Crónica de Elisabete Jacinto

06-01-2017 14:43

Do mal... o menos!

A piloto portuguesa descreve aos utilizadores do SAPO Desporto a situação que levou ao fim da participação na África Eco Race.
Camião de Elisabete Jacinto
Foto: Elisabete Jacinto

Camião de Elisabete Jacinto

Por Elisabete Jacinto sapodesporto@sapo.pt

Sempre receamos que tal nos acontecesse. "Se um dia partirmos o motor, como é que fazemos?" Esta pergunta era uma espécie de fantasma que nos perseguiu durante todos estes anos. No camião de assistência arrumámos pistões, bielas....tudo o que fosse necessário para pôr o motor a trabalhar sabendo que, mesmo que não conseguíssemos continuar em prova, pelo menos iriamos traze-lo para casa. Fizemo-lo com optimismo conscientes de que nem todas as avarias de motor poderiam ser arranjadas no meio do deserto.

No nosso espírito havia uma outra sombra, a de que o camião de assistência não teria nunca condições de nos resgatar no meio de uma etapa. A sua já longa idade, o seu motor pouco potente e a sua pesada carga eram factores que nos deixavam bastante apreensivos quanto à possibilidade de poder ir ao nosso encontro no meio de uma etapa em caso de necessidade.

A forma como actuaríamos dependeria das circunstâncias mas sempre tivemos a certeza de que era um problema que não queríamos viver. Afortunados, o nosso motor revelou sempre uma fiabilidade fabulosa... começámos e terminámos etapas, corridas, ralis grandes como o Africa Race! ... e começámos a acreditar que, de facto, há problemas que só acontecem aos outros.

Contudo, a vida tem destas coisas, e como nós vivemos com convicção e estamos prontos para "o que der e vier" vamos experimentando todo o tipo de situações e emoções.


O dia em que o motor avariou chegou! Para nosso grande dissabor é simultaneamente para nossa grande sorte, logo no inicio da segunda etapa do nosso rali preferido, num lugar que todos conhecemos bem, não muito longe de uma estrada de alcatrão, no fundo de um rio seco cheio de areia mas no meio de uma planície dura de fácil acesso ... e a nossa assistência não estava muito longe.

É verdade que foi o camião vassoura que nos tirou do oued arenoso mas o nosso velhinho entrou lá para dentro com toda a ligeireza mostrando bem para que serve um camião de assistência e trouxe-nos até à cidade.

Às vezes sinto que a vida me é injusta... mas questiono se injusta não é a minha avaliação! Afinal de contas... dentro do mal foi o melhor possível!

Opinião