Opinião Rui Lança

11-09-2014 17:32

"Paulo Bento não soube regenerar-se enquanto líder"

Especialista em coaching analisa o despedimento do selecionador português.

Por Rui Lança sapodesporto@sapo.pt

O inevitável aconteceu. Não me parece que seja a melhor solução. E há culpa de ambas as partes que deixaram que esta situação se prolongasse demasiado. Não a situação de Paulo Bento ser treinador da selecção, mas sim o facto de a Federação não ter conseguido que Paulo Bento flexibilizasse a sua forma de estar.

Paulo Bento nunca foi reconhecido pela sua vertente táctica do jogo. Nem por ser um visionário. Paulo Bento era alguém com um perfil muito bem definido. Próximo de quem lhe era fiel, alguém que procurava um equilíbrio emocional e de regras colectivas no grupo de jogadores da selecção e, por vezes e menos do que as desejáveis, ia integrando alguns elementos, não como gestão do grupo mas para preencherem as lacunas técnicas e tácticas que o seu grupo fechado de jogadores não conseguia proporcionar.

Infelizmente, a liderança de um grupo – mesmo que fosse o melhor do mundo – é dinâmica. Paulo Bento tem – como qualquer outro treinador – possuir os seus valores mas os mesmos serem ajustáveis aos objectivos colectivos e não apenas aos do treinador.

O líder tem de entender que se trata de um processo bidireccional e considero que Paulo Bento demonstrou competência para o cargo durante muito tempo, mesmo colocando as regras que ele considerava imprescindíveis à frente muitas vezes dos objectivos colectivos da selecção.

Mas tentando gerir o grupo e os processos sempre da mesma forma, Paulo Bento arriscou que os seus valores e processos não se ajustassem à dinâmica das necessidades do grupo e do que era oferecido pelo seu grupo mais fechado de jogadores que na sua opinião, estavam completamente alinhados com aquilo que Paulo Bento chamava de regras do grupo.

Paulo Bento tem mais de seleccionador do que Jorge Jesus, Mourinho ou Vítor Pereira. Porque na selecção não há tempo para formar ou educar os jogadores. O tempo que o seleccionador está com eles é para formar um grupo, uma ideia ou modelo de jogo e convocar os jogadores que melhor vão ao encontro do modelo ou….ajustar o modelo aos jogadores. Não trabalham propriamente os jogadores. Não podem passar semanas e meses a orientar um atleta para ele melhorar movimentos defensivos ou ofensivos. Jesus, Mourinho ou Vítor Pereira sim.

O seleccionador tem de conseguir no menor tempo possível criar um grupo. Paulo Bento conseguiu. O erro é que a noção desse grupo não é fechá-lo para si. É conseguir regenerar constantemente em função de uma percentagem de jogadores fixos porque preenchem os requisitos técnicos, tácticos, físicos e mentais…mas uma outra percentagem ser flexível.

Por último, reforçar que o seleccionador tem de ser flexível. Não frouxo, não submisso, mas flexível.

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