Solange Jesus é a única portuguesa com marca de qualificação para a maratona dos campeonatos do mundo de atletismo de 2022, algo que para o treinador nacional da distância é “manifestamente pouco”.

A maratonista natural de Oliveira do Bairro, de 35 anos, superou as 02:29.30 horas exigidas para alinhar no dia 18 de julho, nos Mundiais marcados para Eugene, nos Estados Unidos, entre 15 e 24 de julho, em Paris, onde cumpriu os 42,195 quilómetros em 02:29.04, no passado dia 03 de abril.

A representação nacional deve voltar a ficar reduzida ao setor feminino, tal como sucedeu nos Jogos Olímpicos Tóquio2020, com Carla Salomé Rocha, Sara Catarina Ribeiro e Sara Moreira a alinharem na prova disputada em Sapporo, em 2021, para insatisfação do técnico da maratona da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA).

“Satisfeitos não estamos. Estaríamos satisfeitos se tivéssemos preenchido totalmente as quotas, o que significaria que teríamos um meio-fundo com mais qualidade e mais bem representado nas principais competições. Na melhor das hipóteses, na maratona dos Mundiais teremos uma representante, que ainda não está selecionada. Apenas temos um atleta com marca de qualificação, o que é manifestamente pouco, não podemos estar satisfeitos com uma situação destas”, afirmou António Sousa, em declarações à agência Lusa.

O 13.º lugar na última Maratona de Paris deixou a atleta do Feirense sozinha no apuramento para a distância, apesar das tentativas de Sara Catarina Ribeiro, Jéssica Augusto e Dulce Félix e face às ausências de Carla Salomé Rocha, única representante em Doha2019 (28.ª) e a contas com problemas físicos, e de Sara Moreira, que, entretanto, foi eleita vereadora da Câmara Municipal de Santo Tirso.

“A FPA tem sempre o objetivo de poder estar representado o melhor possível, desde que tenha atletas com nível suficiente para participar na competição e ter uma boa representação. É sempre o objetivo da FPA e, em particular, do meio-fundo. Mas, há uma série de contingências e, neste momento, só temos uma atleta com marca de qualificação”, sublinhou António Sousa.

O antigo maratonista reconheceu que a situação atual “tem sido atenuada por alguns atletas terem conseguido marcas de qualificação” para as últimas grandes competições, atribuindo a responsabilidade a “muitos e muitos fatores”, em particular à exigência das marcas de qualificação.

“As marcas de qualificação foram alteradas no último ciclo olímpico e são muito mais exigentes do que eram até aqui. Por exemplo, nos 10.000 metros, uma distância bandeira do atletismo português e em que já tivemos um recorde do mundo, em toda a história, só três atletas conseguiram a marca exigida atualmente para participar em Mundiais e Jogos Olímpicos”, recordou.

No caso da maratona, voltou a ser exigido aos homens a marca de 02:11.30, que já tinha sido mínimo para Tóquio2020, um registo alcançado desde sempre por pouco mais de uma dúzia de portugueses, o último dos quais Luís Jesus, em 2006. António Pinto, Carlos Lopes, Domingos Castro, Manuel Matias, Hélder Ornelas, Joaquim Pinheiro, Alberto Chaíça, Luís Novo, Joaquim Silva, Carlos Patrício, Paulo Guerra, António Rodrigues e Fernando Couto foram os outros maratonistas que, alguma vez, correram abaixo do tempo necessário para estar nestas competições.

No feminino, apesar de as presenças terem sido mais regulares, ainda foram menos (13) as que conseguiram correr a distância em 2:29.30. Antes de Solange Jesus, tinham alcançado esta marca Rosa Mota, Jéssica Augusto, Carla Salomé Rocha, Sara Moreira, Marisa Barros, Manuela Machado, Dulce Félix, Sara Catarina Ribeiro, Albertina Dias, Filomena Costa, Helena Sampaio, Aurora Cunha e Ana Dias.

“Muita coisa teria de mudar no atletismo português, nomeadamente as mentalidades dos treinadores, dos atletas e da própria FPA. Sinto que ainda vivemos muito do passado - em toda a estrutura ainda pesa muito como se pensava nos anos 1980 e 1990, que levaram ao sucesso que tivemos –, mas não é fácil, temos tentado lutar contra isso, mas não é fácil. Continuamos a querer resultados, em circunstâncias completamente diferentes, como se fazia nos anos 1970 e 1980. Os atletas vivem contextos completamente diferentes e outras ambições na vida”, referiu.

No entanto, para o técnico nacional “não é uma questão de falta de qualidade física, porque os recordes das camadas jovens continuam a cair”.

“Os atletas continuam a ter qualidade, não deixámos de ter atletas dotados, mas temos de nos adaptar às novas circunstâncias e não o temos conseguido fazer”, reconheceu António Sousa.

Além de ser a única com marcas de qualificação para a maratona dos Mundiais, Solange Jesus é também a única com mínimos na distância para os Europeus, que vão ser disputados entre 15 e 21 de agosto, em Munique, na Alemanha.

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