O antigo andebolista internacional português Rui Rocha deixou para trás uma carreira desportiva de 25 anos para alcançar outro rumo profissional na especialidade médica de ortopedia, enquanto preserva atributos na escrita de poesia.

“Na despedida é tudo muito emocional, mas o vazio vem depois: éramos o centro das atenções e, de repente, nem na rua nos conhecem. Tenho colegas meus que passaram por dificuldades, mas atirar-me de cabeça para a medicina ajudou-me muito a ficar realizado”, assumiu o ex-capitão do FC Porto, de 48 anos, em entrevista à agência Lusa.

Após ter ajudado o Sporting de Espinho a subir à II Divisão no primeiro ano de sénior, Rui Rocha transferiu-se para os ‘dragões’ na temporada 1991/92 e por lá competiu até maio de 2006, quando conquistou a Taça de Portugal frente ao Sporting (28-27).

“Perdemos o campeonato em Braga e fui ovacionado de pé. A seguir, ganhámos essa final no Algarve e tive uma despedida única: no último lance e a ganharmos por um, o nosso guarda-redes defende, a bola veio parar às minhas mãos e mais ninguém se aproximou. Acabei a jogar com a bola na mão e foi um bom fim de carreira”, enalteceu.

Ciente de que a carreira de um desportista de alta competição é curta, o ponta-esquerda, que começou por praticar ginástica e hóquei em patins, foi estimulado pelos pais a prosseguir os estudos na vida adulta, construindo uma etapa académica intermitente no Porto.

“Tirei Gestão até ao quarto ano, mas achei que não ia gostar daquilo e desisti. Aos 22 anos, fui para Medicina compenetrado em acabar o curso ao mesmo tempo que jogava. Não dava para poupar muito com o andebol, mas levava uma vida normal”, recordou.

O foco total nos livros fê-lo recusar convites da liga espanhola e exigiu uma gestão “nada fácil” de prioridades, sem nunca implicar um travão nos “melhores anos” da sua carreira, premiada com 12 títulos e seis presenças em fases finais de seleções.

“Felizmente, íamos sempre aos Mundiais e Europeus, que se intercalavam todos os anos na época de exames de janeiro. Tive professores mais compreensivos do que outros, dando testes fora dessa altura, mas tudo isso não me impediu de ser médico”, ressalvou.

Aos 35 anos, o jogador espinhense percebeu que “não tinha capacidade” para aguentar “um andebol muito físico” e apostou cartas na especialização em ortopedia no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia/Espinho, efetivada com estágios em Espanha e uma fase na Clínica do Dragão, antes da chegada às unidades nortenhas da Luz Saúde.

O sonho da medicina andou de mãos dadas com o culto pelas letras, inspirando Rui Rocha a ler desde pequeno, até ser dos poucos desportistas com obra publicada (‘Anatomia Íntima dos Sentidos’, ‘Pó dos Poemas’ e ‘Sílabas de Silêncio’).

“Até ia carregado de livros para os estágios. Fui muito tocado por David Mourão-Ferreira e Eugénio de Andrade e fiz uns livros de poesia no início do século. Não me considero escritor, mas hoje escrevo pequenas histórias para oferecer aos amigos”, partilhou.

Depois de um largo afastamento dos pavilhões, o médico “regressou ao andebol” à boleia da campanha de Portugal no Euro2020, cuja sexta posição melhorou um lugar face ao melhor desempenho de sempre obtido pela sua geração duas décadas antes.

“Costumava dizer que não percebia muito de andebol, mas sabia jogar bem. Não sou um estudioso da modalidade e a única hipótese seria treinar crianças. Como dirigente não tenho grande perfil, mas nunca se sabe o futuro”, atirou.

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