Cerveja e bifana nas mãos, cachecol ao pescoço, cores vivas das camisolas do clube, sorrisos rasgados entre amigos. São memórias de um passado pouco distante de um adepto de futebol, cuja rotina de fim de semana foi abruptamente interrompida pela pandemia de COVID-19. Há um ano, poucos imaginariam que o sofrimento com os jogos do seu clube passaria para o conforto do sofá, sem alma, sem calor, afastados da arena onde se decide tudo.

A COVID-19 veio interromper uma rotina de milhares de adeptos, que aos fins de semana encontravam no futebol uma forma de descompressão das correrias e do stress do dia a dia.

A emoção de ver um jogo de futebol num estádio lotado desapareceu. Os adeptos do FC Porto não puderam festejar a conquista dos títulos de 2019/20 com a equipa na Avenida dos Aliados como era habitual. O Nacional e o Farense não conseguiram fazer a festa da subida à Primeira Liga com os seus. O Liverpool esperou 30 anos para voltar a ser campeão em Inglaterra e, no final, os jogadores tiveram de caminhar sozinhos em Anfield, sem aquela moldura humana que fazia tremer qualquer equipa. O Leeds, ressuscitado com Marcelo Bielsa, voltou ao convívio dos grandes em Inglaterra, mas os seus entusiastas adeptos tiveram de assistir tudo pela TV.

Faz-me impressão não sentir o barulho do estádio

Foi a 8 de março de 2020 que se realizou o último encontro em Portugal com público nas bancadas sem restrições. O Vitória de Guimarães contou com a ajuda dos seus fervorosos adeptos para operar a reviravolta e vencer o Paços de Ferreira por 2-1, na 24.ª ronda da Liga 2019/20, num encontro que teve 4105 espectadores. Na II liga viria a jogar-se ainda mais um, no dia seguinte, com o Leixões a empatar 1-1 na receção ao Farense, perante 4234 adeptos no Estádio do Mar.

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Após interrupção em março, o futebol profissional em Portugal voltaria em junho para se finalizar a época 2019/20 da I Liga, após a montagem de um rigoroso plano sanitário. A Segunda Liga não viria a ser retomada, tal como os restantes campeonatos de futebol.

Fechados em casa, os adeptos do futebol passaram a sofrer sem os amigos ao lado. A gritar golo, sozinhos, sem aquela troca de olhar cúmplice com quem sofreu ao seu lado na bancada. Um festejo sem a alma de um estádio cheio, em ebulição, sem as palmas a compasso, os gritos em uníssono, os assobios aos adversários (e também à própria equipa quando era preciso) e as bancadas a tremer após um golo. O futebol continuou a vaguear-se pelos relvados do mundo, perdido, à procura da sua alma gémea.

Passado um ano, o SAPO Desporto foi tentar saber junto de três adeptos dos três principais clubes portugueses como viveram o futebol em um ano de pandemia. Tiago Florêncio do Benfica, Pedro Gabriel do Sporting e José Miguel Castro do FC Porto, todos com lugares anuais, contam-nos relatam-nos as tristezas de ver o seu clube longe do estádio, dos jantares com amigos adiados, das digressões de Norte a Sul do país a acompanhar as respetivas equipas.

Comes e bebes e conversa com amigos antes de a bola rolar

O ritual normal de um adepto de futebol em dia de jogo varia pouco em Portugal. Combina-se com os amigos do costume as horas para se estar perto do estádio, onde, entre bifanas, cachorros quentes e cervejas, se discute o onze, dá-se a tática, analisa-se o adversário e se recordam jogos do passado: domingos de glória ou sábados de frustração a nível interno, e noites de Champions e Liga Europa.

Para Pedro e Tiago, moradores em Lisboa, o trajeto até ao estádio é curto. Sempre de metro, sempre acompanhados da família. Se Tiago e o pai dispensam os comes e bebes antes de entrarem no estádio da Luz, Pedro e a irmã não dispensam uma boa bifana e uma cerveja gelada nas roulottes à volta de Alvalade antes de cada jogo. Eram momentos de socialização com aqueles com quem festejam e sofrem juntos no amor ao clube, momentos onde era possível "poder estar com amigos e falar presencialmente".

Sporting
Adeptos do Sporting créditos: HUGO DELGADO/LUSA

"Quando íamos às roulottes, não era uma questão de ir comer, mas de encontrar amigos que só víamos naquelas ocasiões, aproveitávamos para trocar dois dedos de conversa", diz-nos Pedro Gabriel, nostálgico, ao recordar estes momentos que fazem "muita falta".

Neste ambiente de socialização, o ritual de Tiago Florêncio não difere muito de Pedro Gabriel, amigos de longa data, separados apenas pelos clubes do coração.

"Ia sempre de metro com o meu pai, temos lugar um ao lado do outro desde o início do estádio da Luz. No caminho, vamos analisando o onze, a discutir quem devia jogar e quem não devia, às vezes apanhámos algum dos nossos amigos que costumam ficar ao pé de nós no estádio e começamos a analisar a equipa. Vou sempre um bocadinho mais cedo para ver as equipas em aquecimento e aproveitar esse momento para estar à conversa com os meus amigos de bancada, durante 20 minutos", recorda-nos Tiago.

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Este também era um dos costumes de José Miguel Castro até dezembro de 2020, altura em que perdeu o pai, seu companheiro de bancada durante vários anos. Com chuva ou sol, em jogos grandes ou da Taça de Portugal, em jogos menos atrativos, na Taça da Liga, este adepto do FC Porto tinha sempre lugar marcado no Estádio do Dragão.

Estes amantes do futebol também costumavam acompanhar as respetivas equipas nas deslocações em jogos fora de casa e até no estrangeiro. Jogos que implicam uma logística e planeamento diferentes, envolvendo almoçaradas ou jantaradas num restaurante recomendado por um dos membros do grupo, um petisco no exterior do estádio antes do jogo e as paragens nas estações de serviço nas autoestradas para um café e um esticar de pernas.

"É triste estar num estádio de 65 mil pessoas e teres cinco mil espalhados por três anéis"

Durante este ano de pandemia, Tiago Florêncio foi o único a poder ver a sua equipa. Foi na Liga Europa, no Benfica-Standard Liège, em outubro de 2020. Foi bom ver a equipa ao vivo, mas deparar-se com apenas cinco mil das 65 mil cadeiras da Luz ocupadas é desolador.

"Há duas formas de ver esse jogo com o Standard com apenas cinco mil pessoas na Luz. Por um lado, pelo momento que atravessámos, em termos de organização foi tudo bom, com medição de temperatura à entrada, um steward sempre a controlar. Foi bom voltar ao estádio, onde não ia desde março, deu para matar as saudades, ver alguns amigos da bancada que não via desde março, foi bom gritar, ver a equipa e alguns jogadores ao vivo pela primeira vez. O outro lado: é triste estar num estádio com capacidade para 65 mil pessoas e teres cinco mil espalhados por três anéis. E isso fez-nos perceber a dimensão do problema e da tristeza que isto provoca num adepto de futebol", desabafa Tiago, um dos felizardos a marcar presença no único jogo na Luz com público desde março de 2020.

Pedro e José Miguel não tiveram a mesma sorte. Para o sportinguista, não ir a Alvalade "é uma situação que custa um bocado", quando o Sporting vai bem lançado para ser campeão e quebrar um jejum de 19 anos.

"É triste, num ano em que podemos ser campeões, algo que não acontece há 19 anos, não ter ninguém no estádio para festejar o título. Será festejado, mas não será a mesma coisa. Mesmo que tenha cinco a dez mil adeptos, será sempre diferente, não haverá explosão de alegria porque estamos sempre longe uns dos outros", sublinha.

Faz imensa falta ver as bandeias, os cachecóis, ouvir os cânticos, o som dos adeptos, de viver o futebol no estádio, de aplaudir, […] de vaiar quando é preciso. Falta-me o som do futebol

A Liga Portuguesa espera ter público nos estádios a partir de 19 de abril, depois de o Governo abrir a possibilidade de "eventos exteriores com lotação reduzida" a partir dessa data. Tal como aconteceu com as experiências levadas a cabo em jogos da UEFA, é provável que numa primeira fase sejam autorizadas cinco mil pessoas nos estádios da I Liga com melhores condições de segurança (Luz, Alvalade, Dragão, D. Afonso Henriques e Municipal de Braga).

Uma abertura que José Miguel saúda porque as saudades do Dragão já apertam.

"Se houver oportunidade este ano, mesmo considerando que não seja possível o título, eu estarei lá nem que seja no último jogo, mesmo que com pouca segurança", garante. Sem o pai, deverá ser o tio a ocupar o lugar no Dragão, num regresso especial que servirá também para homenagear o seu progenitor.

"Espero manter a cadeira de lugar anual do meu pai. Vou tentar cumprir o ritual a mesma: comer, dar uma volta ao estádio antes do jogo para sentir o ambiente, sempre especial. Irei levar o casaco e a camisola que ele costumava levar", explica. Se o tio não conseguir marcar presença, a honra caberá a namorada, sportinguista de coração.

Apesar do otimismo revelado por Pedro Proença, presidente da Liga de Clubes, Pedro Gabriel é prudente. Mesmo havendo muito espaço entre os adeptos em Alvalade se for permitida a ocupação de cinco mil a dez mil lugares, a pandemia poderá cair para segundo plano se o Sporting for campeão. A emoção deverá sobrepor-se à razão, num clube que espera há 19 anos por este momento.

"Com o Sporting em primeiro e a ganhar, a malta, contente não vai ligar a pandemia: vai abraçar-se, vai festejar, vai saltar. Mas ter cinco ou dez mil pessoas no estádio, é um bocadinho triste. Mas há muita gente e incluo-me neste lote, que, se calhar, neste momento não lhes apetece muito arriscar e ir ao futebol", garante.

A experiência de Tiago Florêncio no Benfica-Standard Liége leva-lhe a ser prudente e admitir que lhe custa "um bocado a ideia de ir a um estádio para ter cinco mil pessoas".

Estádio da Luz cheio
Estádio da Luz cheio créditos: DR

"Sinto que isso não vai acrescentar grande coisa. Temos muita sede de voltar aos estádios, mas, após a experiência que vivi, isso não me fez voltar a repetir”, diz.

E se for um clássico ou dérbi, decisivo para as contas finais da liga?

“Uma coisa é uma experiência de um Benfica-Standard Liège com cinco mil na Luz, outra será um Benfica-Sporting ou um Benfica-FC Porto a um sábado ou domingo à tarde ou noite. Será um risco muito maior, as pessoas terão um comportamento diferente nestes jogos, de certeza. O contexto será muito diferente. Não me sinto com muita confiança para voltar a um estádio. Se for para ver um Benfica-Tondela, será tranquilo. Pensando nos grandes jogos, acho que será um risco antes da imunidade de grupo", confessa.

Falta o 12.º jogador, para o bem e para o mal

Os treinadores e jogadores já se tinham queixado: sem adeptos, o futebol não é a mesma coisa. Sérgio Conceição chamou-lhe "uma salada sem condimentos", mas que tem de ser comida, Bruno Lage, anterior treinador dos ‘encarnados’, explicou que jogar na Luz "sem adeptos" era "quase como faltar a alma do que é o Benfica."

São os clubes de maior dimensão aqueles que mais se ressentem dos estádios vazios, tanto em casa como fora.

José Miguel Castro recorda, com saudades, o dia em que o Estádio do Dragão empurrou o FC Porto para a vitória no prolongamento frente a Roma, na segunda-mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, disputado a 06 de março de 2019.

"Já vi muitos jogos em casa onde tinha a perceção de que quando a equipa precisava dos adeptos, potenciado pelos Super Dragões, de marcar o ritmo de jogo, o FC Porto ia para cima deles, daí a equipa jogar sempre nas segundas partes a atacar para a baliza onde estão os Super Dragões. Lembro-me do jogo com a Roma, via-se que os jogadores do FC Porto estavam cansados, mas o público puxou-os para cima deles até conseguir a vitória. Esta época com o Sporting, se tivéssemos adeptos no estádio do Dragão a puxar pelos jogadores, o jogo seria diferente [n.d.r. 0-0] , o ritmo seria elevado e interessante", garante.

Estádio do Dragão
Estádio do Dragão créditos: SAPO Desporto

A vitoriosa campanha do Sporting na I Liga, onde ainda não perdeu, teria outro sabor com os Leões nas bancadas a cantar 'O Mundo Sabe que' no início dos jogos em Alvalade, com os cachecóis ao alto e abanar.

"É um bocadinho custoso [não ir ao estádio] neste ano em que a equipa vai em primeiro. Muitas vezes lembro-me como seria, em determinados jogos, estar no estádio a viver aquilo. Lembro-me do jogo com o Benfica, dos jogos em que marcámos e ganhámos nos últimos minutos, imagino como seria a explosão de alegria se estivéssemos no estádio", recorda Pedro Gabriel.

Num ano difícil para o Benfica em termos desportivos, Tiago Florêncio sente que falta adeptos nas bancadas para exigirem mais aos jogadores.

"Com a época péssima que estamos a fazer, apetecia-me estar na bancada a gritar com eles, acho que isto acaba por interferir no jogo da equipa. Sinto falta de estar em cima da equipa, porque sentimos que não estamos a ter poder sobre o que está a acontecer com o Benfica. É disso que tenho falta, de reclamar presencialmente com o que acho que não está bem", atira.

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Habituados a terem dezenas de milhares de adeptos quando jogavam em casa e muitos milhares a seguirem-nos quando jogavam fora de portas, Benfica, FC Porto e Sporting (e todos os outros clubes, claro) tiveram de aprender a viver e a jogar com as bancadas vazias. As equipas ditas mais pequenas passaram a não temer tanto os ambientes na Luz, Dragão e Alvalade, como nos explicou Luís Parente, técnico superior em psicologia do desporto.
"Para uma equipa de menor dimensão que vá a um Estádio da Luz, ou a um Dragão, aquele contexto que poderia ser ameaçador e gerar ansiedade e perceção de inferioridade em relação ao ambiente pode agora transformar-se, sem adeptos, numa perspetiva de oportunidade, levando a equipa sentir-se mais confortável para aplicar o seu plano de jogo e a sua identidade de forma menos condicionada".

Vibrar pela TV não é a mesma coisa

"Consigo ver um jogo na televisão, mas já não consigo estar cem por cento concentrado. O som ambiente por trás não nos prende tanto. Faz imensa falta ver as bandeias, os cachecóis, ouvir os cânticos, o som dos adeptos, de viver o futebol no estádio, de aplaudir, […] de vaiar quando é preciso. Falta-me o som do futebol". Esta é a perceção de José Miguel Castro, mas também de muitos adeptos de futebol por este mundo fora, impedidos de ver a sua equipa ao vivo.

O gritar golo é diferente, parece que estou a ver um jogo amigável em julho

Quando Coates fez, aos 93 minutos, o golo da vitória do Sporting diante do Santa Clara na 22.ª jornada da I Liga, Pedro Gabriel não se conteve em casa. Mas faltava algo.

"Mandei um berro no último golo do Coates. Consigo entusiasmar-me e enervar-me na mesma. Acho que às vezes enervo-me mais em casa. Mas faz-me impressão não sentir o barulho do estádio", confessa. Este também é o sentimento de Tiago.

"Sofro em casa, mas não tem nada a ver com a intensidade do estádio. O gritar golo é diferente, parece que estou a ver um jogo amigável em julho. Não sai da mesma maneira, grito golo, mas não tenho o entusiasmo", explica-nos Tiago, garantindo que até perdeu o entusiasmo de ver os jogos pela televisão.

"Sinto falta do barulho, não consigo ver mais de 20 minutos. Um Manchester City-Manchester United com aquele barulho virtual ou silêncio, … está a ser mais forte que eu".

Tanto Tiago como Pedro encontraram no futebol virtual uma escapatória. Amantes do famoso videojogo 'Football Manager', estes dois amigos aproveitaram o confinamento e a impossibilidade de ir ao futebol para mostrarem os seus dotes como treinadores de bancada. Tiago confessa que esta foi uma forma de se "sentir mais perto do futebol".

Os encontros com os amigos da bola, de 15 em 15 dias à volta do estádio para se colocar a conversa em dia naqueles minutos antes dos jogos, passou a ser ainda mais virtual. Agora as táticas, contratações, atuações e críticas às equipas são feitas de forma virtual, nos grupos do WhatsApp.

Até lá, vão-se contando os dias até que tudo volte a normalidade. Ou algo perto disso.

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