Lassana Camará, mais conhecido por Saná, jogou futebol em Portugal, até esteve num mundial dos sub-20, mas hoje dedica o seu tempo a fazer apelos nas redes sociais e nos convívios com os jovens muçulmanos guineenses sobre a importância da tolerância religiosa.

Aos 28 anos e ainda a jogar futebol na segunda divisão da Roménia, depois de representar vários clubes portugueses, Lassana Camará, formado no Benfica, está de férias em Bissau e no seu bairro natal, Pilum, aproveita as horas para, entre as conversas com os amigos muçulmanos e não só, falar "da essência da religião" e a política.

A Guiné-Bissau está, por estes dias, em efervescência por causa de uma renhida campanha eleitoral, no âmbito da segunda volta das eleições presidenciais, marcada para dia 29, para eleger o novo Presidente do país, entre Domingos Simões Pereira, católico, e Umaro Sissoco Embaló, muçulmano.

O debate eleitoral gira também à volta de questões étnicas, com vários analistas a apontarem para riscos de fissuras no seio da população a partir do incitamento político.

Após cumprir mais uma oração na mesquita do seu bairro, vestido com uma comprida túnica azul, com um gorro islâmico na cabeça e uma barba farta, artefactos recomendados para os homens adultos seguidores daquela religião, Lassana Camará conversou com a Lusa para expor "o medo" que disse sentir em relação ao futuro da Guiné-Bissau em decorrência do ódio e violência que sente na campanha eleitoral.

"Eu nunca vi uma campanha eleitoral tão perigosa como esta que estamos a viver. Cada dia estamos a fomentar a divisão com base na religião. A religião é uma coisa de Deus e quem não tem bagagem suficiente que deixe o povo tranquilo", sublinhou Camará.

O futebolista não tem preferência sobre quem deva ser o próximo Presidente guineense, a única coisa que exige é que nenhum dos dois promova a divisão do povo.

"Para mim dá igual que seja Umaro Sissoco Embaló como Domingos Simões Pereira a ser eleito Presidente da Guiné-Bissau. Somos todos filhos da Guiné-Bissau", declarou Lassana Camará, que se assume "contra o político que traz a divisão com bases em questões étnicas", lembrando que os guineenses "sempre viveram em harmonia".

O jogador referiu ainda que a religião islâmica não pertence a um grupo étnico específico, mas a todos os guineenses e não só.

Sobre o facto de estar, ultimamente, sempre nas redes sociais com mensagens, em vídeo, sobre questões religiosas, o futebolista enfatizou que Alá (Deus islâmico) recomendou que um muçulmano "deve espalhar as boas praticas e ações", o que, disse, procura fazer por estar "muito preocupado com os jovens" da Guiné-Bissau.

"Eu sou muçulmano, mas há pessoas que são cristãs, sou mandinga, mas há outros guineenses que são fula, papel ou de outras etnias, mas somos guineenses e somos irmãos", observou Lassana Camará, para quem o perigo está sobretudo na forma como as redes sociais estão a ser utilizadas quando se abordam questões religiosas.

O futebol ainda não acabou, mas se um dia pendurar as botas, Camará quer seguir o caminho de apelador islâmico (alguém que espalha as boas praticas do Islão).

Após percorrer todas as camadas de formação pelo Benfica e ter sido vice-campeão do mundo de sub-20, Lassana Camará jogou ainda no Servette da Suíça, Valladolid de Espanha, Braga, Académico de Viseu e Leixões. Assinou contrato com os brasileiros do Botafogo, embora nunca lá tenha jogado oficialmente.

Atualmente representa os romenos de Glória Busau.

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