Vizinhos e rivais. A história do futebol é rica em casos do género e são, por norma, os que apimentam ainda mais o desporto-rei. Clubes vizinhos e rivais, que fazem parar uma cidade em dia de jogo. É assim em Lisboa com um Benfica-Sporting, em Liverpool com um Everton-Liverpool, em Manchester no dérbi entre o United e o City, em Itália com um Inter-Milan.

Mas este não é um fenómeno exclusivo das grandes cidades. Em Portugal há um dérbi apaixonante entre dois clubes vizinhos, do Distrito de Aveiro, que ganhou vida esta época, devido a um conjunto de fatores quase únicos. O Lusitânia Lourosa - União de Lamas saltou para as primeiras páginas dos jornais pela quantidade de adeptos que moveu nos dois jogos entre si, no principal campeonato de futebol da distrital de Aveiro. Cerca de 18 mil pessoas marcaram presença nos dois embates, em ambientes espetaculares, num dérbi apaixonante entre dois clubes vizinhos. Uma rivalidade que nasceu em 1932-1934.

 Ninguém sabe o que é um dérbi até ver um Lourosa - Lamas

O Lourosa-Lamas sempre 'arrastou' muitos adeptos. Tanto no Estádio do Lusitânia como no Comendador Henrique Amorim em Santa Maria de Lamas, os jogos entre estas duas formações na Primeira Divisão da Associação de Futebol de Aveiro tiveram quase sempre casas na ordem dos quatro, cinco mil nas bancadas. Esta época estes números mais que duplicaram, graças também as estratégias de comunicação das duas formações, principalmente a do Lourosa. As gentes da 'Cidade Capital da Cortiça' voltaram a sonhar em ter o seu Lourosa na elite do futebol português.

"Temos pessoas, como o nosso roupeiro que está cá há mais de 20 anos, que me dizem que o Lourosa-União de Lamas foi a maior enchente no estádio Lourosa. Há registos de alguns jogos como uma da Taça de Portugal em 1993 frente ao Belenenses que ganhamos por 2-0, que tinha uma excelente casa, mesmo estando a chover. Temos também o registo de outros jogos na década de 70 e 80, nos anos de glória do Lourosa no futebol português, onde foi campeão da Terceira Divisão e lutou para subir à Primeira Divisão numa disputa que perdeu com o Varzim. Mas na altura não havia essas bancadas, não se podia quantificar. Jogadores dessa década consideraram que este jogo com o Lamas foi a maior enchente de sempre do clube", explica-nos Hugo Mendes, presidente do clube.

O bairrismo enraizado nas duas cidades vizinhas, cujos estádios estão separados por pouco menos de dois quilómetros, explica o fenómeno a volta dos jogos entre estas duas formações. O crescimento do Lusitânia de Lourosa esta época viu-se nas infraestruturas, dentro de campo, mas também nas bancadas. Com uma média de três mil pessoas nos jogos em casa, o Lourosa chega a levar até dois mil adeptos para os jogos fora de portas. A nível de assistências, apresenta números superiores a muitas equipas que disputaram a Primeira Liga esta época como Desportivo das Aves (2635 espetadores de média), CD Tondela (2373), Estoril-Praia (2275) e Moreirense (2264), segundo números apresentados pela Liga de Clubes. Na segunda Liga, por exemplo, apenas a Académica de Coimbra, com uma média de 4803 por partida, conseguiu ter mais gente no seu estádio que o Lusitânia.

Comunicar para chegar mais longe

Em Lourosa, juntou-se a 'fome com a vontade de comer'. Hugo Mendes, eleito presidente do clube há um ano, quer "dar a conhecer o Lourosa a Portugal e ao Mundo". Por isso resolveu apostar na comunicação como forma de atrair novos sócios, mas também de revitalizar o 'Furacão Amarelo'. Contratou a 'Scape', uma jovem empresa de marketing e design para ajudar na reaproximação dos associados ao clube, lançou a Lourosa TV (equipa constituída por cinco pessoas), responsável pela transmissão dos jogos da equipa em casa, em direto nas plataformas online.

"A última publicação grande, que é a imagem de campeão, teve 250 partilhas, sem contar que teve 25 mil de alcance. Tivemos vídeos promocionais com 25 mil visualizações."

Com essa aposta, a Direção de Comunicação e Marketing do clube quebrou um tabu: mostrar os jogos do clube, em direto, acabou por atrair mais adeptos ao estádio, ao contrário do que muitos dirigentes pensam. A boa campanha do clube (terminou em primeiro e ganhou a promoção ao Campeonato de Portugal), depois de uma luta titânica com os rivais União de Lamas, o São João de Ver e o histórico Beira-Mar ajudou a criar uma dinâmica muito forte que atraiu muitos simpatizantes e associados do Lusitânia de Lourosa. O Campeonato Safina ganhou outra visibilidade, outra emoção. E o Lourosa cresceu muito.

Lusitânia Lourosa
Lusitânia Lourosa créditos: Departamento de Comunicação do Lusitânia de Lourosa

"Definimos dois objetivos principais: notoriedade, que é levar o emblema para patamares com visibilidade regionais e nacionais, atingir potencias patrocinadores, e colocar um objetivo muito forte na proximidade. Isso fez com que fim-de-semana após fim-semana víssemos muitos adeptos nas bancadas, fidelizamos sócios e adeptos, passamos de 1200 para 2000 sócios em apenas seis meses", conta-nos Ricardo Alves Dias, responsável pela comunicação e marketing do Lusitânia de Lourosa.

E foi a forma de comunicar do clube que atraiu também a atenção dos adeptos vizinhos, simpatizantes e não só do Lourosa, mas também de muitos internautas, apaixonados pela forma de comunicar do clube. Os resultados começavam a aparecer: menos de um ano, o clube quase que duplicou o número de sócios pagantes.

"Percebemos quais eram as necessidades dos adeptos, o que queriam ouvir e ver. Passamos a criar conteúdos no sentido do contexto e da proximidade, com um público bairrista, de classe média que vive a marca. No Facebook iniciamos com três mil seguidores em agosto, em maio estamos perto oito mil, tudo orgânico, sem comprar publicidade. Queríamos finalizar a época com 10 mil seguidores. A última publicação grande, que é a imagem de campeão, teve 250 partilhas, sem contar que teve 25 mil de alcance. Tivemos vídeos promocionais com 25 mil visualizações. No Youtube e Instagram estamos com um crescimento brutal. No Youtube temos dois mil subscritores,", explica Ricardo, ele que se formou em Gestão de Desporto no ISMAI.

Apesar de ser um clube da distrital de Aveiro, a comunicação do Lourosa é de Primeira. A Lourosa TV, lançado na 4.ª jornada do Campeonato Safina de 2017/2018, transmite todos os jogos do clube em casa, em direto pela internet e tem uma média de 500 pessoas a ver as transmissões. Nalguns jogos atinge as 800 pessoas, em direto. A Gala dos 94 anos do clube chegou a ter uma audiência de mil pessoas, isso numa pequena cidade com 10 mil habitantes. Logo após o final dos jogos, os mesmos são colocados nas redes sociais. Todos têm uma média de seis mil visualizações, exceto o do dérbi com o União de Lamas, que chegaram as 45 mil visualizações.

Com uma comunicação virada para todas as idades, o Lusitânia de Lourosa vai lançando várias iniciativas que estimulam e premeiam os adeptos. Antes do jogo em casa com o União de Lamas, que teve quase oito mil pessoas nas bancadas (no mesmo dia, o Estoril-Benfica, da Primeira Liga, teve 6414 espetadores), a comunicação do clube resolveu premiar cinco pessoas nesse dia, com uma entrada gratuita para a Gala. Fê-lo, apelando à participação dos adeptos, num vídeo que fez furor nas redes sociais, mas também entre a claque do clube. Foi tatuada o símbolo da claque 'Armada Lusitana' na coxa de uma atriz, natural de Lourosa, num vídeo que convidava os adeptos a vestirem-se a rigor para apoiar a equipa no dérbi frente ao União de Lamas.

Luís Miguel: O homem de Lamas que levou o Lourosa ao título

A rivalidade entre o Lusitânia de Lourosa e o União de Lamas voltou a ribalta na temporada 2017/2018 de uma forma nunca antes visto. Tudo começou no início da temporada quando Hugo Mendes, presidente do Lourosa, foi buscar Hugo Miguel, ex-treinador do Lamas, para dirigir a equipa. Caetano, antigo lateral esquerdo do Boavista, deixou a formação de Lourosa ao cabo de seis jornadas. Para o seu lugar, o clube escolheu o técnico que tinha começado a época no União de Lamas e que foi despedido a duas semanas do início do campeonato Safina. Uma aposta arriscada, mas que acabou por dar frutos. O conhecimento que este antigo extremo esquerdo, formado no FC Porto, tinha dos adversários na Distrital de Aveiro, fez a diferença, num dos campeonatos mais bem disputados das associações desportivas de Portugal.

"A rivalidade aqui é como um SC Braga-Vitória de Guimarães"

"No início não foi fácil porque havia pessoas de Lourosa que não acreditavam no presidente. A minha contratação é um ato de grande coragem do presidente, já que venho de um clube rival. Na época passada tive alguns problemas aqui: ganhei ao Lourosa e proferi algumas declarações na Rádio que não foram nada agradáveis para as pessoas de Lourosa. A rivalidade aqui é como um SC Braga-Vitória de Guimarães", sublinha.

Luís Miguel, treinador do Lusitânia de Lourosa
créditos: Fotos@Departamento de Comunicação do Lusitânia Futebol Clube de Lourosa

Para se perceber o crescimento, dentro e fora dos relvados, do Lourosa, é preciso contextualizar. Esta época, a Primeira Divisão da Distrital de Aveiro foi muito bem disputada, com vários clubes a lutar pela subida ao Campeonato de Portugal: Lourosa, União de Lamas, Beira-Mar, Mozelos, São João de Ver, Bustelo, Pampilhosa. Muitos desses clubes são rivais históricos, como é o caso do Lourosa e do Lamas. Rivais e vizinhos, onde os adeptos trabalham muitas vezes juntos, frequentam os mesmos cafés.

"Nunca vi um campeonato de Distrital com esta qualidade, com clubes históricos que já estiveram noutros patamares, como Avanca, Bustelo, União de Lamas, São João de Ver, Estarreja, Beira-Mar", confessa Luís Miguel, antigo jogador do Gil Vicente e com formação no FC Porto.

Para esta rivalidade, Lamas-Lourosa, nascida em 1932-1934, é preciso perceber as gentes da terra. Bairristas, apoiantes ferrenhos da sua equipa, a paixão dos adeptos destes dois emblemas é algo que vemos cada vez menos nas ligas principais. Apesar disso, há diferenças entre ambos. E Luís Miguel conhece-as todas.

"O Lourosa foi sempre uma equipa da região, nasci e cresci em Santa Maria de Lamas, vim do clube rival para o Lourosa. O União de Lamas, que já esteve nos campeonatos profissionais, perdeu um pouco esse bairrismo que continua em Lourosa, que levou sempre muita gente aos estádios. Equiparo-o a um Leixões, a um Varzim e a um Vitória de Guimarães, embora o Guimarães já a num nível bastante superior. Há quatro anos quando eu estava numa equipa da Distrital e o Lourosa foi lá jogar, a receita deu para pagar quatro meses de salários aos jogadores. O Lourosa é um abono de família para estas equipas", conta o técnico de 45 anos.

Depois de várias épocas em vários clubes na Distrital de Aveiro e com passagens pelo Campeonato de Portugal, Luís Miguel, de 45 anos, conseguiu finalmente ser campeão. Fê-lo de forma categórica, num título que para si foi como uma vingança. A sua saída do União de Lamas, seu clube do coração, ficou-lhe 'atravessado na garganta'.

Jogadores festejam o título da Distrital de Aveiro
Jogadores festejam o título da Distrital de Aveiro créditos: Fotos@Departamento de Comunicação do Lusitânia Futebol Clube de Lourosa

"Quando cheguei aqui numa quarta-feira, pedi duas coisas aos jogadores do Lourosa: 'Não me interessa que vocês vão jogar no domingo a Alba mas eu preciso dessa vitória. Eu, treinador Luís Miguel, preciso de vencer em Alba'. Era importante eu começar a ganhar em Lourosa. Depois disso, pedi-lhe mais uma coisa que eram duas: ganhar os dois jogos com o União de Lamas. Era algo pessoal e eles deram-me isso", recorda o técnico, magoado pela forma como saiu do seu clube do coração. Mas o destino tinha-lhe reservado algo muito melhor.

"Estive tranquilo até as duas equipas estarem no aquecimento. Estava no centro de jogo, olhei e tive a sensação: 'Estas duas equipas são minhas'. Não foi fácil aí, retirei-me para não me emocionar"

"Iniciei a época no Lamas. Tive uma coisa muito boa no futebol e a pior coisa que me aconteceu na minha carreira de treinador. Fiquei em 2.º lugar na época passada com o União de Lamas, coisa que ninguém acreditava ser possível, mantive o plantel para esta época e, 19 dias depois de iniciar a pré-epoca, fui despedido. Não me deram os motivos, até hoje não sei porquê. Foi um choque tremendo, o meu pai jogou 23 anos no União de Lamas, a minha mãe é de Lamas, mas tive sempre apoio dos adeptos do Lamas. Quando vim para o Lourosa, foi um choque enorme para mim. No primeiro dia senti-me estranho, porque no ano anterior tinha estado aqui e queria 'rebentar' com o Lourosa e agora estava deste lado. É um pouco parecido com o Jesus [quando trocou o Benfica pelo Sporting]. Eu fiz o plantel do União de Lamas, com 16 jogadores escolhidos por mim", sublinha.

O primeiro jogo do dérbi entre o Lourosa e o Lamas disputou-se no Estádio Comendador Henrique Amorim, na 11.ª jornada do Campeonato Safina. Quase dez mil nas bancadas, num encontro frenético que terminou com a vitória dos forasteiros. O jogo ficou marcado por uma invasão de campo e agressão de adeptos do Lourosa ao guarda-redes do Lamas aquando do segundo golo do Lustiânia. Mas o que ficou mesmo na memória foram os quase dez mil que encheram as bancadas do estádio num encontro da distrital. Para quem estava habituado a ver jogos da Primeira Liga com pouco mais de mil pessoas, ver aquela moldura humana num jogo da distrital era algo que dava que pensar. No meio de tudo, havia um 'corpo estranho': Luís Miguel.

"Estive tranquilo até as duas equipas estarem no aquecimento. Estava no centro de jogo, olhei e tive a sensação: 'Estas duas equipas são minhas'. Não foi fácil aí, retirei-me para não me emocionar. Criamos um grupo muito forte no Lamas, éramos como uma família e aquilo foi destruído. Senti muito isso. Ganhamos, fui bem tratado por toda a gente", lembra, ele que continua a ter amigos do outro lado da barricada.

"O meu café é em Lamas, a 20 metros do estádio, a minha vida é feita lá, sou de lá. As pessoas dizem-me, 'Que ganhes todos os jogos menos ao União'. Ainda agora as pessoas me deram os parabéns pelo título e disseram-me: 'Estou a dar os parabéns é a ti, não é ao Lourosa'. Os adeptos de Lourosa sabem, o Lamas é o meu clube, nunca vou mudar isso. Mas uma coisa é certa, no dia em que for embora daqui, o Lourosa não será como antes de eu entrar aqui. Foi uma equipa que me permitiu ter esta felicidade nesta época. Parecem coisas do destino: aconteceu-me a pior coisa do mundo no futebol enquanto treinador [despedimento do Lamas] mas o destino fez-me campeão da distrital de Aveiro. Já tinha sido segundo, terceiro, quinto, sétimo, precisava de ser campeão, já estava farto de não ser campeão da Distrital, e teve de ser o Lourosa. Foi muito difícil no início e muito gratificante no fim", conta, entre sorrisos.

Campeonato de Portugal é uma passagem. O objetivo é a Primeira Liga

Hugo Mendes tem um plano: colocar o Lusitânia de Lourosa nos campeonatos profissionais o mais rápido possível. Desde que assumiu a presidência do clube há menos de um ano, que este empresário, diretor-geral da empresa Mestre da Cor, Grupo Mestre, tem vindo a dotar o Lourosa das melhores condições para os atletas, mas também para os adeptos. O estádio está em obras, para ter bancadas com camarotes, a zona de imprensa sofrerá melhoramentos, parte das bancadas será coberto para assegurar um maior conforto aos associados. O balneário do clube faz inveja a muitas formações dos campeonatos profissionais. Em Lourosa, Hugo Mendes lançou sementes que espera ver dar frutos daqui a dois, três anos. O objetivo é ter o Lourosa na Primeira Liga.

"No próximo ano vamos ter um comportamento mais profissional. Já esta época na Distrital de Aveiro tínhamos um comportamento muito profissional, mas vamos reforçar isso em treinos, apoio à equipa, reforçar apoio à estrutura. Quanto mais rápido nos prepararmos a nível profissional, mesmo não estando lá, quando lá chegarmos já teremos uma estrutura montada, para nós não será nenhuma novidade, já nos preparamos para o nosso futuro. Estamos a nos estruturar para sermos profissionais em campeonatos amadores", explica.

A direção renovou o contrato com o técnico Luís Miguel que assim vai ter a sua segunda experiência no Campeonato de Portugal, depois de ter comandado o Cesarense nessa prova, em 2013/2014. Serão feitas contratações para que passagem do Lourosa pelo Campeonato de Portugal seja o mais curto possível.

Treinador Luís Miguel com o presidente Hugo Mendes. Técnico renovou por uma época
Treinador Luís Miguel com o presidente Hugo Mendes. Técnico renovou por uma época créditos: Fotos@Departamento de Comunicação do Lusitânia Futebol Clube de Lourosa

"É lógico que teremos de fazer ajustes no plantel, vamos para um campeonato completamente diferente, muito disputado. Ninguém me tira a ambição, nem ao presidente, principalmente ele pelo investimento que está a fazer isso. Isso só será rentável para ele quando chegar aos campeonatos profissionais. E quanto mais depressa lá chegar, melhor. Seremos muito competitivos na próxima época, e quem sabe possamos subir. Será difícil, já lá estive com o Cesarense, fomos para a fase dos primeiros, com alguma naturalidade e aí tivemos sérias dificuldades, com algumas equipas já profissionais, houve uma grande diferença. O Lourosa vai ser profissional, se quer estar noutros patamares, tem de começar a trabalhar já para isso. Foi isso que o presidente falou comigo. Já estamos a trabalhar para tentar fazer o melhor plantel possível e ter um campeonato muito competitivo", atira Luís Miguel.

Mas o sonho da subida pode esbarrar num modelo que apenas permite a promoção a duas das 80 equipas que começam o Campeonato de Portugal. Um clube que tenha investido muito e que tenha dominado a sua série, pode ficar afastado na fase de subida caso faça um mau jogo. É um modelo que não agrada a ninguém, mas, para já, é o que há.

"Sentimos que no Campeonato Nacional de Seniores é muito 'ou carne ou peixe'. Ou lutas realmente para subir e para o teu investimento valer a pena, ou todo o dinheiro que colocaste lá não serviu de nada"

"Se querem manter este modelo, pelo menos que o primeiro de cada uma das quatro séries suba logo direto [para a Segunda Liga]. Mas chegar ao final, depois de uma época tão desgastante, ali no sorteio calhar logo as duas melhores equipas das séries e ter já uma eliminada, é muito injusto", diz Hugo Mendes.

É por não concordar com este modelo lesante que o presidente quer ver o Lourosa chegar aos campeonatos profissionais o mais rápido possível.

"Quando dizemos que queremos chegar aos campeonatos profissionais o mais rápido possível, pode parecer arrogância para alguns que já lá estão e pensam: 'O Lourosa quer chegar aqui e ser já campeão, e nós, que estamos aqui há muitos anos?' É muito por causa desta questão mesmo [que queremos chegar o mais cedo aos campeonatos profissionais]. Porque sentimos que no Campeonato Nacional de Seniores é muito 'ou carne ou peixe'. Ou lutas realmente para subir e para o teu investimento valer a pena, ou todo o dinheiro que colocaste lá não serviu de nada: está-se no meio da tabela, a nível económico o clube está a passar dificuldades, ou tenho o insucesso de vir para a Distrital. É muito lesante", critica.

"Acredito que algumas equipas das distritais, chega a uma certa altura em que podem subir, mas não querem. Isso acontece muito no futebol português. Sabem que no CNS o orçamento aumenta muito mais, as taxas de jogo aumentam, aumentam também os gastos com a segurança [GNR] nos jogos, é tudo mais caro e chega-se a um ponto em que se pergunta: 'Vamos apostar para quê? Para subir ou já para descer outra vez?' É desgastante financeiramente. Um clube quando vai ao CNS tem de saber o que quer, com ambição: ou é para estar para fazer 'monte' ou é com o intuito de chegar aos campeonatos profissionais. Porque aí há mais possibilidades, mais apoios, televisões a dar uma verba pelos jogos, há mais patrocinadores, outra visibilidade, já existe uma gestão para segurar um clube, há uma maior sustentabilidade, uma estrutura para ganhar fôlego e tentar subir a Primeira Liga", sublinha o presidente do Lourosa.

Em casa ou fora, apoio é que nunca falta ao Lourosa
Em casa ou fora, apoio é que nunca falta ao Lourosa créditos: Fotos@Departamento de Comunicação do Lusitânia Futebol Clube de Lourosa

Muitos dos jogadores que se sagraram campeões esta época irão transitar para o Campeonato de Portugal. Mas há outros que poderão sair para outros patamares, como é o caso do avançado Ibrahim Koneh. Autor de 23 golos em 28 jogos no Campeonato Safina, o avançado camaronês de 23 anos está a ser muito cobiçado por emblemas da Segunda e Primeira Ligas. O Lourosa não quer 'cortar as pernas' ao jogador, mas só uma boa proposta poderá tira-lo do clube, garante Hugo Mendes.

"O que quero é o melhor para o jogador e para o Lourosa. Não queremos amarrar o jogador que pode ter outros voos, o tempo é curto, e temos de deixar que isso aconteça, mas até agora não apareceu nada. Existem muitas propostas na comunicação social, mas vamos aguardar. Estamos a construir um plantel e o Koneh fará parte desse plantel", garante.

Para o Campeonato de Portugal, Hugo Mendes já está a trabalhar com Luís Miguel na construção do plantel, que deverá ter alguns jogadores da Segunda Liga. A aposta poderá recair em jogadores já em fim de carreira, que possam ajudar o clube com a sua experiência. A chegada a um patamar superior traz outras responsabilidades e exige outros esforços financeiros. O clube é estável financeiramente, mas isso pode não ser o suficiente.

"A nossa gestão são os sócios, receitas dos jogos e ter bons patrocinadores. Não posso dizer que o Lourosa vai se manter fiel ao que é porque todos os clubes que chegam aos campeonatos profissionais têm de ter uma Sociedade para gerir os seus ativos, mas isso é passo a passo. No próximo ano queremos manter tudo, não há SAD nem investidores nem acionistas. Poderá haver investidores, mas em patrocínios e outras pessoas que gostam do clube e que queiram alavancar o clube. O aumento de sócios nos dá alguma sustentabilidade assim como as receitas de jogos, os nossos patrocinadores e parceiros. Mas temos de dar mais a perna para ter mais patrocinadores, mais sócios e mais assistências de modo a cobrir o aumento de despesas nos campeonatos profissionais", frisa o líder do clube da Cidade Capital da Cortiça

"Fui a Alvalade ver esse jogo das meias-finais, na altura em que o Sporting tinha uma das melhores equipas de toda a história, com Figo, Balakov, Iordanov, Juskowiak... E a ambição do Lourosa é que íamos lá para vencer e ir a final da Taça"

Apesar de apenas ter estado na Segunda Divisão por uma vez, o Lusitânia Lourosa é um clube com alguma tradição na Taça de Portugal. Hugo Mendes recorda-se da época em que o clube chegou até as meias-finais da Taça de Portugal, onde foi afastado pelo Sporting no antigo José Alvalade.

"Em 1993/1994 eu era miúdo, acompanhei essa série na Taça. O Lourosa 'arrumou' o Belenenses e o Beira-Mar da Primeira Liga, o Chaves. Fui a Alvalade ver esse jogo das meias-finais, na altura em que o Sporting tinha uma das melhores equipas de toda a história, com Figo, Balakov, Iordanov, Juskowiak... E a ambição do Lourosa é que íamos lá para vencer e ir a final da Taça. A cidade toda acreditava que ia eliminar o Sporting, tanto assim que todo o topo norte do antigo Alvalade era de adeptos do Lourosa, levamos quase oito mil pessoas para Lisboa. Havia excursões, autocarros de todo o lado, parecia um FC Porto - Sporting", recorda.

E é por jogos como este que sonha. Uma das inspirações vem do Red Bull Leipzig, equipa que veio do quarto escalão do futebol alemão até ser vice-campeão em 2017/2018. Hugo Mendes não quer que o Lourosa seja o clube mais odiado de Portugal, como acontece com o RB Leipzig na Alemanha, mas sonha ver o seu clube fazer o mesmo percurso da formação detida pela marca austríaca de bebidas energéticas. Apesar de ser de uma cidade com pouco mais de 500 mil habitantes, o Red Bull Arena, com capacidade para 42500 espetadores, está quase sempre cheio.

O Hipismo é outra 'bandeira' do Lourosa, com resultados
O Hipismo é outra 'bandeira' do Lourosa, com resultados créditos: Fotos@Departamento de Comunicação do Lusitânia Futebol Clube de Lourosa

Movido pela paixão dos adeptos pelo clube, Hugo Mendes quer fazer crescer o Lourosa em toda a linha. O futebol será uma das apostas, mas o clube da pequena cidade de 10 mil habitantes sonha estar na elite noutras modalidades. Nalgumas como no futebol de sete, já ganha títulos.

"Quando cheguei havia três modalidades: futebol da distrital, ténis de mesa onde temos campeões nacionais e onde somos uma referência, e futsal feminino com a equipa a descer dos nacionais, com jogadoras que tinham ido embora, só tinha ficado uma, fizemos uma equipa nova e ganhamos o triplete a nível distrital de Aveiro e estamos a lutar pela subida aos nacionais. Nos 11 meses que levo no clube acrescentei mais três modalidades: o atletismo, já temos campeões nacionais e distritais, o futebol de sete onde somos campeões nacionais e ibéricos, o capitão da seleção de futebol de sete é do Lourosa, o José Carlos. Temos também o hipismo, o nosso cavalo é o campeão europeu de uma classe, numa prova que decorreu em Vilamoura. Todas as modalidades que temos é para ganhar, não é para fazer número. Mas são modalidades da terra, que já se praticava cá na cidade", explica.

A próxima temporada será também desafiante para o departamento de comunicação. Sem o União de Lamas, Beira-Mar e outros clubes rivais e para medir forças com o Lourosa, os responsáveis do clube terão de encontrar estratégias para motivar os adeptos a marcarem presença nos jogos no Campeonato de Portugal. A rivalidade por não estar presente, mas a forte paixão dos adeptos promete continuar a fazer a diferença em campo.

A Primeira Liga anseia ser 'varrida' pelo 'Furacão Amarelo'.

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