“Ficarei enquanto o meu corpo deixar e enquanto sentir que posso ser útil”, atira o massagista do emblema de Caldas da Rainha, em entrevista à Lusa, momentos antes de ir “em missão”.

O massagista, o terceiro mais velho filiado na Federação Portuguesa de Futebol (FPF), entre dirigentes e treinadores, exerce a função nas camadas jovens do emblema das Caldas da Rainha e nunca descura os pormenores - a braçadeira no braço esquerdo, o saco de gelo, a bolsa de primeiros socorros –, neste caso para o jogo da equipa de sub-14 do clube, que assistiu desde o banco.

“Vamos à vitória, rapazes”, incentiva Adelino Santos antes de deixar o tradicional alerta: “troquem bem a bola e fujam aos choques”.

O Caldas viria a golear, em jogo referente à Taça distrital de iniciados de Leiria, e, por isso, o sorriso era rasgado no final. Até porque “felizmente, não foi preciso ir assistir nenhum jogador”.

Todavia, nem por isso Adelino Santos permaneceu sentado durante o encontro.

Quando o jogo estava interrompido era o nonagenário que, de pronto, pegava nas águas e se deslocava até aos atletas para que os mesmos se refrescassem, mas também para se certificar de que não havia nenhuma dor ou lesão.

Provavelmente, Adelino Santos é a figura mais emblemática do emblema de Caldas da Rainha. Chegou em 1986 – aliando a profissão de enfermeiro militar ao cargo de massagista – e, desde então, é pelo clube que tem trilhado o seu caminho. Depois de reformado, em “regime” de exclusividade.

De manhã dedica-se à pequena horta que tem em casa – cuja ‘colheita’ vai direta para os filhos e para os vizinhos – e, a partir das 17:00 é na Quinta da Boneca – recinto destinado aos escalões de formação dos ‘pelicanos’ – que se encontra. De segunda a sexta-feira, no seu gabinete, trata das ‘mazelas’ dos jovens da formação durante os treinos. Mas não só.

É que o massagista, natural do Sabugal, no distrito da Guarda, mas que rumou até Caldas da Rainha por consequência da vida militar, é também presença regular nos treinos e jogos da equipa principal, que milita na Liga 3, e na qual são, por vezes, necessários os seus requisitos.

Já ao fim de semana, não há manhã que não esteja junto dos “seus” meninos. Até porque é momento de competição e, por isso, os conhecimentos de Adelino Santos são imprescindíveis para colocar os jovens futebolistas na melhor condição física possível.

“Chego aqui às 09:00 e só vou para casa quando já não há mais jogos”, vinca. E mesmo nos dias em que está de folga, é nas redondezas da Quinta da Boneca ou do Campo da Mata que é visto, não fosse ser “um amor sem igual”.

“Ajudo no que for preciso. Seja nos seniores, seja nos miúdos”, acrescenta, reavivando a memória para destacar “os milhares” de jogadores que já passaram pela sua vida.

As várias gerações, algumas de várias famílias, que lhe passaram pelas mãos saúdam-no nas ruas: “Não sei o nome de todos, como é claro, mas reconheço a cara”.

“É o que levo do Caldas e desta vida”, sublinha o massagista, recordando o enorme carinho que sente por parte dos adeptos do clube e da população: “Sempre que entro em campo para assistir um atleta as pessoas aplaudem sempre muito”.

Para o senhor Adelino, esses “são momentos comoventes”.

O que não gosta mesmo, segundo diz, é “quando os jogadores fazem ronha. Isso não gosto, gosto que eles sejam respeitadores”, graceja o nonagenário que ainda tem uma agilidade física que lhe permite ‘galgar’ dezenas de metros de relvado para desempenhar a sua missão.

No clube, “o senhor Adelino” representa para alguns atletas a figura de um avô e essa é uma realidade que muito orgulha o mais velho dirigente em funções no distrito de Leiria, que já mereceu a medalha municipal de mérito desportivo da Câmara Municipal de Caldas da Rainha.

“Tenho sido muito feliz aqui e as pessoas tratam-me muito bem”, assegura, sem querer elencar os melhores momentos que tem vivido no clube para não se esquecer de nenhum: “Já foram tantos”.

Incentivado a olhar para o futuro, Adelino Santos diz ter “forças para mais uns valentes anos no clube”. E, se possível, para assistir à concretização do sonho de ver o Caldas, de novo, na I Liga de futebol.

Pela atividade, mas também pelo discurso, a idade, para Adelino Santos, é “apenas de um número””.

Depois de ter “servido” o país [chegou a estar preso na invasão da União Indiana a Goa], a missão do nonagenário é “servir” os jovens do Caldas, numa missão que, reiterou, “é uma das mais importantes que teve (e tem) em mãos”.

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