Uma viagem à noite que antecede a chegada à Senhora da Graça na Volta a Portugal em bicicleta é uma experiência surrealista, em que a música dos James se mistura com ecos de bombos e com a voz de Robert de Niro.

A Senhora da Graça, onde este domingo termina a quarta etapa da Volta a Portugal, é uma verdadeira romaria, procissões sem fé, mas com luzes que guiam os passos entre as negras estradas dos oito quilómetros sempre a subir. Aqui, ocupa-se o tempo como se pode e faz-se o que se pode para ocupar o tempo.

Por isso, não é de todo estranho ver uma televisão sintonizada num dos clássicos incontornáveis do cinema, o “Touro Enraivecido”, que dois amigos seguem compenetrados, sentados em duas cadeiras, junto a um puff onde dorme uma jovem, enquanto à sua volta um maralhal de gente discorre sobre os benefícios da hidratação à base de cerveja.

Quem passa, para, é convidado a entrar, a provar do que está na mesa, a beber uma “mini”, mais uma para juntar às intermináveis filas de garrafas que, hoje à tarde, no final da quarta etapa, terão, certamente, o dobro do tamanho.

Longe dos locais mais comerciais – neles há roulottes de bifanas, farturas, esplanadas improvisadas -, mas mais perto do céu, estão Miguel e Armindo, dois apoiantes incondicionais de Tiago Machado.

O ciclista português da RadioShack nem está na Volta a Portugal, mas eles vieram por ele, com as camisolas oferecidas por “Tiaguinho” para apoiarem o ciclismo nacional.

Os dois já estiveram em quatro Grandes Voltas (dois Giros e duas Vueltas), até subiram o Mortirolo, em Itália, o mais belo porto velocipédico que conhecem, mas é na Senhora da Graça que aparecem na melhor forma.

«Levámos esta estrutura à Vuelta e os espanhóis ficaram malucos?», contou Miguel à Lusa.

E essa, de acordo com o seu responsável, Armindo, compreende um fogão, bancada de cozinheiro, utensílios, bebidas, alimentos, gelo, geradores e um bidon de água para a higiene pessoal, fornecida pelos bombeiros de Mondim de Basto.

«Em anos anteriores veio um camião com um bidon de 1.000 litros de água para tomarmos banho», recordou entre um copo de vinho branco e um pastel de massa folhada, colocados sobre uma mesa com vestígios de um variado jantar.

O grupo, que está acampado a 1.200 metros da meta desde as 16h00 de sábado, conseguirá dormir «umas duas ou três horas», mas tal não seria possível se estivessem uns metros mais acima, lado a lado com a portentosa aparelhagem do grupo de Paredes.

Aí nada falta: há um chuveiro com água corrente, uma bicicleta com luzes para viagens mais curtas e uma banda sonora invejável.

«É a primeira vez que venho. O meu cunhado estava sempre a desafiar-me e eu dizia: não vou nada. Este ano decidi vir. Isto é porreiro e, ainda para mais, o tempo está bom», disse à Lusa José Manuel.

Apaixonado pelas bicicletas – faz 50 a 60 quilómetros todos os fins de semana e acaba de cumprir a sua sexta ida a Fátima a pedalar -, veio por causa do convívio e nem tem favoritos à vitória na Volta.

Acampado desde a noite de sexta-feira, José Manuel já fez um pouco de tudo, desde comer e beber, a passear um galo, morto a posteriori para o jantar, ou pedalar até ao cimo do Monte Farinha.

«Se os ciclistas sentirem dificuldades são piores do que nós», brincou, enquanto ia admitindo que a ausência de mulheres era um critério impreterível para a diversão: «Nós dormimos de qualquer maneira, para tomar banho é fácil. E podemos falar à vontade, porque entre homens nada parece mal».

Como avisam as colunas que quebram o silêncio da escuridão lá do alto, na Senhora da Graça o lema é só um: “Getting away with it all messed up”.

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