Uma investigação que acompanhou durante um ano atletas de várias modalidades no pós-carreira com um programa de capacitação para um estilo de vida saudável conseguiu reduzir vários fatores de risco de doenças cardiovasculares e melhorar a saúde mental.

“Após o inevitável fim da carreira desportiva, os atletas enfrentam desafios para lidar com as suas novas rotinas, o que pode comprometer a sua saúde e bem-estar”, explicou à agência Lusa a coordenadora da investigação, Analiza Silva, apontando a ausência de investigação que analise a eficiência e o impacto das melhores estratégias de intervenção para preservar e melhorar a saúde física e mental dos atletas na fase pós-carreira.

A investigadora acrescentou que, quando o atleta se retira da competição, “é natural que reduza o seu dispêndio energético, nem sempre acompanhado por uma diminuição das calorias ingeridas”.

Esta alteração gera “um balanço energético positivo (ingestão superior ao gasto) que conduz ao ganho de peso, favorecendo o risco de desenvolver obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e de comprometer a saúde mental, condições observadas em atletas de alto rendimento, na fase pós-carreira”, explica.

O programa de intervenção ‘Champ4life’ foi conduzido no Laboratório de Exercício e Saúde da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa e pretendeu capacitar atletas na fase pós-carreira para a adoção de comportamentos saudáveis no estilo de vida e analisar os efeitos dessa intervenção na massa gorda total e abdominal e em outros marcadores da saúde cardiovascular e metabólica e ainda na saúde mental.

Para esta investigação, cujos resultados foram publicados na revista mais conceituada das Ciências do Desporto e Medicina Desportiva, o Bristish Journal of Sports Medicine, foram recrutados 94 atletas na fase pós-carreira, divididos aleatoriamente em dois grupos, intervenção e controlo.

O grupo de intervenção recebeu uma consulta de aconselhamento nutricional e participou em 12 sessões educacionais sobre tópicos que incluíram a dieta e os comportamentos alimentares, a atividade física, o comportamento sedentário e a gestão do peso. O grupo de controlo manteve o seu estilo de vida habitual.

Após 12 meses, o grupo de intervenção perdeu em média 5% do seu peso inicial, 11% da massa gorda total e 13% de massa gorda abdominal, face ao grupo de controlo, conseguindo preservar a massa muscular.

Em relação aos parâmetros da saúde cardiovascular e metabólica, os atletas do grupo de intervenção reduziram a insulina no sangue em 18%, o marcador HOMA (indicador da resistência à insulina) em 15%, o colesterol total em 5% e o das LDL (designado como “mau” colesterol”) em 4% e a pressão arterial diastólica caiu 7%.

Na saúde mental, o grupo de intervenção melhorou diversos parâmetros da qualidade de vida, nomeadamente a capacidade funcional em 16%, a saúde geral em 38% e a vitalidade em 53%, relativamente aos atletas na fase pós-carreira do grupo de controlo.

“Estes resultados reforçam a necessidade de implementar intervenções no estilo de vida direcionadas a atletas na fase pós-carreira, incluindo aqueles que estão na fase de transição para o final da sua carreira desportiva”, considerou a coordenadora da investigação, defendendo que os conhecimentos, competências e recursos disponibilizados aos atletas através do ‘Champ4Life’ “permitirão uma melhor gestão do estilo de vida nesta fase sensível, e muitas vezes abrupta, de cessação da carreira desportiva”.

Analiza Silva sublinhou ainda: “agora que já existe evidência de que o programa de intervenção Champ4Life melhorou a saúde física e mental de atletas na fase pós-carreira, é necessário continuar a envolver os vários intervenientes do setor desportivo, de forma a reunir os recursos necessários para a sua implementação a nível nacional”.

A investigadora antecipou que “este é apenas o primeiro passo de um programa que será crucial no futuro para a gestão saudável do estilo de vida de quem se encontra na fase pós-carreira, ou prepara a sua transição”.

O projeto, que incluiu atletas na fase pós-carreira de várias modalidades, alguns deles olímpicos, mas também jogadores profissionais de futebol, foi financiado pelo Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ) e pelo Comité Olímpico Internacional, na estreita relação com o Comité Olímpico de Portugal.

Conta ainda com o apoio, na divulgação, de diversas instituições como o Sindicato Português de Jogadores de Futebol, Associação dos Atletas Olímpicos de Portugal, Comissão de Atletas Olímpicos, Federação Portuguesa de Futebol, Federação Portuguesa de Natação e Federação Portuguesa de Judo.

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