O professor da Universidade Livre de Bruxelas (Bélgica), Jean-Noël Missa, defendeu hoje um debate em torno da atual política da Agência Mundial Antidoping (WADA), realçando que a ineficácia dos controlos antidoping levanta sérios problemas éticos e de justiça desportiva.

“Um número muito grande de atletas dopados consegue escapar pela rede antidoping e, como resultado, os dois principais objetivos da política da WADA - permitir que os atletas compitam em pé de igualdade e erradicar o doping - não são alcançados. O problema é estrutural”, disse à Lusa.

O catedrático vai participar na 12.ª edição do Simpósio da Fundação BIAL “Aquém e Além do Cérebro”, que decorre entre quarta-feira e sábado, no Porto, para abordar a potencialização cognitiva no desporto de competição e discutir a legitimidade do uso de técnicas de melhoria do desempenho desportivo.

Admitindo que o desporto de competição livre de doping é preferível ao desporto que tolera certas formas de doping, sujeitas a supervisão médica, Jean-Noël Missa considerou que a “solidez da política” atualmente adotada pela WADA e pelas autoridades desportivas internacionais é questionável.

Quase 15 anos depois de a WADA ter implementado a política antidoping “é hora” de fazer um balanço e determinar se a atual política de proibição é a melhor abordagem para reduzir os efeitos prejudiciais do doping, referiu.

“Casos recentes mostram que o doping é endémico em algumas disciplinas desportivas, tal como o ciclismo. A investigação da USADA [Agência Antidoping dos EUA] na equipe da US Postal de Lance Armstrong mostrou que, no início dos anos 2000, a maioria dos ciclistas que competiam no Tour de France usaram substâncias proibidas”, frisou.

O investigador entendeu que é importante olhar para o doping no desporto do ponto de vista pragmático, baseado numa ética de consequências.

“Do ponto de vista ético sentimos que há dois fatores-chave, um que é minimizar os riscos para a saúde dos atletas e, outro, que é garantir a equidade no desporto”, salientou.

Já quanto aos riscos para a saúde, Jean-Noël Missa considerou que “não é de modo algum certo” que a atual política da WADA seja a melhor, uma vez que, na prática, ela permite o desenvolvimento de doping clandestino em larga escala.

Relativamente à justiça no desporto, o professor vincou que a política atual está longe de ser satisfatória, dado que a sua ineficácia coloca os atletas não dopados em desvantagem em relação àqueles que lidam com segredo.

“Isso leva a uma situação altamente imoral na qual o vencedor é muitas vezes o melhor trapaceiro ou, por outras palavras, o competidor mais esperto, inteligente e sortudo”, notou.

Para o professor, independentemente das questões de saúde e justiça, a política proibicionista da WADA produz uma série de efeitos adversos muito preocupantes, sendo essencial discutir o problema de doping sem tabus ou preconceitos.

“Este é um problema complexo para o qual não existe uma solução simples. Um amplo debate social e livre de preconceitos deve ser lançado sobre as consequências da política antidopagem e a legitimidade do uso de técnicas de melhoria do desempenho desportivo”, concluiu.

A 12.ª edição do Simpósio “Aquém e Além do Cérebro” vai dedicar-se à inteligência artificial, interação homem-máquina ou as potencialidades do doping e da meditação.

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