A “febre” dos três grandes do futebol português em Cabo Verde tem a ver, “um pouco”, com a história, com o passado colonial, com a cultura e com as afinidades linguísticas, defendeu hoje um historiador.

Em entrevista à agência Lusa via e-mail, José Mário Correia, também jornalista e que ainda este mês deverá lançar o livro “Nas Rotas dos Tubarões Azuis – 40 anos de história de Seleção Nacional”, assumiu que a paixão que os cabo-verdianos têm pelo Benfica, Porto e Sporting tem a ver com o facto de serem as equipas mais tituladas e mais mediáticas em Portugal.

“Nós falamos o português. Ainda hoje, a orientação geográfica, a mobilidade internacional do cabo-verdiano tem Portugal sempre na sua rota”, sustentou, lembrando que, durante muito tempo, o cabo-verdiano viu apenas jogos dessas três equipas portuguesas.

“Até ao final do século passado, e não foi há muito tempo assim, não assistíamos o campeonato francês, inglês, alemão, italiano, espanhol, etc. Eu iria ao extremo de dizer que muitos cabo-verdianos passaram a gostar e a acompanhar o campeonato inglês por causa do José Mourinho, e se tornaram também em adeptos do Chelsea”, prosseguiu.

Questionado pela Lusa sobre razões que lavam os cabo-verdianos a terem uma grande paixão pelos três grandes do futebol português, José Mário Correia, autor do livro “Da Cabopress à Inforpress”, disse também que “há uma tendência em se gostar mais do que é estrangeiro”.

O agora diretor-geral do Ensino Superior explicou que isso também tem a ver com o facto de o país não ter evoluído muito a nível de clubes para participar em competições internacionais.

“Não temos ainda um nome lá fora. Mas gostamos dos nossos clubes, ainda que desprovidos de atletas internacionais. Há muita paixão clubística nacional, que se dá basicamente quando se joga o Inter-ilhas. E aqui as paixões se exacerbam, roçando muitas vezes a bairrismo negativo”, notou.

“Agora, duvido que um confronto entre “Mindelense de S. Vicente e Sporting da Praia” ou entre “Académica da Praia e Derby de S. Vicente”, com transmissão em direto, tenha, em Cabo Verde, mais audiência televisiva que um “Porto-Benfica”. Impossível”, prosseguiu.

Além da paixão pelos clubes, com debates em bares, cafés, restaurantes, no trabalho, o vestir orgulhosamente as respetivas camisolas, as referências dos três grandes em Cabo Verde encontram-se em clubes com o mesmo nome, como os Sportings da Praia, do Porto Novo, da Brava e da Boavista, os Benficas de Santa Cruz e da Brava.

Para José Mário Correia, o Sporting, o Porto e o Benfica, cada um individualmente, junta grupos de adeptos de todos os clubes cabo-verdianos. “Ou seja, em Cabo Verde há três grandes grupos de adeptos – adeptos do Porto, do Sporting e do Benfica. E depois temos dezenas de pequenos grupos de adeptos das dezenas de clubes nacionais”, explicou.

Entretanto, constatou que o paradigma está a mudar, uma vez que hoje os cabo-verdianos viajam mais, têm acesso a muitos estádios internacionais de futebol, têm mais canais de televisão que divulgam jogos dos outros campeonatos e o acesso à internet é facilitado.

“Podemos comparar campeonatos, jogadores, etc. E por isso, as nossas paixões, preferências, também vão mudando, já estamos a abraçar outros clubes”, notou, reconhecendo que a mesma paixão já não é exprimida pela seleção portuguesa.

“O trajecto português nas grandes competições internacionais não se tem revelado de muito sucesso, em grandes títulos. Têm estado apenas “quase”. A selecção apresenta um bom conjunto, com jogadores dos três grandes, e não só, mas não ganha muitas vezes. E nos momentos de campeonatos europeus ou mundiais, as pessoas querem ter uma selecção que vá até ao fim”, sustentou.

Mas, sem ser “contra” Portugal, José Mário disse que muitos cabo-verdianos acabam por escolher mais do que uma selecção. “Para além de Portugal para se manterem no ar, para participarem nas discussões, (os cabo-verdianos) identificam-se com outras selecções nacionais”, avançou, dizendo que, no fundo, querem sempre que Portugal vença.

Para José Mário Correia apesar de a seleção cabo-verdiana ter ganho apenas dois troféus em 40 anos - “Taça Amizade”, em 1978, em Bissau, e Taça Amílcar Cabral, em 2000, na Praia – “é francamente pouco”, a participação dos “Tubarões Azuis” nas últimas duas edições da CAN reforçou a imagem internacional e granjeou respeito junto de outras seleções.

“De uma situação em que, no passado, muitos dos nossos atletas a jogar em clubes internacionais, recusavam a participar na seleção nacional, hoje são eles a querer participar, a fazer pressão para serem convocados. Sabem que os “Tubarões Azuis” são um trampolim para voos mais altos. Hoje somos claramente mais conhecidos”, salientou.

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