A maior parte das equipas de topo têm bem definida a hierarquia de marcadores de bolas paradas. As grandes penalidades assumem grande importância e, por norma, são marcadas pelos mesmos jogadores. Na Juventus e na Seleção de Portugal é Cristiano Ronaldo, Messi encarrega-se do mesmo no Barcelona e na Argentina, no Real Madrid é o defesa Sérgio Ramos o senhor dos penaltis.

Se neste momento é a eficácia e a hierarquia que determinam quem será o marcador, no futuro outras questões poderão entrar em equação, como por exemplo, a hora em que se realiza o jogo e a influência do sono no rendimento neuro-cognitivo do futebolista que vai bater a grande penalidade.

Numa modalidade onde os pormenores começam a fazer cada vez mais a diferença, quem tenta chegar à perfeição está mais perto do sucesso. Por isso, o futebol começa a procurar respostas em outras áreas, de forma a tirar o maior rendimento possível dos atletas.

O acumular de jogos numa indústria que exige cada vez mais dos atletas obriga os clubes a terem nas suas fileiras os melhores técnicos e os melhores funcionários nas mais variadas áreas, desde a nutrição, à medicina, do tratamento do relvado à psicologia.

"Há uma exigência por parte da sociedade que os desportistas joguem mais vezes e com mais intensidade. Querem que sejam mais velozes e que façam mais jogos. Há uma evidência científica: hoje os jogadores corre mais e a bola anda mais rápido. Todos são melhores atletas [que antigamente]. Mas do ponto de vista da medicina desportiva, é um fator de risco, tanto para contrair lesões como para render menos. E do sono fala-se pouco", recorda ao 'El Mundo, Gil Rodas, diretor médico do 'Barça Innovation Hub', uma plataforma de investigação do emblema catalão que leva a cabo vários estudos para otimizar o rendimento dos atletas.

Em colaboração com a UEFA e com o Instituto de Medicina do Sono AdSalutem, o Barcelona está a levar a cabo vários estudos em 644 jovens na sua academia, La Masia. O clube quer provar que os desportistas tendem a dormir menos e pior que aqueles que não são atletas; que a falta de sono está diretamente relacionada com a perda de velocidade e resistência mas também com o aumento da frequência cardíaca, consumo de oxigénio e fadiga; que dormir mal afeta o rendimento neuro-cognitivo, reduzindo a concentração, a capacidade para resolver problemas e também a precisão; e que os problemas relacionados com o sono podem aumentar o risco de lesões e atrasar a recuperação física e ainda provocar alterações no metabolismo dos atletas, dificultando a manutenção de um determinado peso.

Assim, os jovens da academia do Barcelona dormem com camisolas eletrónicas (Hexoskin Smart) que monitoriza o sono. Diz o 'El Mundo' que esses dados são cruzados com os que são recolhidos dos coletes com GPS (Wimu Pro) que convertem em dados toda a atividade física.

Eduard Estivill, médico especialista em sono que trabalha com vários desportistas de elite, explicou ao 'El Mundo' que é importante conhecer o ritmo circadiano, o relógio biológico de cada atleta. A tendência natural de uma pessoa é ir dormir por volta das 11h00 da noite e acordar às sete da manhã. Mas há os noturnos, que gostam de ir para a cama depois da meia noite e levantam-se tarde; e os matutinos que às 06h00 da manhã estão de pé prontos para tudo mas que às 09h00 da noite já não se aguentam de pé.

E deu o exemplo de um jogador do Girona que de manhã estava em forma e rendia muito quando jogava a meio da tarde mas que quando os jogos eram de noite, jogava pior e não sabia explicar porquê. Para tentar inverter a situação, Eduard Estivill usou um dispositivo para simular a luz solar, usado pelo jogador à tarde, de forma que de noite estivesse mais alerta.

O médico espanhol recomenda a que os desportistas dormem entre nove a dez horas por dia, que deixem de utilizar dispositivos móveis como smartphones e tablets duas horas antes de dormir. Se optarem por ver televisão, devem, faze-lo a três ou quatro metros do televisor, com a luz ténue.

O laboratório desportivo do Barcelona, que gere dados de mais de dois mil desportistas, aconselha os jovens de La Masia a fazer os seus deveres escolares ou ouvir música no trajeto para os treinos. No regresso à casa, o clube pede aos seus atletas que não usem dispositivos móveis durante o trajeto. Também é-lhes pedido que não bebam muitos líquidos antes de dormir. A meditação é outra recomendação do Barça Innovation Hub.

Cristiano Ronaldo é um dos exemplos de atleta que dá muita importância ao sono. Recentemente, Nick Littlehales, um dos especialistas do sono, contou ao site 'Football Whispers', que "ensinou Cristiano Ronaldo como dormir". O português já assumiu por diversas vezes que não abdica do seu sono após o almoço e que dorme sempre bem. E isso, além de uma boa alimentação, explica a sua longevidade e o facto de continuar em forma aos 36 anos.

Sobre Cristiano Ronaldo, Littlehales explica que o craque português faz cinco ou seis ciclos de 90 minutos de sono por dia.

"Não é uma soneca, isso é para pessoas mais velhas que veem televisão. É uma maneira de dormir menos, mas de melhorar a recuperação", explicou este especialista do sono.

"Antes das luzes artificiais, as pessoas dormiam por períodos curtos", recordou.

A questão do sono e do descanso ganha cada vez mais importância no futebol, um desporto cada vez mais exigente e competitivo e onde os pequenos pormenores fazem a diferença. Daí ser importante para cada atleta entender o seu corpo e a sua mente e tomar decisões baseadas nessas informações, para manter a forma física e mental.

"Os jogadores de futebol têm vidas privadas. O desporto que praticam tem horários muito exigentes, que vão continuar a ser assim […]. Muitos atletas jovens com que trabalho sofrem de insónia, ansiedade, stress e todas essas coisas que acabam por fazer parte do mundo do desporto", sublinhou Nick Littlehales.

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