Apenas a seleção de futebol garante a unanimidade em Cabo Verde, disse à Lusa o jornalista e professor cabo-verdiano José Mário Correia, que esta sexta-feira lança na cidade da Praia um livro sobre a equipa nacional.

"As pessoas dizem que o feito da seleção nacional só é comparável com a independência. Não é verdade. A seleção nacional não tem comparação possível. É a única pertença em que não há divisão. A independência nacional havia pessoas que não queriam, que se colocaram no outro lado da barricada, mas os 'Tubarões Azuis' [designação por que é conhecida a seleção de futebol] têm toda a gente a gravitar à sua volta", sustentou.

Esta é uma das constatações de José Mário Correia, atual diretor-geral dos Ensino Superior cabo-verdiano, no livro "Nas rotas dos Tubarões Azuis - 40 anos de história da seleção nacional", que lança na sexta-feira, na cidade da Praia, e que pretende contar a história da seleção de futebol após a independência do arquipélago (conseguida a 05 de julho de 1975).

"Um facto curioso é que no passado recente a bandeira nacional pertencia a um grupo, mas hoje essa bandeira é empunhada por toda a gente, justamente porque não é só a bandeira em si, é porque ela representa a seleção nacional. Quem empunha a bandeira praticamente empunha a seleção nacional. São os grandes ganhos que vejo lá", prosseguiu.

José Mário Correia disse ainda que notou que a seleção cabo-verdiana teve "uma grande evolução", passando de uma situação em que não marcava golos, era goleada e não ganhava jogos, para uma situação em que a participação nas grandes competições é uma exigência da sociedade.

"Só para dar um exemplo, nos anos 1970 houve uma altura em que fomos apanhados em 47 fora-de-jogo, não tanto pelo nosso ímpeto atacante, mas simplesmente porque não dominávamos a tática, não sabíamos jogar. Chegamos hoje a uma situação em que seleções que nos goleavam, são ultrapassados por Cabo Verde", referiu, recordando que o país entrou para o 'ranking' da FIFA, em 1993, na 147.ª posição e em fevereiro de 2014 chegou ao 27.º posto, a melhor posição de sempre.

José Mário Correia destacou como outros feitos da seleção cabo-verdiana a conquista da Taça Amizade, em 1978, na Guiné-Bissau, a Taça Amílcar Cabral, em 2000, na cidade da Praia, sendo até agora os dois únicos troféus dos "Tubarões Azuis".

Também lembrou as duas presenças na Taça das Nações Africanas (CAN), a primeira em 2013 e a segunda dois anos depois, e o facto de agora serem os próprios jogadores a insistirem e fazer lóbis para jogar na equipa nacional.

"A seleção tornou-se numa grande montra, um espaço onde eles se expõem aos olheiros internacionais que galgam África em busca de talentos", referiu.

O investigador apelou, por isso, que o "percurso válido" da seleção cabo-verdiana seja "bem explorado" para poder servir não só os atletas, mas o futebol, o desporto e todo o país.

No livro, cuja pesquisa começou em março de 2014 e foi feita entre Cabo Verde, Macau, Portugal, consulta da Internet, telefonemas, são apresentados dados estatísticos, como locais por onde a seleção jogou, fichas de jogos e de jogadores, adversários, golos marcados e sofridos, vitórias, derrotas, factos curiosos, alegrias, tristezas, dificuldades, dirigentes, treinadores, entre outras informações.

Em declarações à Lusa, José Mário Correia disse que a ideia para escrever a obra surgiu "do vazio" e da constatação que não há no país publicação de documentos virados para o futebol, em geral, e para a seleção nacional.

Questionado se pretende alargar as pesquisas para outras modalidades e às equipas, José Mário Correia afirmou que isso vai depender do sucesso do livro que será lançado na sexta-feira.

"Se as pessoas abraçarem eu me aventuro por outros. Há coisas importantes a se explorar que não convém dizer agora, mas já tenho tudo pesquisado e dependendo do sucesso deste poderei avançar", afirmou, salientando, porém, que prefere trabalhar com a seleção e os seus internacionais.

Com o livro, de 500 páginas e com prefácio do ex-selecionador cabo-verdiano, o português Rui Águas, o investigador disse que pretende prestar uma homenagem a todos os internacionais que passaram pela seleção cabo-verdiana.

Mas também espera que sirva para incentivar as autoridades e decisores a apoiarem "um pouco mais" o desporto cabo-verdiano, sobretudo as camadas de formação e a seleção, que qualifica como sendo um "grande valor" e "uma riqueza" comparada com o turismo.

José Mário dedica a obra, o segundo depois de "Da Cabopress à Inforpress (2011)", ao filho Márcio, que joga na equipa do Vimioso, de Bragança, e que quer um dia ser também internacional cabo-verdiano.

O livro foi patrocinado pelos comités olímpicos cabo-verdiano e internacional e por empresas cabo-verdianas.

José Mário Correia iniciou a sua carreira de jornalista profissional, em outubro de 1988, na Agência Cabo-verdiana de Notícias, Inforpress, onde foi presidente.

É licenciado em Jornalismo Internacional e doutorando em Informação e Comunicação em Plataformas Digitais, pela Universidade do Porto.

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