Obras ainda em andamento e várias questões a serem resolvidas sobre os preços e as condições dos turistas: este é o retrato do Qatar, a 200 dias do início do primeiro Mundial de Futebol num país árabe.

Os oito estádios (sete novos e um restaurado) já estão prontos. Mas em Doha, entretanto, um exército de trabalhadores migrantes corre contra o tempo para concluir outras tantas obras.

A FIFA está "convencida de que os adeptos encontrarão condições ótimas", mas estes não têm a mesma opinião.

"Desde 1998, este é o Mundial mais complicado no plano logístico", lamenta Ronan Evain, diretor-geral da associação 'Football Supporters Europe', em entrevista à AFP.

"O complicado é conseguir informações da organização. Há muita confusão", diz, por sua vez, o porta-voz do grupo de adeptos franceses 'Irrésistibles Français' (IF), Fabien Bonnel.

Ambos afirmam que muitas pessoas não irão ao Qatar por razões logísticas e financeiras, em reação à situação dos trabalhadores migrantes, ou por não quererem sentar-se num estádio climatizado.

Em 2018, "na Rússia, 600 membros (do IF) assistiram a pelo menos um jogo. Para o Qatar, só recebemos cerca de 100 pedidos de bilhetes", conta Bonnel.

Os preços dos bilhetes para os jogos (em média 30% mais caros em relação aos preços na Rússia), do transporte e do alojamento estão entre as principais preocupações.

Preços proibitivos

A 200 dias do início do Mundial de 2022, é preciso gastar cerca de 1.500 euros para uma viagem de ida e volta a partir da Europa, mas muitos ainda não saberão se terão bilhetes para os jogos antes do dia 31 de maio.

Enquanto habitualmente os adeptos encontram por conta própria uma solução para alojamento, a maioria dos estabelecimentos está reunida numa plataforma oficial reservada para os detentores de ingressos.

"Até o momento, os adeptos estão a ver os preços aumentarem sem saber em que ponto vão parar", diz Evain, preocupado.

"O site de alojamento é atualizado de forma constante e serão mantidas 'ações' para os adeptos que não conseguiram comprar bilhetes", responde à AFP o comité organizador do Mundial.

No total, 130 mil acomodações estarão disponíveis, o que representa 3,64 milhões de pernoites, em hotéis, apartamentos, vilas, cruzeiros e acampamentos, a partir de 77 euros por pessoa em um quarto duplo.

"Nos Mundiais anteriores falava-se muito sobre atrasos nas infraestruturas. Aqui já esta tudo pronto, o que dá lugar a outras questões", afirma Danyel Reiche, encarregado de um projeto de investigação sobre o Mundial na Universidade de Georgetown no Catar.

Para Reiche, que prevê "uma bonita Copa do Mundo" graças à qualidade das infraestruturas, há uma questão que deve ser rapidamente esclarecida "para não abalar o sucesso global do torneio": a das bebidas alcoólicas.

O seu consumo é possível em alguns bares e hotéis e os estrangeiros não muçulmanos podem comprar em lojas especializadas.

'Respeitar cultura'

Existe a possibilidade, durante o Mundial, de autorizar a venda de álcool em alguns espaços e nas 'fan zones', a preço reduzido (6 euros uma cerveja, ao invés de 12 euros nos hotéis). Mas essa informação ainda não é oficial.

O tratamento que receberão os adeptos alcoolizados, a abraçarem-se nas ruas e os abertamente homossexuais, o que é proibido no Qatar, é outra das grandes incógnitas.

Isso representa uma preocupação para muitas embaixadas dos países que disputarão o Mundial, incapazes até o momento de dar conselhos aos seus cidadãos que pretendem ir ao evento.

As forças de segurança estão preparadas para enfrentar os problemas potenciais ligados à embriaguez em público "de forma razoável e sensível", promete o comité organizador, que pede que os adeptos "simplesmente respeitem a cultura conservadora do país".

Sobre a comunidade LGBT, o comité insiste que encara "com seriedade" a sua responsabilidade de organizar um torneio durante o qual "todos se sintam em segurança". A FIFA acrescenta que todos os envolvidos na organização, a começar pelas forças de segurança, estão cientes sobre o respeito aos direitos humanos..

A entidade máxima do futebol mundial também afirma que "os símbolos de apoio às causas LGBT podem ser exibidos dentro e fora dos estádios".

Resta a questão da experiência do Qatar para receber um evento desta magnitude: as dezenas de milhares de pessoas nas ruas de Doha num grande evento na última segunda-feira apanharam de surpresa os organizadores, provocando cenas de desordem, especialmente nas entradas das estações de metro.

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