A 19 de dezembro de 1863 disputou-se em Inglaterra o primeiro jogo de futebol com as primeiras regras padronizadas pela Football Association, e que viria a ser determinante para a separação do futebol do râguebi. O jogo entre Barnes e Richmond terminou 0-0, e tanto o futebol como o râguebi nunca mais seriam o mesmos desde esse dia.

Até 1863, data da fundação da Football Association por Ebenezer Cobb Morley, que o futebol não tinha qualquer tipo de organização. As equipas jogavam com um número indeterminado de jogadores num campo que variava de tamanho, com uma bola sem forma padronizada, durante tempo indeterminado e até que alguém marcasse um golo, ou “serviço”. Durante quase uma década não houve distinção entre futebol e râguebi, sendo uma modalidade praticada em várias universidades inglesas com regras próprias de interpretação do jogo.

E foi com a fundação da Football Association a 26 de outubro de 1863, que o futebol oficializou e padronizou as primeiras regras de jogo conhecidas pelas 14 Leis de Cambridge. No primeiro jogo de futebol com as regras padronizadas da FA, as equipas de Barnes e Richmond encontraram-se em Limes Field, Mortlake, para um empate a 0-0. As equipas apresentavam 15 jogadores cada, e ao final de 90 minutos o encontro terminou empatado. Apesar da boa adaptação dos jogadores às regras, e segundo rezam as crónicas da época, a equipa de Richmond regressou a casa pouco impressionada com o “novo desporto” e continuou a seguir as bases que dariam origem ao râguebi.

«As primeiras regras de Cambridge não estavam escritas, não havia documentos escritos, mas foram seguramente o embrião para o futebol moderno. Até porque havia vários praticantes nesse mundo, que era o mundo universitário, e era necessário colocar essas regras por escrito», afirmou João Querido Manha, diretor do jornal desportivo Record, ao SAPO Desporto, sobre a importância da instituição das regras de jogo para a emancipação do futebol.

«Por exemplo, na regra 2 das Leis de Cambridge, diz que todas as faltas, ou "charging" são "fair", ou seja permitidas, mas agarrar empurrar com as mãos, puxar o corpo ou ameaçar, são proibidas. Logo aqui já era permitido a carga, ou a carga de ombro, que é legítimo, em que é a força de um homem contra outro, e isto está desde a origem. Há uma lógica», acrescenta o jornalista.

«Os 15 contra 15 é uma característica dos inícios do râguebi. No râguebi, ainda hoje em dia há muitas Federações que têm "football" dentro do seu nome. Há uma clara associação do râguebi com o futebol desde sempre», começa por dizer Tomaz Morais, diretor técnico nacional de Râguebi, e consultor da International Rugby Board, ao SAPO Desporto.

«Richmond é uma equipa clássica inglesa. Neste momento ocupa as divisões inferiores do râguebi inglês e é das equipas mais históricas e que maior visibilidade teve durante muitos anos. É daquelas equipas como Cambridge ou Oxford, que se ouviam falar no mundo inteiro quando se trata de râguebi», acrescentou Tomaz Morais sobre a histórica equipa de râguebi que participou no primeiro jogo de futebol com as regras da FA.

«O futebol é um jogo de cavalheiros jogado por brutos enquanto o râguebi é um jogo de brutos jogado por cavalheiros»

Tendo uma origem em comum, futebol e râguebi evoluíram ao longo dos anos, até à forma atual, através das próprias leis do jogo diferenciadas. A 26 de janeiro de 1871 é fundada a Rugby Football
Union em Londres na sequência de um desentendimento com a FA por causa da retirada
de duas regras: uma era carregar a bola com as mãos, a outra sobre os
tackles.

«Todas essas regras evoluíram com base em ocorrências. Foram experiências que foram fazendo evoluir e chegar às atuais regras. Dessas primeiras regras aproveita-se muito pouco. Não havia uma série de pormenores que foram inventados a pouco e pouco», lembra João Querido Manha sobre a evolução das regras do futebol moderno.

«No râguebi era permitido agarrar com cortesia, porque o jogo era um jogo cortês apesar do contacto físico não era um jogo de violência, era apenas um jogo, e no futebol foi uma coisa que evoluiu. Hoje em dia no râguebi ainda é permitido placar e ter uma série de intervenções que no futebol que de certa forma são faltas», acrescentou João Querido Manha.

«O futebol só pode utilizar as mãos em ações específicas. No lançamento da linha lateral. O guarda-redes, pronto. O râguebi pode jogar livremente com as mãos e com os pés sendo que só pode passar a bola para o lado ou para trás. Porque o râguebi tem uma coisa distinta em relação aos outros desportos coletivos que quem comanda o jogo é a bola. Ou seja, a bola tem de estar sempre à frente dos jogadores. Enquanto nas outras modalidades, os jogadores podem deslocar-se à frente da bola», afirma Tomaz Morais.

Apesar dos caminhos distintos de evolução entre as duas modalidades, Tomaz Morais lembra, no entanto, que ambos os desportos se influênciaram.

«Basta ver jogadores de futebol como o Cristiano Ronaldo a baterem os livres para ver que eles seguem as técnicas dos pontapés aos postes do râguebi. Sem dúvida que copiaram a técnica do Jonny Wilkinson», frisou o diretor técnico nacional de Râguebi.

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