A tenista argelina Ines Ibbou escreveu uma carta aberta ao austríaco Dominic Thiem que está a fazer furor nas redes sociais. O tenista austríaco recusa-se a contribuir para o fundo de solidariedade criado para apoiar os jogadores mais mal classificados nos rankings ATP e WTA, algo que lhe valeu muitas críticas. Thiem não só se recusa a ajudar como ainda teceu críticas aos jogadores dos últimos lugares dos rankings de ténis.

"Nenhum desses jogadores luta por sobreviver. Durante o ano, vejo muitos que não dão tudo ao ténis, muitos não são profissionais, não vejo porque lhes haveria de dar o meu dinheiro", criticou Thiem.

Depois de o alemão Dustin Brown, atualmente com 36 anos e no 239.º posto do ranking ATP, ter criticado o austríaco, agora foi a vez da argelina Ines Ibbou, 620.ª do ranking WTA, num vídeo de mais de nove minutos onde explica as dificuldades para uma mulher jogar ténis em África, num país muçulmano.

"Querido Dominic, depois de ler a tua última declaração, questionei-me como seria a minha carreira, logo a minha vida, se estivesse no teu lugar. Imaginei se os meus pais fossem treinadores de ténis quando toquei numa raqueta pela primeira vez, aos seis anos, e me perdi de amores. Mas nasci nos arredores de Argel, numa família pobre, os meus pais nada tinham a ver com o ténis... Temos pouco em comum, mas não te culpo por isso", diz Ibbou, num vídeo onde começa por mostrar as ruas pobres da sua cidade e o court sem condições para treinar.

No vídeo, a tenista argelina de 21 anos conta que ganhou os primeiros pontos WTA aos 14 anos, quando venceu um IFT de 10 mil dólares. Um milagre, diziam os jornais.

"Ninguém no meu país o fizera e muito poucos em África", explicou a jovem tenista.

"Sabes que na Argélia os torneios juniores são raros, não há um único ITF, ATP ou WTA? Ou um court indoor? [...] Nunca sabemos em que superfície jogamos. Se é relva, terra batida ou africana, como dizem aqui.  [...] Aqui se chove, só podemos treinar a pancada de esquerda num ginásio. E nem vou falar da qualidade das instalações", finaliza.

Na carta em forma de vídeo, Ines Ibbou recorda a Thiem que muitas tenistas partilham da sua realidade. A argelina diz ao austríaco que apenas lhe é pedido um pouco de respeito pelos sacrifícios e recorda-lhe que "ajudar os jogadores, é ajudar o ténis a sobreviver.

Ines Ibbou, que chegou a ser n.º 2 júnior, lembra que que se vivesse "no mudo mágico" de Thiem, podia ter alcançado outros resultados na carreira.

"Era a melhor do país, mas sem um cêntimo na carteira. Isso não me parou. Encontrei pessoas que me deram comida e um sítio para dormir. Outras, ofereceram-me material. Depois lesionei-me na pior altura, quando a ITF mudou as regras. Apesar de tudo voltei ao ranking. Sou uma mulher solitária a viajar pelo mundo, com escalas para o bilhete ser mais barato. Sacrifico treinos e descanso para obter vistos. Mais um encargo. Alguma vez terminaste torneios com buracos nos ténis?, questionou a jovem tenista argelina.

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