O Benfica aguentou enquanto pode. Mas a saída de Paulo Gonçalves do clube 'encarnado' era uma inevitabilidade histórica, a partir do momento em que se começou a divulgar dados sobre o seu envolvimento no caso dos e-mails. A SAD 'encarnada' foi resistindo aos pedidos de saída do homem-forte da parte jurídica do clube, elogiando um homem de confiança mas, esta segunda-feira, a 'corda, partiu pelo lado mais fraco. Em comunicado, os 'encarnados' sublinham que foi o próprio a pedir para sair. Tal como tinha acontecido diversas vezes nos últimos meses, a cada revelação do 'e-mails' roubados ao Benfica, a cada revelação no processo 'e-toupeira', os adeptos questionavam: Como podia a SAD 'encarnada' manter o dirigente?

A sua detenção no dia 6 de março de 2018, uma terça-feira, por suspeita de corromper funcionários judiciais para ter acesso a informações sobre os processos judiciais em que o clube está envolvido marcava o início do seu fim no Benfica, onze anos depois de ter chegado ao clube da Luz, pelas mãos de Luís Filipe Vieira.

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Mas tudo ficou mais complicado quando a 27 de agosto de 2018, a Procuradoria Geral da República (PGR) constitui a SAD do Benfica como arguida no processo 'e-toupeira'. Uma decisão considerada "ilegal e inconstitucional" por parte do Benfica. O processo, como se sabe, investiga a utilização abusiva de credenciais informáticas na plataforma Citius de uma magistrada do Ministério Público (MP), que se encontra colocada na coadjuvação da Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa (PGDL), e, desta forma, recolher informação relacionada com processos, designadamente envolvendo o Benfica.

O MP ainda acusou dois funcionários judiciais, a SAD do Benfica e Paulo Gonçalves vários crimes, incluindo corrupção, favorecimento pessoal, peculato e falsidade informática, no caso "e-toupeira". A SAD 'encarnada' é a acusada de um crime de corrupção ativa, de um crime de oferta ou recebimento indevido de vantagem e de vinte e oito crimes de falsidade informática. Já seu assessor jurídico Paulo Gonçalves é acusado de 79 crimes, segundo a o Ministério Público (MP).

O jurista que pesta assessoria nessa área ao Benfica há onze anos está a ser acusado do crime de corrupção ativa, do de oferta ou recebimento indevido de vantagem, 21 crimes de violação de segredo por funcionário, em coautoria com os arguidos Júlio Loureiro e José Silva (ambos funcionários judiciais). Paulo Gonçalves está ainda acusado de 11 crimes de acesso indevido (em coautoria), de 11 crimes de violação do dever de sigilo (em coautoria) e 28 crimes de falsidade informática.

Mas o Benfica sempre negou tais acusações, tanto da SAD como de Paulo Gonçalves. “Inexiste qualquer facto, circunstância de tempo, lugar e modo, bem como prova concreta, que fixem uma qualquer conexão entre os factos imputados a qualquer dos arguidos, sejam os funcionários judiciais e o Dr. Paulo Gonçalves e o Conselho de Administração da SAD do SLB [Sport Lisboa e Benfica], bem como em que momento, circunstância, de que forma e que uso foi dado por um qualquer elemento da SAD à informação que supostamente teria tido acesso”, disse à Lusa, defesa da SAD do Benfica.

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O entendimento do Ministério Público é outro. A acusação no processo 'e-toupeira' considera que o presidente da Benfica SAD, Luís Filipe Vieira, teve conhecimento e autorizou a entrega de benefícios a dois funcionários judiciais, por parte do assessor jurídico do clube, Paulo Gonçalves.

“As entregas aos arguidos José Silva e Júlio Loureiro eram do conhecimento do presidente da Sociedade Anónima Desportiva (SAD), que as autorizava ou delas tomava conhecimento por correio eletrónico, ou rubricando folha de autorização, sem nunca as impedir, pois tal era para beneficio da arguida [Benfica SAD], assim querendo e aceitando todas as condutas”, refere a acusação do Ministério Público (MP), a que a agência Lusa teve acesso.

Segundo o despacho do procurador adjunto Valter Alves, do Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa, “todos os benefícios entregues aos funcionários judiciais e observador de arbitragem foram-no a custo da Benfica SAD, que os suportou, fazendo uso da sua própria estrutura e colaboradores”.

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Diz o Ministério Público que Paulo Gonçalves terá subornado dois funcionários judiciários, com ofertas de produtos de mershandising do clube e ainda bilhetes para os jogos, para que os mesmos 'espiassem' processos onde constavam o nome do Benfica mas também outros processos onde os rivais FC Porto e Sporting eram intervenientes.

Mas a defesa da Benfica SAD sublinha que em nenhum momento se prova que Luís Filipe Vieira tivesse conhecimento de tais factos, explicando que Paulo Gonçalves enviava a listagem de convites para os jogos à funcionária responsável, com conhecimento do presidente do Benfica. Ou seja, a tese do Benfica passa por defender que as ações imputadas a Paulo Gonçalves são da sua inteira responsabilidade e que a SAD 'encarnada' em nenhum momento teve conhecimento das mesmas. O Benfica continua a defender que, o que quer que Paulo Gonçalves tenha feito, fê-lo sempre sozinho até porque não integra a SAD do clube.

Uma das pessoas que passava as informações a Paulo Gonçalves era Júlio Loureiro, funcionário judicial, escrivão e observador de árbitros. Está acusado de 76 crimes: um de corrupção passiva, um de recebimento indevido de vantagem, um de favorecimento pessoal, seis de violação de segredo de justiça, 21 de violação de segredo por funcionário, nove de acesso indevido, nove de violação do dever de sigilo e de 28 crimes de falsidade informática. No tribunal, negou tudo.

"Nunca tive acesso a nenhum processo, nunca pesquisei nenhuma base de dados, considero-me inocente, não cometi qualquer tipo de crime. Sinto-me tranquilo", disse Júlio Loureiro em declarações à SIC, à entrada do Tribunal de Guimarães, onde continua a trabalhar.

Paulo Gonçalves cada vez mais só

Na defesa que o Benfica apresentou, raras vezes foi mencionado o nome de Paulo Gonçalves. Numa reação à acusação do Ministério Público (MP) contra a SAD 'encarnada', Luís Filipe Vieira, reafirmou sempre a legalidade do comportamento da Benfica SAD, mas sem nunca mencionar o nome de Paulo Gonçalves, seu 'braço direito'.

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"O debate comunicacional que certamente iremos continuar a assistir, e onde não faltarão os tradicionais julgamentos em praça pública, em nada altera a confiança e a independência dos tribunais e a certeza que as decisões judiciais definitivas limparão o bom nome e a honra do Benfica”, disse Luís Filipe Vieira, a concluir o seu depoimento, sem mencionar em momento algum o nome do assessor jurídico da SAD, Paulo Gonçalves, acusado de vários crimes pelo Ministério Público (MP) no âmbito do mesmo processo.

Só recentemente, Varandas Fernandes, vice-presidente do Benfica, abordou o posição do clube em relação a Paulo Gonçalves.

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"Paulo Gonçalves é funcionário do Benfica. A situação não se alterou. É um profissional competente, dedicado. Até prova em contrário acredito na sua inocência. Está acusado, não está condenado. A justiça encarregar-se-á de apurar. Conheço muitos casos de boa gente que foi acusada e nunca foi a julgamento", disse, na passada quinta-feira, Varandas Fernandes.

Esta terça-feira, o clube anunciou, em comunicado, ter chegado a "um acordo para a cessação do contrato de trabalho" do assessor jurídico Paulo Gonçalves, arguido no caso e-toupeira, por "razões de natureza pessoal". Segundo as ‘águias’, a proposta partiu do assessor jurídico e na base da decisão estão “razões de natureza pessoal, em especial a necessidade de se dedicar à sua defesa num processo judicial” e “em nada” relacionadas “com o exercício de funções que lhe estavam confiadas”. Na mesma nota, a SAD do Benfica agradece o trabalho de Paulo Gonçalves “ao longo de 12 épocas desportivas e até hoje”, realçando “o profissionalismo, a lealdade, a integridade e a dedicação” do agora ex-assessor jurídico.

Um homem do Norte, com ligações ao FC Porto e ao Boavista, a 'mandar' no Benfica

Filho de uma família sportinguista, Paulo Gonçalves, de 48 anos, chegou ao Benfica há dez para se tornar um dos três homens com mais influência na SAD 'encarnada', juntamente com Luís Filipe Vieira e o administrador Domingos Soares Oliveira.

Considerado um dos mais experientes e reputados especialistas em direito desportivo, Paulo Gonçalves esteve na criação da SAD do FC Porto, em 1997, onde esteve durante quatro anos. Saiu em 'guerra' com Pinto da Costa, presidente do FC Porto, e também com o administrador Adelino Caldeira. Ingressou no rival do FC Porto na cidade, o Boavista, onde esteve 2000 e 2006, que coincide com os momentos mais alto e mais baixo da história do clube. No Bessa, Paulo Gonçalves ajudou a criar a SAD axadrezada, ele que era diretor-geral da SAD da mesma no ano da conquista do título, em 2000/01. Esteve também envolvido no escândalo do 'Apito Dourado', que em 2008 que levou a descida de divisão do Boavista.

Chega ao Benfica em 2007 pelas mãos de José Veiga para ocupar o lugar de Fernando Seara Cardoso, o de assessor jurídico da SAD ‘encarnada’. Torna-se no homem de confiança de Luís Filipe Vieira na área jurídica, com participar destaque para tudo o que dizia respeito à contratualização de jogadores. Passou depois a ser o representante do clube nas assembleias gerais da Liga.

Hoje, deixa o clube ao cabo de 11 anos, para preparar a sua defesa no processo 'e-toupeira'. Um processo onde a SAD do Benfica é arguida, além de Paulo Gonçalves e ainda mais dois funcionários judiciais.

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