Os advogados da sociedade PLMJ ouvidos hoje de tarde na 16.ª sessão do julgamento do processo ‘Football Leaks’ enfatizaram o impacto causado pela intrusão alegadamente efetuada pelo criador da plataforma, Rui Pinto, no sistema informático do escritório.

João Carminho, José Formosinho Sanchez e Sara Estima Martins estiveram como testemunhas no julgamento em curso no Tribunal Central Criminal de Lisboa e uniram-se na condenação da quebra do sigilo profissional a que estavam obrigados enquanto advogados, além de admitirem, em diferentes graus, os efeitos negativos na sua atividade e a nível pessoal.

“Tive insónias todas as noites a pensar se iam divulgar [documentos do meu computador] ou não. Foi algo que me deixou bastante preocupado, porque não eram só documentos meus, eram também de familiares e clientes”, afirmou José Formosinho Sánchez, assinalando: “O impacto foi grande e passei semanas a ver o que foi retirado e que consequências podia ter. Perdemos muitas horas a tentar perceber o conteúdo que tinha sido copiado”.

A exercer funções na PLMJ desde 2011, o advogado confessou que só possuía email profissional e que esta conta de correio eletrónica tinha “toda a vida” lá guardada, criando um sentimento de “preocupação” que se prolongou por várias semanas. Segundo José Formosinho Sanchez, os documentos do seu computador não eram apenas sobre futebol.

Já Sara Estima Martins, que integra aquela sociedade há 14 anos, considerou ter havido um “impacto muito grande” quando se descobriu que teria havido um acesso ilegítimo ao sistema informático do escritório e à posterior divulgação de documentos de advogados na Internet, que reiterou serem “todos sigilosos” e “abrangidos pelo segredo profissional”.

“O sigilo profissional é o mais importante para um advogado e a ingerência é o pior que pode acontecer. Houve receio, preocupação, insegurança e causou muito transtorno. Isto é algo que impacta na própria reputação de um advogado, mesmo não sendo responsável. Há o receio do que pode acontecer e isto acaba por mudar uma pessoa”, frisou.

Por fim, João Carminho, que à data da alegada intrusão de Rui Pinto no sistema – entre o final de 2018 e o início de 2019 – era apenas advogado estagiário, contou que o seu email foi então “desativado por razões de segurança”.

Porém, apesar da retirada de acesso ao email e ao computador fixo que tinha no escritório, garantiu nunca se ter sentido “um alvo” por parte de outros colegas e que nunca foi acusado de nada.

“Criou um mal-estar geral, ninguém sabia bem o que se estava a passar. Fiquei espantado”, confessou João Carminho, que teve como ‘patrono’ o advogado João Medeiros, um dos responsáveis pela defesa da SAD do Benfica no processo E-Toupeira e que viu a sua caixa de correio eletrónica ser divulgada no blogue ‘Mercado de Benfica’.

“Nunca ninguém me explicou como foi feito o acesso”, acrescentou.

O julgamento do processo ‘Football Leaks’ continua agora na próxima terça-feira com a audição de mais testemunhas relacionadas com o acesso ao sistema informático da PLMJ.

Rui Pinto, de 31 anos, responde por um total de 90 crimes: 68 de acesso indevido, 14 de violação de correspondência, seis de acesso ilegítimo, visando entidades como o Sporting, a Doyen, a sociedade de advogados PLMJ, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR), e ainda por sabotagem informática à SAD do Sporting e por extorsão, na forma tentada. Este último crime diz respeito à Doyen e foi o que levou também à pronúncia do advogado Aníbal Pinto.

O criador do Football Leaks encontra-se em liberdade desde 07 de agosto, “devido à sua colaboração” com a Polícia Judiciária (PJ) e ao seu “sentido crítico”, mas está, por questões de segurança, inserido no programa de proteção de testemunhas em local não revelado e sob proteção policial.

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