
O aumentar do número de jogos pode afetar a qualidade dos espetáculos futebolísticos, disse à agência Lusa o fisiologista Óscar Tojo, que alerta para o cada vez menor tempo de recuperação entre partidas e maior desgaste com constantes viagens.
O ex-fisiologista da seleção portuguesa de sub-21, que integrou esta temporada a equipa técnica então comandada por Vítor Bruno no FC Porto, lembrou o maior número de jogos previstos por época, destacando os casos do reformulado Mundial de clubes, bem como os compromissos das seleções.
“É preciso ter algum cuidado para que as equipas possam também apresentar um rendimento superior, porque depois, a qualidade do jogo pode ser um pouco afetada e tendencialmente pode diminuir aquilo que é o interesse do adepto pelo mesmo”, explicou.
O tempo entre cada partida é também considerado essencial na tomada de decisões das equipas técnicas, numa fase em que a exigência é muito elevada.
“Eu acho que tem um impacto muito diferente e é muito mais fácil para nós, equipas técnicas, poder conseguir dar resposta quando temos ali um período superior às 72 horas para o jogo seguinte. Isso é um fator predominante. Às vezes, estamos a encontrar momentos competitivos em que as equipas já estão a competir ao terceiro dia e torna este tema mais complexo em termos da tomada de decisão. Por outro lado, em termos de ciclos nesse período congestionado, os impactos são diferentes quando temos períodos de dois ou três jogos entre oito e 15 dias, por comparação com seis ou sete jogos em 21 a 24 dias”, explicou.
Para além dos compromissos dos clubes, a nível interno e, em alguns casos, nas competições europeias, existem também os jogos das seleções e as viagens a que os jogadores estão sujeitos.
A carga de trabalho e as viagens no futebol é um tema que está a ser analisado pela Federação Internacional de Associações de Futebolistas Profissionais (FIFPro), que, num universo limitado a 1.500 atletas, está a fazer uma recolha de dados.
Ao nível das viagens, o estudo revela que o japonês Morita, que alinha no Sporting já fez, entre 01 de julho de 2023 e 31 de dezembro de 2024, mais de 228 mil quilómetros e 17 mil minutos em 41 viagens aéreas, tendo passado por 149 fusos horários diferentes.
No estudo, que não tem todos os jogadores, destacam-se também nos jogadores que alinham em Portugal o canadiano Eustáquio (FC Porto) com 125 mil quilómetros em 35 viagens e o argentino Di María (Benfica) com 123 mil quilómetros, ele que deixou a seleção da Argentina em 2024, ao contrário do colega de equipa Otamendi, que não consta nos jogadores em análise, mas é outro caso de um atleta muito sobrecarregado com deslocações.
Surgem também em destaque entre os mais viajados os benfiquistas Aktürkoglu (93.483 quilómetros), Kökçü (89.122) e Trubin (85.037), bem como os ‘leões’ Rui Silva (89.504), Gyökeres (81.622) e Hjulmand (68.985).
Já em relação a futebolistas lusos, no mesmo período, Cristiano Ronaldo, que alinha nos sauditas do Al Nassr, tem 113 mil quilómetros e mais de nove mil minutos em 33 viagens, enquanto João Félix (AC Milan) tem 103 mil e Rúben Neves (Al Hilal) 98 mil.
Óscar Tojo explica que as seleções têm impacto na gestão dos grupos de trabalho, não só pela competição, mas também pelas viagens a que estão sujeitos, muitas delas entre continentes, provocando desgaste e pouco tempo de repouso.
“A questão das seleções é também extremamente impactante, nomeadamente quanto aos jogadores que são mais vezes chamados, em relação às viagens que têm que fazer quando representam seleções de outros continentes, a exigência que é feita, o não respeitar das 72 horas. Penso que existe a necessidade de melhorarmos a calendarização das equipas com um maior número de jogadores neste contexto”, defendeu.
O fisiologista explicou que um dos aspetos essenciais é o contacto permanente entre clubes e seleções, para que ambos os lados tenham acesso aos dados dos atletas, tipo de trabalho que realizam e planos preventivos que seguem.
“A visão que tínhamos era respeitar aquilo que o jogador tem vindo a fazer no clube, ou seja, se um jogador está há dois meses no clube com uma determinada rotina, vier connosco e de repente nós queremos introduzir outro tipo de trabalho ou componente mais preventiva, individual, eu acho que esse caminho pode ser perigoso e pode originar alguma maior exposição da lesão ao jogador”, defendeu.
O outro lado é o caso de jogadores que vão às seleções, mas não jogam, sendo preciso adequar o trabalho para que o atleta mantenha as suas rotinas e hábitos em termos de carga.
“Quando o jogador chega ao clube também recebemos da maioria das federações toda a informação do trabalho que foi feito. E isso também nos permite tomar algumas decisões. Se o jogador quando chega necessita de algum dia de recuperação, se não precisa, que tipo de trabalho fez e vai fazer quando chegar, os horários de voo ou quanto tempo é que descansou”, disse.
A lista da FIFPro, que está em constante atualização, é liderada pelo australiano Harry Souttar, com 258 mil quilómetros em 27 viagens, passando por 147 fusos horários diferentes, seguido pelos argentinos Cristian Romero (256 mil) e Julián Álvarez (241 mil).
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