O ciclista Francisco Ventoso (Movistar) denunciou hoje os perigos das bicicletas com travões de disco, depois de ter ficado ferido numa perna na ‘clássica’ Paris-Roubaix, no domingo, e ter sido submetido a uma operação cirúrgica.

Numa carta aberta, publicada nas redes sociais, o corredor espanhol relatou o incidente que, no domingo, o atirou para o hospital e obrigou a uma intervenção cirúrgica.

“Num troço de ‘pavé’, mais concretamente ao quilómetro 130, houve uma confusão e as consequentes travagens, que me fizeram chocar por trás no corredor que estava à minha frente e que tentava escapar à queda. Não cheguei a cair – só a minha perna tocou na parte traseira da sua bicicleta – e continuei. Pouco depois de retomar a corrida, olhei para a perna: não me doía, não tinha muito sangue, mas tinha o periósteo [membrana que envolve os ossos] à mostra. Vi a ‘capa’ que cobria a minha tíbia”, pormenorizou, recordando que só duas equipas, de oito ciclistas, usaram travões de disco.

De seguida, Ventoso encostou-se à direita, atirou-se à relva e começou a sentir-se mal, enquanto esperava por assistência médica.

“Má sorte? Aconteceu-me a mim? Não acredito: pouco depois confirma-se o que penso. 15 quilómetros mais à frente entra na ambulância Nikolas Maes, da equipa Etixx-QuickStep. Tinha um corte profundo num joelho, causado por um disco, um desses trintas e dois [dois por cada um dos 16 ciclistas]. A pergunta é imediata: o que acontecerá quando houver 396 discos numa corrida onde 198 ciclistas lutam por uma posição [no pelotão] e as quedas são inevitáveis”, questiona.

O espanhol é taxativo ao dizer que os discos “nunca deveriam ter chegado ao pelotão profissional (...), pelo menos enquanto não tiveram sistemas de proteção e segurança que não os convertam em verdadeiras navalhas instaladas nas bicicletas”.

O companheiro de Nelson Oliveira apontou ainda os problemas que os travões de discos causam aos mecânicos nas mudanças de rodas, voltando ainda a reforçar o perigoso que estes representam.

“São facas que, a certas velocidades, convertem-se em autênticos sabres. Há corridas nas que alcançamos velocidades máximas de 80, 90 até 100 km/h. Eu tive sorte: é só uma perna, só músculo e pele. Imaginam um disco numa jugular, numa femoral? É melhor nem imaginar”, defendeu.

Ventoso, de 33 anos, incitou os ciclistas profissionais e as suas associações a unirem-se para travar a disseminação dos travões de disco no pelotão.

“Pensamos sempre que, enquanto não nos acontece a nós, não é um problema. Esperamos que as coisas aconteçam para tomar medidas. Mais cedo ou mais tarde, pode acontecer a qualquer um. […] Outros dizem-nos o que temos de fazer, mas não podemos esquecer-nos que nós devemos e temos a opção de escolher. Os discos cortam. Foi a minha [perna], mas podia ser a de qualquer um”, finalizou.

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