O judoca Rodrigo Lopes viu o sonho de participar nuns Jogos Olímpicos ‘adiado’ no Brasil, quando partiu o pescoço, mas viajou para Portugal e fez de tudo, de servir às mesas a outros ‘biscates’, para relançar a carreira.

Nascido no Rio de Janeiro há 23 anos, foi uma esperança olímpica pelo Brasil até uma lesão grave lhe ter ameaçado, até, a própria vida, mas voltou aos trabalhos e, já naturalizado português, acalenta a intenção portuguesa de uma classificação coletiva para Tóquio2020.

Rodrigo tinha sete anos quando começou a praticar judo, depois de uma palestra na escola em que estudava lhe ter despertado o interesse, na zona norte do Rio de Janeiro, e foi através de um projeto social que começou a competir e “a sobressair bastante”, tendo subido de qualidade e passado por vários clubes até chegar à seleção brasileira, aos 15 anos.

“Decidi que era o que queria da minha vida. [Pela seleção] Competi na Europa e noutras provas, fui chamado para outro clube, fui para outro estado, a umas quatro horas do Rio, quando tinha 17 anos”, conta.

A alcançar os melhores resultados até então, foi chamado “para a ‘seletiva’ olímpica para os Jogos do Rio2016”, uma oportunidade de chegar ao maior palco desportivo mundial e logo a ‘jogar em casa’.

Mas foi aí que sofreu aquele que descreve como o pior momento da vida.

“Na última competição do ano [2015], bati de cabeça e parti o pescoço. Foi um dos momentos mais difíceis da minha carreira. Os médicos disseram-me que nunca mais ia poder praticar judo, nem sabiam dizer como é que eu estava vivo e sem sequelas, porque nunca tinham visto nada assim”, recorda.

A lesão “mexeu muito” com o jovem atleta, porque não tinha “qualquer outro objetivo desde criança para lá do judo”, e esteve cerca de um ano a “recuperar e a fazer exames”, até que o médico disse “que podia voltar, mas não era a favor, não se responsabilizava”.

Escolheu regressar aos treinos e à competição, mas encontrou no meio brasileiro algum “receio e preocupação”, por se saber da lesão, e percebeu que ia ficar “afastado”.

“Foi aí que apareceu a oportunidade de começar a representar Portugal. Vim cá competir pelo Benfica o ano passado, gostaram do meu rendimento, eu falei do meu desejo de cá estar e representar Portugal nuns Jogos Olímpicos”, revela.

Continua a representar o clube até hoje, desde março de 2019 como atleta português, passando a viver em Lisboa. “De há um ano para cá, a minha vida mudou muito”, desabafa.

Até então, e fora do meio do judo, Lopes teria passado despercebido não fosse um resultado vistoso precisamente no país de origem, uma vez que foi quinto em -60 kg no Grande Prémio de Brasília.

Com esse resultado, passou a integrar o projeto olímpico do Comité Olímpico de Portugal (COP). “Agora tenho mais oportunidades de conquistar pontos, até porque estou bem próximo do apuramento”, afirma.

Esta ambição vai continuar na forma de treinos até ao final do ano, voltando à ação em Israel, em janeiro, num ano de 2020 “muito intenso” em que pode ajudar Portugal com uma qualificação dupla.

Por um lado, mantém “o sonho individual” aceso, e por outro, supre uma lacuna no seu peso no que toca ao apuramento coletivo, em que a equipa lusa precisava de um judoca extra nos pesos -60 kg, o de Rodrigo, -66 kg ou -73 kg.

Já em Portugal, e naturalizado português, sabia que precisava de apoios financeiros para poder viajar e somar pontos na qualificação olímpica, o que acabou a fazer, a custo, com esforço próprio e apoio de muitas pessoas, entre elas os pais.

“Ou esperava pelo processo normal de integrar o projeto olímpico para 2024, desistindo de Tóquio, ou investia em mim, para me aproximar do sonho. Foi muito difícil, tive a ajuda de muitas pessoas, mas valeu a pena”, lembra.

Entre esse esforço estiveram “muitos trabalhos” que conseguiu “depois de estar num grupo no WhatsApp”, uma aplicação de mensagens instantâneas.

Trabalhou como ‘freelancer’ em vários ‘biscates’, de trabalhos esporádicos em supermercados à entrega de panfletos na rua.

“Um pai de um menino no Benfica tem um restaurante, e também me arranjou um trabalho para os fins de semana. Fui-me ‘virando’. (...) O que aparecia e não interferisse com os treinos, aceitava e ia”, revela o também professor de judo para crianças.

Para depois de uma carreira que espera “bem sucedida”, o atleta também já tem planos – “ajudar as pessoas” do bairro de onde é oriundo, Jardim América, com um “projeto social para que outras crianças possam ter oportunidades” como as que Rodrigo Lopes teve, como vir a Portugal e conhecer “outras pessoas e culturas” através do desporto.

“Quero muito abrir um projeto social onde eu morava, ou até noutro local, para dar às crianças outra realidade de vida”, afiança.

Se integrar o projeto olímpico português lhe dá outras condições, por lhe permitir viajar sem ser a expensas próprias para as competições, Rodrigo Lopes não ‘abrandou’ e continua a dar aulas de judo a crianças e com uma “visão bastante otimista das coisas” que o tem guiado até aqui.

“Nada acontece por acaso, tudo tem os seus motivos. A minha lesão foi o momento mais difícil da minha vida, mas se calhar sem ela não estaria aqui hoje. Fez-me vir para cá, e sinto como se pertencesse aqui. No clube como na seleção, parece que sempre fiz parte, mas não sabia”, reflete.

Aos 23 anos, é já uma vida atribulada que o trouxe até Portugal e o pode levar ao Japão no próximo ano, no que seria o culminar de anos de esforço e uma sensação que tem dificuldade em descrever.

“Para mim seria... eu nem sei dizer, na verdade, porque é uma coisa que eu tenho bem clara para mim desde criança. Seria a realização do objetivo maior da minha vida inteira. Mas, mesmo que não seja agora, há 2024 e 2028, outros ciclos. E eu vou continuar na luta para sempre”, remata.

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