No mundo do desporto, mais propriamente na área do futebol, há atletas que atingem o estrelato mundial e por lá se mantêm, tornando-se ídolos dos amantes da modalidade, desde os mais graúdos aos mais jovens e acabam por ficar vivos na recordação de quem os viu tocar na “redondinha”, assim como nos sonhos dos mais pequenos.

Mas a história não é feita apenas destes craques, porque são vários os casos de atletas que atingem fases brilhantes da carreira, acabando por decair após terem atingido o topo, desaparecendo da memória dos adeptos. Num nível diferente estão aqueles futebolistas que nunca conseguem chegar a um grau de excelência, depois de muito prometerem numa fase mais jovem.

Fernando Torres, espanhol que trocou o Chelsea de José Mourinho pelos italianos do Milan durante este verão, é um dos exemplos, assim como Anderson, antigo médio do FC Porto, que teve uma passagem infeliz pelo Manchester United. Royston Drenthe (depois de uma passagem apagada pelo Real Madrid) ou dos brasileiros Kaká e Robinho, que também passaram pela capital madrilena e clube milanês são outros dos casos.

“O que aconteceu?” é a pergunta que passa pela cabeça de treinadores, adeptos e até dos próprios jogadores. O Sapo Desporto falou Jorge Silvério, mestre e doutor em Psicologia do Desporto e professor na Universidade do Minho para tentar perceber o que vai na cabeça dos atletas quando passam por estas fases “negras” ao longo da carreira.

Demasiada pressão sobre os futebolistas? Falta de apoio dos companheiros e do treinador? Desencantamento com a modalidade? Todas as questões são válidas, como assegura o docente ao lembrar que “sobretudo quando estamos a falar de transferências milionárias, cria-se uma expetativa exagerada em relação ao desempenho do jogador e alguns não conseguem lidar com isso”, começou por explicar.

O fator carreira é outra razão que pode pesar no desempenho de um futebolista: “os jogadores sentem-se ameaçados porque começam a pensar no futuro da sua carreira se não forem capazes de voltar a atingir o mesmo nível. Têm medo de jogar num clube com uma expressão menor, de serem esquecidos, de não voltarem a ser aposta”, acrescentou de seguida.

“Jogadores necessitam de um treinador que aposte neles”

O autor assegura ainda que os treinadores também são parte decisiva neste processo pois “há um conjunto de ingredientes que permitem um desempenho desportivo de excelência: trabalho em termos técnicos, táticos, físicos e psicológicos”, sendo que este tipo de jogadores “necessitam de ter um treinador que aposte neles e lhes dê confiança. Na altura em que mudam de clube, também há uma mudança em algum destes quatro fatores e isso influencia o seu rendimento desportivo”.

No entanto, o psicólogo e consultor de vários atletas olímpicos lembrou que “por vezes o treinador não aposta tanto no jogador, porque não consegue estabelecer uma boa relação com o atleta para lhe transmitir a confiança que este necessita”, explicando que “o ideal é dar-lhe condições para atingir o rendimento desportivo de excelência e apostar continuamente no jogador a partir do momento em que ele tem esse “background” de competências. Estas apostas intermitentes podem ter o efeito contrário e baixar ainda mais os níveis de confiança dos jogadores para alcançarem o nível em que já estiveram”.

“O fator psicológico”, insiste, “representa 25% do rendimento dos jogadores, embora os treinadores digam que este tem muito mais peso no rendimento desportivo de excelência. Normalmente treinam-se mais os níveis técnico, o físico e o tático, os fatores psicológicos não são tão trabalhados e isso reflecte-se no rendimento. É necessário perceber como é que os jogadores funcionam e como se pode retirar o máximo de rendimento de cada um deles”, disse Jorge Silvério, lembrando que treinadores como José Mourinho o fazem muito bem.

De grandes promessas a… profundos desconhecidos


Também convêm recordar aqueles atletas que nunca chegam a confirmar verdadeiramente o seu talento, acabando por não se conseguirem descolar do rótulo de “promessa”. Como foram os casos de Freddy Adu ou Keirrison, que passaram pelo Benfica ou Bojan Krkic, eterna promessa formado no Barcelona. O colaborador de várias publicações lembrou que esta é “uma profissão altamente competitiva e são muito poucos aqueles que conseguem atingir o sucesso”.

Mas ainda aprofundou o assunto, lembrando que “há uma fase crucial que é a transição da formação para o profissionalismo, em que há muitas mudanças e, se um jogador não for bem acompanhado, pode não atingir o potencial que se imaginava ter”, recordando depois que “o empresário é indispensável por desempenhar um conjunto de funções que o atleta não pode desempenhar, pois está concentrado no seu rendimento desportivo. Obviamente que isto tem de ser feito em conjunto com os clubes”.

A finalizar, Jorge Silvério, aplaudiu a criação de equipas B, uma vez que são “um passo importante no sentido destes jogadores não se perderem. Muitas vezes são emprestados a outros clubes, com metodologias diferentes e, por vezes, são colocados a jogar em posições diferentes. Como os jogadores estão num processo de afirmação e, ao sentirem que podem chegar à equipa principal, podem-se salvar algumas carreiras quando se passa para os escalões seniores”, concluiu.

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