"Se não acontecer não vem mal ao mundo". Estas palavras de João Torga, presidente do clube Oriental de Lisboa, antes do importante jogo frente aos algarvios do Moncarapachense, a contar para a última jornada da Série E do Campeonato de Portugal, representam o estado de espírito que se vive em Marvila: A sensação é de dever cumprido.

"O nosso campeonato está feito. Acima das espetativas”, diz António Pereira, treinador do clube. Dois anos depois de ter visto alguns dos seus jogadores envoltos na teia dos resultados combinados, o clube está novamente a ser notícia, mas pelos melhores motivos.

Na segunda posição do campeonato, na sua série, o Oriental, a uma jornada do fim da fase regular do campeonato de Portugal, ainda sonhava com o acesso aos playoffs e com a possibilidade de subir novamente à segunda liga. Precisamente dois anos depois da descida ao terceiro escalão e do furação que ensombrou a imagem de um clube histórico e com pergaminhos no futebol português.

“Quando dizia que jogava no Oriental, a primeira coisa de que se falava era do ‘Jogo Duplo’, confessa Marco Bicho, médio do clube.

O caso rebentou em 2015/2016, quando quatro ex-jogadores do Oriental terão alegadamente recebido, cada um, 7 500 euros, para perderem um encontro frente ao Penafiel.

Na ressaca do escândalo da viciação dos resultados, os primeiros tempos não foram fáceis. A ofensa fácil à integridade dos atletas, a desconfiança no balneário, tudo pairou na cabeça de todos.

“Todos desconfiávamos uns dos outros. Mas o mais difícil, era ouvirmos chamarem-nos corruptos. Não gostei de ouvir aquilo.”

“Todos desconfiávamos uns dos outros. Mas o mais difícil, era ouvirmos chamarem-nos corruptos. Não gostei de ouvir aquilo.”, recorda António Pereira.

Reconhecendo que o caso “não melhorou em nada” a imagem do Oriental, João Torga, presidente do clube, tem a certeza que vai ficar provado que o Oriental “nada tem a ver com aquilo” que se passou. “Se um jogador faz um penalti não se sabe se o faz propositadamente. Questiona, acrescentando, porém, que se trata de uma “Uma página negra na história” do clube.

Os baixos salários praticados em grande parte dos clubes e as influências que podem advir do investimento estrangeiro fazem com que o fantasma da viciação de resultados continue a pairar sobre o futebol.

António Pereira, timoneiro dos ‘Guerreiros de Marvila’ não tem dúvidas que as apostas vieram estragar o futebol.

“Vai acontecer, se não é que não está a acontecer, provavelmente. Vou dizer isto assim, que ainda me vêm buscar. Isto vai acontecer. Se alguém falha um passe…gera desconfiança. Eu nunca tive problemas. As apostas vieram estragar aquilo que é futebol”, assegura.

A origem de um histórico da capital

Nascido em 1947, o clube resultou da fusão entre o Chelas Futebol Clube, Marvilense Futebol Clube e do Grupo Desportivo Os Fósforos. Inserido na maior freguesia de Lisboa, o clube agrega mais quatro freguesias da zona oriental de Lisboa: Olivais, Chelas, Penha de França e Expo.

João Torga, presidente do Oriental
João Torga, presidente do Oriental créditos: @Evandro Delgado

Entre várias presenças na primeira divisão, e o título de campeão da segunda divisão, o clube atingiu a sua melhor classificação de sempre na temporada de 1950/51, ao acabar o campeonato no quinto lugar. A última presença na escalão maior data de 1973.

"Se fosse hoje íamos à Europa (risos)"

Oriental – Clube sem SAD e sem dívidas

Com um orçamento a rondar os 900 mil euros e ao ser um dos poucos clubes que não tem SAD, a direção dos ‘Guerreiros de Marvila’ orgulha-se por honrar sempre os seus compromissos. Paga sempre, a tempo e horas, os ordenados dos atletas. Caso raro, nas divisões secundárias.

“O nosso ADN é não darmos um passo maior que a perna”

“O nosso ADN é não darmos um passo maior do que a perna. Temos muito cuidado com o dinheiro que gastamos, não temos passivo. Não temos dívidas. Temos um orgulho muito grande. Não devemos dinheiro à segurança social. Temos só as dívidas correntes, da água, luz e ordenados. Às vezes pagamos menos que outros, mas pagamos certo. No princípio do mês toda a gente recebe. Na nossa série [E do campeonato de Portugal], começaram a dar mais que nós e depois não pagam", alerta o líder do COL.

Início de temporada conturbado

Com a saída da direção, em julho de 2017 e o início do campeonato a aproximar-se foi João Torga, sócio há 54 anos do Oriental e presidente do clube entre 1982 e 1986, que encabeçou a única lista. Com uma direção demissionária e sem jogadores, a preparação para a temporada de 2017/2018 acabou por ser feita em contra-relógio.

“Não apareceu ninguém na altura e eu encabecei a lista e como se diz não há duas sem três. Quando estive cá pela primeira vez tinha metade da idade, como costumo dizer (risos)”, referiu João Torga.

A reconstrução do plantel, com ‘miúdos’ que não “tinham jogado em lado nenhum” mais um conjunto de veteranos teve o dedo do Mister António Pereira, uma figuras das míticas do futebol português, que soma 33 anos de experiência de banco. Conhecido como o ‘Mourinho dos Pobres’ e que se notabilizou com as subidas à segunda divisão,  mas sobretudo por ter sido o último dos tomba-gigantes. Lembra-se quem treinava o Atlético que eliminou o FC Porto da Taça de Portugal? Pois bem, foi António Pereira.

“Um dia tivemos aqui a reunião, a direção demitiu-se e os jogadores foram-se todos embora. Só fiquei eu, e um jogador que tinha contrato, que era o Marco Bicho. Não tínhamos jogadores, não tínhamos direção, não tínhamos nada e íamos ver o que é que aquilo ia dar. Entrou a direção e as coisas compuseram-se em 20 dias. Fizemos uma serie de contratações de miúdos, alguns que não tinham jogado em lado nenhum. Meteu-se 4 veteranos que deram esperança. Tínhamos dos orçamentos mais baixos e queríamos fazer os 31, 32 pontos para a manutenção. E aí foi jogo a jogo”, referiu.

O último tomba-gigantes

Com a cara de quem já foi questionado 1556 vezes sobre a mesma pergunta, António Pereira reconhece que o triunfo sobre o FC Porto foi a página mais bonita que viveu no futebol.

- É mais conhecido por essa eliminação do FC Porto não é? “Sabe eu não tenho só esse feito. Tenho sete subidas de divisão, n segundos lugares. Deu-me mais visibilidade por ser o Porto. Com o Torreense também eliminei o Gil Vicente da primeira divisão. Eliminei o Moreirense. Tenho momentos muito bonitos, mas esse deu-me o estatuto que tenho no futebol. Aquele dia 7 de janeiro de 2007 é a coisa mais bonita que tenho no futebol. Ainda dou entrevistas na televisão por causa da eliminação do Porto na Taça. Vou morrer e vão lembrar-se de mim. É uma página muito bonita e já lá vão 11 anos, recorda.

"Ainda dou entrevistas na televisão por causa da eliminação do Porto na Taça. Vou morrer e vão lembrar-se de mim por causa desse jogo".

Marco Bicho, na altura jogador do Atlético, também considera que esse dia foi o seu ponto alto. “Acaba por ser o melhor momento da minha carreira. Frente àquele FC Porto ainda por cima…Não vou dizer que o FC Porto de agora é fraco, senão ainda vem o Sérgio Conceição para cima de mim (risos). Naquela altura, o FC Porto limpava tudo. E eliminámos o FC Porto no Dragão e foi algo inesquecível. Aparecemos em todas as televisões às 20h00 da noite. Aparecemos no Gato Fedorento. Fomos o último ‘tomba gigantes’.

"[Eliminação do FC Porto na Taça] Acaba por ser o melhor momento da minha carreira. Ainda por cima frente àquele FC Porto…Não vou dizer que o FC Porto de agora é fraco, senão ainda vem o Sérgio Conceição para cima de mim"

Marco Bicho – O jogador-estudante que um dia sonha em sentar-se no banco

Marco Bicho, jogador do Oriental
Marco Bicho, jogador do Oriental

Os 38 anos no bilhete de identidade não mentem. Com passagens pela primeira divisão ao serviço do Paços de Ferreira, o médio viveu a experiência de tirar os azuis e brancos, na altura treinados por Jesualdo Ferreira, da Taça de Portugal, em pleno estádio do Dragão. A meio de 2015-2016, ingressou no Oriental, por empréstimo do Cova da Piedade. Por dentro da realidade do clube , as expetativas eram baixas e as dificuldades começaram logo na pré-época, na altura da formação do plantel. Com os maus resultados nos testes do defeso, os objetivos teriam que passar obrigatoriamente pela luta pela manutenção. Mas os 'Guerreiros de Marvila" trocaram as voltas aos velhos do Restelo.

“Quando começamos davam-nos como mortos e que íamos lutar pela manutenção”

“Apanhei o Oriental em baixo e nesta fase fico bastante satisfeito. Ninguém esperava que ficássemos no segundo lugar. A equipa foi feita em cima da hora. Os jogos da pré-época não nos correram bem. Foi engraçado ver o crescimento destes miúdos cheios de qualidade. Se estamos onde estamos é porque dentro de campo fomos uma equipa humilde. A intensidade dos treinos era impressionante e as disputas de bola...tudo saudável. Acho que fizemos um trabalho fantástico”, referiu.

Com muitos anos de futebol nas pernas, Marco Bicho garante ter ainda disponibilidade e ânimo para continuar a fazer aquilo que mais gosta. A idade representa apenas um número; a mente é ainda a de um miúdo de 20 anos.

“Acho que não estou a fazer um favor a ninguém. Posso dizer que a minha vontade é continuar a aprender dentro de campo". Quero um futuro ligado ao futebol e continuo a aprender com miúdos com 18 ou 19 anos. Todos têm mentalidade de vencer e de ambição e vontade de ganhar. Entro em campo com vontade de treinar, entro no balneário com vontade de brincar e não me sinto com 38 anos. Brinco com eles como se tivesse 20 anos. Para acabar? Eu não quero, mas um dia vai ter que ser”.

Um veterano no meio de um plantel onde despontam promessas entre os 19 e 20 anos, os gritos mais estridentes nos jogos e os conselhos nos treinos são acolhidos pelos mais novos como lições para a vida.

“Eu acho que os consigo ajudar. Grito muito com eles nos treinos e nos jogos, mas eles percebem que é para o bem deles”. Sobre o potencial de alguns dos jogadores do plantel, Marco Bicho não tem dúvidas.

“Garanto que aqui há jogadores que podem chegar lá acima. Não tenho dúvidas nenhumas. Não vou estar a dizer nomes, que alguém ficaria melindrado”.

Licenciado em Educação Física e a tirar um mestrado em futebol, depois do futebol, o centrocampista não se vê fazer algo ligado a outra área sem ser o futebol.

“Segui para este lado porque sempre estive ligado a isto. Não me vejo muito noutra área. Foi a minha vida e gostava de poder ser um bom condutor de homens. O meu sonho é banco. Gostaria de ajudar de todas as maneiras, mas o meu sonho é banco”.

Mas para se chegar ao banco, e tirar o quarto nível de treinador, há toda uma montanha para ser transposta. São oito anos de formação, que têm início no primeiro nível, e em que não é tido em conta um passado ligado ao desporto rei. “Estou ligado ao futebol há 30 anos. Desculpem, que humildade a mais também é vaidade: Há coisas que não me estão a ensinar. Tenho sorte que a minha faculdade me dá já o segundo nível”, observa.

Campeonato de Portugal não é futebol de terceira

Com a experiência de primeira divisão, o médio sabe bem as diferenças de realidade entre o escalão máximo do futebol português e aquela que era a antiga segunda divisão B. Habituado a pisar outros palcos, no Oriental, o futebol é encarado com responsabilidade, mas onde também se respira um ar mais puro. Quem é o diz é Marco Bicho.

“Quanto mais acima estamos, mais se assiste a coisas muito feitas. Sou mais feliz aqui do que quando estava na Segunda Liga no Cova da Piedade. Não tenho nada contra os meus antigos colega, mas derivado dos investimentos, das pressões, por uma variedade de situações. Aqui [no Oriental] o futebol é mais puro.

Campeonato de Portugal - 80 Cães a dois ossos que dão acesso à segunda liga

Com 80 equipas divididas por cinco séries de 16 equipas, os primeiros classificados de cada série, assim como os três melhores segundos classificados, disputam um playoff, de onde saem dois finalistas que têm entrada direta na segunda liga. Confuso? As contas no campeonato de Portugal mais parecem um quebra-cabeça chinês. O feito da subida de divisão está ao nível da escalada do Monte Evereste.

Sem apuramento direto, um equipa que tenha dominado a sua série na temporada regular arrisca-se a cair no ‘mata-mata’, - como dizia Scolari - e a morrer na praia. E aí todo o investimento cai em saco roto.

“O campeonato de Portugal é o parente pobre do futebol. Aqui há uns anos subi o Atlético à segunda liga. Ganhei o campeonato com 20 pontos de avanço, mas depois ainda tive que ir fazer um ‘playoff’. Uma estupidez. Se ganhei o meu campeonato, tenho que subir de divisão. Não pode acontecer é entre 80 equipas subirem duas. As pessoas começam a desinteressar-se.”, observa António Pereira.

“O Farense fez um investimento brutal, ganhou esta série [E do campeonato de Portugal] com muitos pontos de avanço. Agora vai para o playoff e está sujeito a não subir?”, questiona.

O mítico António Pereira

António Pereira, treinador do Oriental
António Pereira, treinador do Oriental

Com muitos anos de experiência no futebol, António Pereira já lidou com planteis recheados de bons homens, homens assim-assim e maus homens. Conhecido pelo rigor na preparação dos jogos e dos treinos, o técnico de 61 anos quis desmistificar a imagem de disciplinador.

Se é fácil trabalhar com ele? “Muito fácil. Eles sabem. Aquilo que temos estipulado temos que fazer. Se quiser pode-lhes perguntar [risos]. Se cumprirmos com tudo o que estipulámos dentro da cabine, as coisas são fáceis. O problema é que há alguns que querem sair daquela forma de estar. Daquela forma de ser. Aqui não quiseram! Brincadeira antes do treino. Treino, acabou a brincadeira. Brincadeira depois do treino. Certo! Amizade, tranquilidade e humildade. Acima de tudo as pessoas têm que ser humildes, ate mesmo na própria vida".

No Oriental, António Pereira encontrou um plantel ambicioso e trabalhador. Confessa que em mais de três décadas no banco, bateu um recorde. Pela primeira vez, durante uma temporada inteira, um jogador sob o seu comando não foi obrigado a recolher mais cedo.

"Esta época não mandei nenhum jogador para o banho antes do treino acabar. Em 33 anos de carreira... Só por aqui se justifica o que era o grupo"

“Não mandei ninguém para o banho antes do treino acabar. Em 33 anos de carreira...Só por aqui justifica o que era o grupo. Quando não há um único problema...veja como é que lidávamos uns com os outros. Mas sempre com uma amizade e um respeito enorme. Parabéns a eles, que eles é que foram obreiros disto".

Na altura em entrevistámos António Pereira, o Oriental preparava o encontro com o Moncarapachense e precisava de um milagre para ser um dos melhores segundos e se qualificar para o playoff de acesso à segunda liga. Mas com subida ou não, a época já estava ganha.

“Ninguém parte para não descer, fazendo uma equipa em 20 dias e acaba em segundo. Ninguém. Fomos nós. Estou muito satisfeito. Eles merecem tudo aquilo que lhe aconteceu. Alguns deles tinham idade para ser meus filhos ou netos. Fiquei satisfeito por poder lançar miúdos fantásticos, alguns que estiveram à experiência, e que se portaram muitíssimo bem. Os mais velhos também merecessem”.

Com estrutura, adeptos, mística, representatividade na cidade de Lisboa e contas em dia, o lugar do Oriental só pode ser um.

“O lugar do Oriental é na segunda divisão. Depois é lá com eles. Já não será comigo que cá não estarei”.

“O lugar do Oriental é na segunda divisão. Sem dúvida. Tem tudo. Tem condições, tem estádio. Tem uma direção que paga a tempo e horas, que já não há ou pouco há no futebol. É situado em Lisboa. O lugar do oriental será numa divisão acima, depois é lá com eles. Já não será comigo que já cá não estarei”, atirou António Pereira.

Quando à pergunta óbvia. Se gostaria de levar o clube de volta à segunda divisão, a resposta surge, curta, direta e sem papas na língua, à semelhança de uma das personalidades mais carismáticas do futebol português.

“Gostava, sim. Porque o Oriental merece, a segunda liga no mínimo. Vamos ver, não gosto de falar do futuro. Falo do presente e do passado. Do presente que fizemos, eu acho fantástico. O Oriental merecia. Claro que gostava, nem que fosse para acabar em grande”.

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