato Africano e em várias provas homologadas a nível internacional.

Modalidades desportivas

Segundo Rodrigo Bejarano, a nível nacional há cerca de 200 atletas que praticam algum tipo de desporto adaptado. O último campeonato nacional, CANADEP, contou com a participação de 92 atletas cabo-verdianos. No que diz respeito aos atletas com nível internacional, que já conquistaram medalhas e têm marcas em provas, são cerca de 20.

“Temos modalidades essencialmente de competição e outras usadas com uma vertente recreativa, que são o voleibol e o basquetebol”, explica o director técnico nacional de Cabo Verde, Idélio Mendes. O atletismo surge como modalidade de competição, nas vertentes de lançamento de dardo, peso e disco, provas de velocidade e resistência. “Neste momento estamos a treinar dois atletas, para participarem nos Jogos da CPLP”. O técnico explica que os jogos coletivos facilitam mais a integração social do que as modalidades individuais.

Paralelamente, o secretário-geral do COPAC explica que a instituição está a desenvolver projectos com o Ministério de Educação para a formação de professores em atividade física desportiva adaptada de modo a que haja profissionais com a preparação adequada para ensinar os alunos no secundário, por ex., portadores de deficiência.

Para cada tipo de portador de deficiência existe uma classificação específica que deve ser reconhecida a nível internacional. Já dentro das próprias modalidades existem classificações por tipo de deficiência. Para provas de pista (Track), que consistem em corridas de velocidade e fundo, os atletas têm, por exemplo, as seguintes classificações: T11 a T13 para deficientes visuais, sendo que a atleta Keula Semedo é T11. Já os amputados e os outros correspondem à classificação T41 a T46, onde o atleta Márcio Fernandes tem a classificação de T44. A classificação é a mesma para ambos os sexos.

Para as provas de campo (Field) a classificação é iniciada com o F11 a F13 para os deficientes visuais. Existem ainda classificações funcionais para as modalidades de Basquetebol, Halterofilismo (Levantamento de pesos) e Natação.

Treinos

Há cerca de 10 anos, que diariamente mais de uma dezena de atletas treinam junto à Biblioteca Nacional, na Praia. Foi nesse terreno semi-descampado que a Keula Semedo treinava, por exemplo. “Ela ganhou uma medalha de prata em Angola em 2005 a treinar ai”, conta Idélio Mendes. Atualmente, os atletas preparam-se para competições mais exigentes também no Centro de Estágios e no Campo de Adega, situado na Achada Grande Frente.

Uma grande parte do atletas que treinam no largo em frente à Biblioteca Nacional também pertencem ao grupo de dança "Mon na Roda". Idélio Mendes, que é também treinador destes atletas, conta que a ideia é "trabalhar a integração e colocar as pessoas à vontade". Além de desportos individuais, quando há um grupo suficientemente grande, os jovens praticam modalidades coletivas.

É este grupo de atletas que faz Janira Dias de São Vicente sorrir todos os dias. A jovem de 27 anos sofreu um acidente ainda em criança na sua ilha. Por motivos de saúde teve de viver em Portugal, mas regressou há um ano a Cabo Verde. Foi na Praia que conheceu os seus novos companheiros e hoje é atleta, dançarina e até já foi à praia, depois de 16 anos, graças à insistência do professor Idélio.

Já os atletas do Sal treinam na nova pista de tartan inaugurada recentemente na ilha. No caso de Márcio Fernandes, o atleta não pode treinar na nova pista, por exemplo, porque não teria onde fazer os lançamentos por não existir um relvado natural nem um ginásio adequado para a preparação física exigida. “Em Cabo Verde não existem condições para ele (Márcio) treinar cá”, lamenta Orlando Mascarenhas e acrescenta que o novo Estádio Nacional vai ter um relvado sintético, o que não permite a realização de provas de lançamento.

Outra condição indispensável é a existência de técnicos de alto nível que “ainda não temos”, segundo Rodrigo Bejarano. Para este responsável o desporto deve ter tanto o apoio estatal mas também privado. Mas ter infra-estruturas desportivas de qualidade que possam ser utilizadas para competições internacionais envolve grandes custos.

“Ter uma infra-estrutura exclusivamente para deficientes é um sonho, mas também iria contra o primeiro objetivo do comité que é a integração”, esclarece Bejarano.

Um sonho

O anterior presidente da Câmara da Praia adjudicou um terreno para o comité mas que não é suficientemente amplo para o ambicioso projeto do COPAC que inclui uma piscina, uma pequena pista de atletismo, instalações administrativas, refeitório e alojamento. E ainda um jardim infantil para as crianças portadoras de deficiência e um espaço fechado para outras atividades desportivas.

“ Cerca de 2 mil metros quadrados” é o que seria necessário para a implementação de um projeto desta natureza. Segundo o responsável do COPAC a atual Câmara da cidade da Praia está aberta a negociar um novo espaço maior. “Estaríamos dispostos a trocar (o terreno que já têm)”, explica Bejarano.

CANADEP 2012

O segundo Campeonato Nacional de Desporto Paralímpico, CANADEP, deve ser realizado este ano na ilha do Sal. A data prevista é o final do mês de Novembro. A última prova deste género foi realizada em 2007 e até agora foi difícil encontrar verbas suficientes para uma nova edição da prova.

Situação em África

Para o secretário-geral o desporto paralímpico no continente africano ainda está em desenvolvimento e explica que dos 53 países africanos, ainda há 10 que não tem um comité paralímpico. Nos últimos dois anos, foram criados e/ou reativados 20 a 25 comités paraolímpicos. “África é um continente que tem muitas pessoas portadoras de deficiência, não só por doenças, mas também por causa das guerras”, salienta Rodrigo Bejarano.

“O nosso comité é modelo em África”, afirma o dirigente do COPAC. A experiência de Cabo Verde serve de exemplo para países onde os comités ainda estão em desenvolvimento.

A multiplicidade linguística e cultural dificulta por vezes o trabalho no continente. Um dos objetivos atuais é que todos os países africanos ratifiquem a Convenção da ONU referente às pessoas portadoras de deficiência. Outro objetivo é potencializar os comités já existentes, nomeadamente a nível de realização de competições, por exemplo.

O dirigente salienta que há países africanos que já estão num nível superior no que diz o respeito ao desporto adaptado. São os caso da África do Sul, do Egito, da Nigéria, da Tunísia e de Angola.