A duas semanas do início dos Jogos Olímpicos Rio2016, há já uma vencedora fora de competição: Maria da Penha Macena, moradora numa favela carioca que conseguiu manter a sua casa, apesar de várias tentativas para a desalojar.

De aparência frágil, Maria da Penha Macena tem 51 anos e uma história ‘olímpica’ para contar, que começou quando recebeu a notícia de que todo o bairro, conhecido com Vila Autódromo, teria de ser demolido para dar lugar ao Parque Olímpico, que entre 05 e 21 de agosto será palco de várias competições dos Jogos Olímpicos.

Quando muitos dos vizinhos concordaram em deixar as casas, a troco de boas indemnizações ou de novos lares, Maria, conhecida também por ‘Dona Penha’, e um pequeno grupo “bateram o pé” e quiseram ficar.

As máquinas chegaram a Vila Autódromo em 2013 e foi nessa altura que a empregada de limpeza Maria da Penha Macena se transformou num ‘pesadelo’ para os políticos locais e sobretudo para o prefeito da cidade, Eduardo Paes.

A sua luta rapidamente chegou à imprensa internacional, ávida de notícias sobre os preparativos para os primeiros Jogos Olímpicos a disputar na América do Sul. A prefeitura chegou a oferecer-lhe dois milhões de reais (cerca de 500.000 euros) para que deixasse a comunidade. Recusou e preferiu colocar-se à frente da polícia para defender um vizinho. O gesto custou-lhe uma fratura no nariz depois de um golpe de cassetete.

Os muitos protestos não evitaram que, a 08 de março deste ano, a sua casa fosse mesmo demolida. “Foi como se estivessem a acabar com um pouco da história da minha vida”, afirmou na altura.

Nesse mesmo dia foi homenageada pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, por ocasião do Dia da Mulher.

Mesmo sem casa, Maria da Penha Macena não deixou a favela onde vive há 23 anos. Pegou nos móveis que sobraram, levou-os para a paróquia e começou a viver com a família em casa de vizinhos. “Podem derrubar a minha casa, mas não me vão derrubar a mim”, foi o ‘lema’ adotado.

Depois de avanços e recuos, a prefeitura do Rio anunciou um plano de urbanização para a Vila Autódromo, que prevê a construção de casas, com saneamento, para as 20 famílias que, ‘lideradas’ por Maria, teimaram em ficar.

Os dados indicam que das 824 famílias que em 2009 viviam em Vila Autódromo, 804 chegaram a acordo, sendo que a maioria foi viver para o denominado parque Carioca, a cerca de 1,5 quilómetros do local onde ficaram os resistentes.

Por agora, Maria da Penha Macena vive num contentor cedido pelo município, mas até final do mês deverá mudar-se para a sua nova casa, com dois quartos, cozinha, casa de banho e um quintal.

Na zona, que terá ruas novas e saneamento básico, vão também ser construídas duas escolas, uma área de lazer e um espaço para a associação de moradores.

A luta acabou por levar Maria da Penha Macena a Genebra, na Suíça, para contar a sua história ao Conselho de Direitos Humanos da ONU e ao Comité Olímpico Internacional (COI).

A poucos dias do início dos Jogos, Maria é já uma vencedora na luta que travou, embora assuma que a sua vitória “tem um sabor amargo”. “Onde fica o legado para o povo? Eles destruíram a minha comunidade”, conclui.

A empregada de limpeza vai ainda mais longe, lembrando que a palavra olimpíada “também quer dizer união entre os povos, algo que não está a acontecer no Brasil”.

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