Depois de tantos rumores nos últimos anos, o namoro terminou finalmente em casamento. Lewis Hamilton vai correr pela Ferrari na temporada de 2025 da Fórmula 1. O piloto britânico fará em 2024 a sua última época na Mercedes, depois de 12 temporadas e seis títulos conquistados (somados ao que trazia da McLaren, em 2008) na escuderia alemã.

A temporada de 2024 será a última com os ‘flecha de prata’, antes de cumprir um sonho de criança e se mudar para a mais mítica das equipas, a única que participou em todos os campeonatos de Fórmula 1 já realizados.

Com a renovação de Leclerc, a Ferrari terá nas suas fileiras em 2025 a última 'rockstar' da Fórmula 1. Carlos Sainz Jr. deverá mudar-se para a Audi.

O piloto britânico de 39 anos garantiu um lugar entre os imortais da prova rainha de velocidade, ao deter, com o lendário Michael Schumacher o recorde de sete títulos conquistados na Fórmula 1 (2008, 2014, 2015, 2017, 2018, 2019 e 2020).

Ao longo da sua carreira na Fórmula 1, Hamilton tornou-se o piloto com mais vitórias (103), mais pódios (197) e mais ‘pole positions’ (104) da história da modalidade. A senda de vitórias só foi interrompida em 2021, pelo neerlandês Max Verstappen e pela Red Bull, que veio colocar o fim ao domínio que a Mercedes exerceu ao longo de sete anos.

FOTOS: Alguns momentos marcantes da carreira de Hamilton na Fórmula 1

Lewis Hamilton: nascido para vencer

Lewis Carl Davidson Hamilton nasceu na cidade inglesa de Stevenage, a 50 quilómetros de Londres, 7 de janeiro de 1985. Chegou onde chegou graças ao seu pai Anthony, um homem que chegou à Londres vindo das Caraíbas nos anos 50.

A sua trajetória na velocidade começou quando ganhou um kart de presente pelo Natal. O seu talento era inquestionável e o pai fez de tudo para que o filho não desistisse. Anthony chegou a ter três trabalhos para poder ter condições para ajudar Hamilton na sua paixão. Aos fins de semana, ia com o pequeno Lewis às corridas pelos circuitos no Reino Unido. Eram tempos difíceis.

"Éramos a família negra mal-amanhada: tínhamos o equipamento de porcaria, o kart de porcaria e a caravana de porcaria", recordou Hamilton, numa entrevista à revista 'Time'.

Além da pobreza, Hamilton teve de lidar com o racismo, ainda em idade precoce. Ter um negro a vencer provas de automobilismo era algo nunca visto. "Não és suficientemente bom, devias desistir", era uma de muitas 'bocas' que tinha de ouvir dos pais dos outros pilotos.

O pai foi seu manager até 2010, quando Hamilton prescindiu de Anthony. Uma decisão difícil, que até hoje o piloto está a assimilar. A relação entre ambos nunca mais foi a mesma, mas Hamilton tem tentado que tudo volte a ser como dantes com o pai.

Hamilton iniciou-se nos karts, com apenas oito anos, em 1993. Em 1995 já era campeão britânico e, por essa altura, cruzou-se com Ron Dennis, o patrão da McLaren, ao qual disse, aproveitando um pedido de autógrafo, que, "um dia", queria conduzir os seus carros. Ao lado do 'rabisco', Ron Dennis escreveu: "Telefona-me dentro de nove anos. Veremos algo então".

O talento de Hamilton continuou a revelar-se a toda a velocidade, tanto que, com 12 anos, uma casa de apostas ‘oferecia' já ‘odds' de 40/1 para a sua primeira vitória na Fórmula 1 antes dos 23 anos e de 150/1 para o seu primeiro título até aos 25 anos.

A conversa telefónica com Ron Dennis aconteceu em 1998, seis anos antes do ‘previsto', e foi o 'patrão' da McLaren a ligar ao jovem piloto, que somava vitórias atrás de vitórias, para o contratar para o programa juvenil da McLaren-Mercedes.

Hamilton progrediu para os monolugares da Fórmula Renault series em 2002, um campeonato que ganhou no seu segundo ano. Logo na época a seguir, em 2004, passou para a Formula 3 Euroseries e, de novo ao segundo ano, ergueu o troféu. Seguiu-se a GP2 Series, campeonato que ganhou logo na época de estreia, em 2006.

O seu ingresso na Fórmula 1 aconteceu em 2007, para fazer equipa na McLaren com o então bicampeão em título, o espanhol Fernando Alonso. A primeira época foi de estrondo: terminou no pódio nas primeiras nove corridas da temporada, incluindo dois segundos lugares e duas vitórias: a primeira da carreira no GP do Canadá e a segunda no dos Estados Unidos.

Com 22 anos, liderava o campeonato e os adeptos britânicos já sonhavam com o 'impensável': o título de campeão no ano de estreia. E foi por muito pouco que não aconteceu.

Chegou à última corrida do ano, no Brasil, com quatro pontos de vantagem sobre Alonso e sete sobre Räikkönen (Ferrari) na classificação. Partiu na liderança em Interlagos, mas um problema mecânico fez com que perdesse o título por um ponto para o finlandês da Ferrari.

Até hoje é o piloto que mais pontos somou em época de estreia (109) e o que mais vitórias alcançou (quatro), recorde que partilha com o canadiano Jacques Villeneuve, sendo ainda o mais jovem líder do Mundial, com 22 anos e 126 dias.

O homem das causas sociais: ser negro ainda é um problema

O único piloto negro na Fórmula 1 tem lutado contra racismo dentro do desporto mas também contra a discriminação, repressão policial e desigualdade social. A sua posição sobre estes temas ganhou maior preponderância com o movimento 'Black Lives Matter' depois da morte do norte-americano George Floyd, em maio de 2020, por parte de polícias dos EUA.

Hamilton levou o tema para a Fórmula 1, ajudou a criar um movimento de apoio às minorias e ao 'Black Lives Matter', embora nem todos os pilotos e ex-pilotos concordem com as suas ideias.

Não és suficientemente bom, devias desistir

Os mais velhos têm mostrado resistência, como foram os casos de Jackie Stewart, de 84 anos (negou a existência de racismo na Fórmula 1), e Mario Andretti, de 83 (disse que demonstrar repúdio à falta de diversidade na F1 "é criar um problema que não existe"), mas Hamilton não se importa.

"Isso é muito decepcionante, mas infelizmente é uma realidade que algumas das gerações mais velhas, que ainda têm voz, não conseguem sair do seu próprio mundo para reconhecer que há um problema. Nunca é muito tarde para aprender e eu espero que este homem [Andretti], por quem eu sempre tive respeito, possa tirar um tempo para educar a si mesmo", escreveu Hamilton na sua conta no Instagram.

As causas que defende vão para lá do racismo, discriminação, repressão policial e desigualdade social. Lewis Hamilton tornou-se vegan e tem lutado por um planeta melhor.

É dono de uma cadeia de restaurantes de hamburgers vegetarianos e tem tentado reduzir o impacto da Fórmula 1 sobre o meio-ambiente em conversas com outros pilotos e com os responsáveis da prova.

Como humanos, aquilo que estamos a fazer ao planeta... a poluição que a indústria da pecuária produz é incrível. Não quero contribuir para isso, quero viver um vida mais saudável

O pop star do paddock

Hamilton é dos pilotos com mais carisma no ‘paddock' e com maior ligação à ‘sétima arte', uma verdadeira estrela dentro do Grande Circo. Se em 2018 foi felicitado pelo ator Will Smith quando conquistou o título no Grande Prémio do México, em 2019 teve a companhia de Matthew McConaughey.

Além dos dotes ao volante, tem mantido uma atividade permanente nas páginas do entretenimento, muito por culpa dos relacionamentos mais ou menos conhecidos, em que são exemplos as cantoras Nicole Scherzinger e Nicky Minaj.

Em 2020 antes e depois do GP da Toscana, em Mugello, Itália, Hamilton usou uma t-shirt com a mensagem: "Prendam os polícias que mataram Breonna Taylor", em apoio a uma enfermeira afro-americana morta em casa numa rusga da polícia.

Nas horas livres, que são cada vez menos devido aos compromissos publicitários, gosta de se dedicar à música, sob o pseudónimo XNDA.

"A minha ética de trabalho é a mesma das corridas. Mas aqui consigo ser eu próprio", confessava, em 2015. Em 2019, fez a estreia no álbum de Christina Aguilera, "Liberation", com uma participação na música "Pipe".

Hamilton é, também, o piloto com o maior salário na Fórmula 1. De acordo com a Forbes, em 2023 o britânico  tinha um salário de 55 milhões de dólares, algo como 50,7 milhões de euros por ano. Hamilton é também quem mais fatura com patrocinadores pessoais, mas esses números não foram contabilizados nesta lista da Forbes.

O seu estrelato continua nas redes sociais, onde soma milhões e milhões de seguidores; 6,1 milhões no Facebook, 8,2 milhões no Twitter e 35,7 milhões no Instagram. Usa esse público para falar sobre as suas causas: ecologia, direitos dos animais, veganismo, racismo e diversidade.

Sempre muito ativo nas redes sociais, abandonou todas as suas páginas depois do último Grande Prémio da temporada de 2022 para voltar meses depois.

Desde 15 de dezembro de 2021, ostenta o título de Sir, depois de ser ordenado cavaleiro pelo príncipe Carlos, de Inglaterra.

"Quando eu tinha seis ou sete anos, o meu pai disse-me ‘nunca desistas' e isso transformou-se numa espécie de lema de família", revelou Hamilton já no final do Grande Prémio das Américas em 2019, no qual o segundo lugar lhe garantiu o sexto título mundial (2008, 2014, 2015, 2017, 2018 e 2019), a duas provas do fim do campeonato.

Os últimos dois anos foram penosos para o piloto britânico, que teve de assistir ao domínio de Max Verstappen e da Red Bull. Em 2023 terminou a época sem qualquer triunfo, apesar de vários pódios.

Quando tiver 40 anos, tentará voltar aos títulos pela Ferrari, cumprindo assim um sonho de infância. Agora cabe a escuderia italiana dar-lhe um carro capaz de levar Lewis Hamilton aos limites para voltar a vencer.

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