Apesar de Portugal não ser tradicionalmente um país muito ligado ao automobilismo, a verdade é que os resultados vão aparecendo, principalmente nos últimos anos. Na prova rainha, foram poucos os portugueses a marcar presença mas, ainda assim, houve tempo para ver a bandeira de Portugal num pódio da Fórmula 1. Aconteceu uma única vez, pelas mãos de Tiago Monteiro, os EUA.

Um pódio que chegaria depois das muitas peripécias que marcaram aquele Grande Prémio dos EUA, a 19 de junho de 2005.

20-14=6: a matemática que não agradou aos norte-americanos

Numa altura em que havia dois fornecedores de pneus - Michelin e Bridgestone - a polémica estalou no GP dos EUA. Os pneus da Michelin não aguentaram a força exercida na lateral dos mesmos quando passavam pela parte oval do circuito de Indianápolis. Durante os treinos, houve vários acidentes nas equipas Renault, BAR Honda, Williams, McLaren, Sauber, Red Bull e Toyota, as que usavam pneus Michelin.

As equipas reuniram-se com os responsáveis do fabricante de pneus várias vezes mas estes não conseguiram garantir a segurança de todos, por isso a Michelin aconselhou as equipas a não participarem na prova. Uma das alternativas seria colocar pneus diferentes nas restantes equipas mas os regulamentos da altura proibiam tal alteração.

A solução podia passar por colocar uma chicane na entrada da parte oval do circuito, para que os 20 carros competissem em segurança mas nem a FIA nem a Ferrari aceitaram.

Assim, no dia corrida e após a volta de formação, as sete equipas que usavam Michelin  decidiram retirar-se para as boxes, ficando apenas três equipas em pista: Ferrari, Jordan e Minardi.

Algo que desagradou e muito o público presente, numa altura em que a Fórmula 1 nem era bem vista nos EUA. Quem pagou centenas ou milhares de dólares deve ter ficado muito dececionado com aquele espetáculo pobre, sem qualquer motivo de interesse.

Dos problemas em pista à festa no pódio: tinha de haver festa portuguesa

Para Tiago Monteiro, era uma oportunidade de ouro para ficar na história da prova. O piloto era sempre melhor quer o seu colega de equipa e, ao largar da 17.ª posição, só tinha de garantir que ficaria atrás dos Ferrrais e à frente dos restantes pilotos.

A 10 voltas do final pediram-me para abrandar pois havia um problema na caixa de velocidades. A partir daí, comecei a ouvir toda a espécie de barulhos

"Foi uma corrida muito atípica e uma oportunidade muito grande. Quando a Michelin percebeu que tinha problemas e não os conseguia resolver, tentaram que não houvesse corrida, depois parar mais vezes [naquele ano era proibida a troca de pneus durante a corrida] ou acrescentar uma chicane. Mas nós também tivemos problemas com os pneus Bridgestone noutras corridas e ninguém disse nada e nós sacrificámos a performance em prol da segurança e do espetáculo", recordou Tiago Monteiro à Lusa.

Com os dos primeiros lugares já quase atribuídos a Ferrari (só se tivessem algum acidente é que não poderiam bater os Jordans e Minardis), o último lugar no pódio seria disputado por três pilotos: Tiago Monteiro e o seu colega de equipa, o indiano Narain Karthikeyan, o holandês Christian Albers e o austríaco Patrick Friesacher, ambos da Minardi.

Largando da 17.ª posição, rapidamente o piloto portuense viu-se atrás de Michael Schumacher, com Rubens Barrichello na liderança. Mas essa não seria uma prova fácil, numa equipa que lutava com problemas de fiabilidade.

Antes do pódio, quando fomos para a sala reservada aos pilotos, beber uma água, o Schumacher pegou em mim ao colo

"Fiz voltas de qualificação praticamente na corrida toda. A 10 voltas do final pediram-me para abrandar pois havia um problema na caixa de velocidades. A partir daí, comecei a ouvir toda a espécie de barulhos”, recordou Tiago Monteiro, ele que nesse ano pontuou também no Grande Prémio da Bélgica, em Spa-Francorchamps, onde foi oitavo.

Narain Karthikeyan foi quarto, Albers e Friesacher acabaram em 5.º e sexto respetivamente, dando o melhor resultado de sempre à Minardi.

A vitória nesse GP dos EUA acabaria por sorrir a Michael Schumacher, ele que perderia, no entanto, o título de campeão nesse ano para Fernando Alonso (Renault). Chegava ao fim uma série de cinco títulos consecutivos do piloto alemão.

Com o passar do tempo, Tiago Monteiro começou a pensar no pódio e não apenas em pontuar. Aí aumentou pressão, como reconheceu, em entrevista à Lusa.

"Quando cruzei a meta, foi uma felicidade enorme. Antes do pódio, quando fomos para a sala reservada aos pilotos, beber uma água, o Schumacher pegou em mim ao colo", contou, ele que foi o único a festejar no pódio, já que os organizadores tinham pedido contenção, dada a situação e toda a tensão no ar.

Este acabaria por ser o 19.º e último pódio da Jordan na Fórmula 1. Para Tiago Monteiro, o primeiro e único pódio de Portugal na Fórmula 1. Mesmo nas condições em que aconteceu, não deixa de ser um pódio. O portuense ficaria apenas mais um ano na Fórmula 1.

Pedro Lamy tinha sido o primeiro piloto português a pontuar na Fórmula 1, ao terminar o Grande Prémio da Austrália na sexta posição, somando um ponto, em 1995.

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