Durante muitos anos, a violência das claques de futebol era descrita como hooliganismo, termo associado aos adeptos ingleses, sobretudo nos anos de 1980, mas a mudança de mentalidades e nova legislação reduziram os problemas no Reino Unido.

Os motins no futebol começaram a ganhar relevo na década de 60 do século passado, depois de um período de calma nos anos imediatos após a II Guerra Mundial, acompanhando a maior liberdade social e cultural.

Os estádios passaram a ser identificados como espaços públicos onde se registavam confrontos em grande escala, com claques a reivindicar territórios nas bancadas e a invadir o campo, criando uma mentalidade tribal e de gangue em redor de certas equipas, sobretudo contra rivais geograficamente próximos.

Juntamente com os cânticos, bandeiras e coreografias de apoio durante o jogo começaram a registar-se incidentes de vandalismo, nomeadamente, nos comboios, o meio de transporte mais usado, bares e lojas.

Com o crescente alarmismo popular refletido na imprensa, o assunto começou também a ser estudado e os académicos dividem-se em diferentes correntes sobre as causas desta violência, atribuindo fatores históricos, sociais, económicos, políticos e culturais, e, em alguns locais, como na Escócia e Irlanda do Norte, religiosos.

Após uma série de estudos e relatórios oficiais, uma comissão de peritos sugeriu, em 1969, entre outras medidas, maior cooperação entre os clubes e a polícia, respeito pelas decisões dos árbitros, a substituição de lugares em pé por sentados e a penalização individual de infratores.

Mas os distúrbios continuaram durante os anos seguintes e seguiram as equipas inglesas no estrangeiro, resultando numa interdição ao Leeds por vários anos das competições europeias devido à violência dos adeptos durante a final da Taça dos Campeões Europeus de 1975, contra o Bayern de Munique.

Dois anos mais tarde, foi o Manchester United que foi excluído da mesma competição, logo na primeira ronda, devido aos confrontos entre adeptos dos ‘red devils’ e do Saint-Etienne, dos quais resultaram 33 feridos.

Mas o episódio mais marcante aconteceu uma década mais tarde, em 1985, no estádio Heysel, quando 39 adeptos da Juventus morreram esmagados, após fãs do Liverpool terem forçado a entrada para assistir à final da Taça dos Campeões Europeus, tendo provocado ainda centenas feridos.

Dois dias depois, a primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, pediu à federação que retirasse os clubes ingleses das competições europeias, mas a UEFA e FIFA decretaram mesmo assim um castigo que durou seis anos.

Nesse mesmo ano, o presidente do Chelsea, Ken Bates, prometeu instalar uma vedação eletrificada com mais de três metros de altura para controlar as multidões, sobretudo os adeptos violentos, mas o projeto ‘Goalditz’, como lhe chamou o Daily Express, numa referência aos campos de concentração nazis, foi chumbado.

Também em 1985, foi imposta a proibição de venda e consumo de álcool "à vista do campo", embora continue a ser autorizada dentro dos estádios, legislação que se mantém em vigor até hoje.

A tragédia no estádio de Hillsborough, em 1989, quando 96 pessoas morreram esmagadas quando adeptos forçaram a entrada no estádio do Sheffield United, que defrontava o Liverpool, e o incêndio no estádio do Bradford City, em 1995, que vitimou 56 espetadores, tiveram impacto no aspeto da segurança.

O governo inglês legislou, entre 1985 e 2000, restrições ao consumo de álcool nos estádios, possibilidade de julgamento sumário de adeptos de futebol, incluindo a inibição de viagens ao estrangeiro, e definiu uma série de crimes dentro e junto aos estádios.

A polícia obteve assim mais poderes para reprimir e identificar adeptos violentos, mantendo até hoje o uso de agentes montados a cavalo, recorrendo a imagens de videovigilância e, mais recentemente, introduzindo tecnologia de reconhecimento facial.

Esta evolução foi acompanhada pela expansão da transmissão televisiva dos jogos, o investimento em estádios de futebol com apenas lugares sentados e o aumento dos preços dos bilhetes, o que resultou na transformação no tipo e atitudes dos espetadores, contribuindo para a redução da violência.

Isto não quer dizer que tenha desaparecido, mas os relatos de incidentes entre clubes são menos frequentes e registados sobretudo no exterior dos estádios, como os que ocorrem entre o Millwall e Sheffield Wednesday, há um mês, ou após o dérbi entre Portsmouth e Southampton, em setembro do ano passado.

Dos confrontos resultaram cinco detidos, incluindo um homem de 52 anos, por "crueldade animal", após ter esmurrado um cavalo da polícia.

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