São muitos os estudantes que juntam a faculdade à prática desportiva, não só nos tempos livres como numa vertente mais profissional, com vários a conciliarem a alta competição com os estudos e que passaram, inclusive, a ter acesso ao estatuto do trabalhador atleta este ano letivo, aprovado pelo governo em janeiro de 2019.

O SAPO Desporto foi falar com um desses jovens universitários: Henrique Moreira, 18 anos, é aluno da licenciatura em Gestão no ISCTE em Lisboa.

Além desta vertente, que o coloca em igualdade com milhares de estudantes pelo país fora, há algo que o destaca: este jovem ribatejano junta aos estudos o duplo minitrampolim, que já lhe ‘ofereceu’ várias medalhas para o seu currículo, a mais importante no passado mês de dezembro, em Tóquio, onde se sagrou vice-campeão de duplo minitrampolim nos campeonatos do mundo por grupos de idades, no escalão 17-21.

Natural da Chamusca, Henrique é atleta do Clube de Trampolins de Salvaterra (CTS), em Salvaterra de Magos desde 2015, onde chegou depois de passagens anteriores por outras equipas da região ribatejana.

Rumámos até ao ISCTE para nos encontrarmos com o ginasta, que tinha acabado de sair de uma das frequências tradicionais nesta altura do ano académico e tentámos perceber, afinal de contas, como surge o trampolim na sua vida. Ficámos a saber que não é novidade na família de Henrique.

 “A minha mãe praticou trampolins durante muitos anos. Quando surgiu a oportunidade [de experimentar o trampolim], ela treinava um clube e deixou-me experimentar saltar”, conta o atleta.

Os estudos: as prioridades e o desvio às 'bolas de neve'

 Com a chegada ao ensino superior, no início de setembro de 2019, aconteceram várias alterações na vida deste jovem atleta, que com o aumento da exigência viu-se ‘obrigado’ a definir bem as suas prioridades: do secundário, na Chamusca, Henrique mudou-se para o ISCTE em Lisboa. 

Apesar da distância para o pavilhão do CTS e para casa ter aumentado, bem como a dificuldade dos estudos, o jovem atleta considera que a organização se tem mantido.

“Mudei para o [Clube Trampolins de] Salvaterra no 9.º ano de escolaridade e aí as coisas faziam-se bem, só que conforme a exigência aumenta, uma pessoa tem de se organizar melhor e esforçar-se mais. No secundário ia às aulas de manhã, estudava à tarde e à noite treinava, sempre este ciclo. Agora na universidade estando em casa, na Chamusca, vou e venho todos os dias e tenho conseguido organizar-me da mesma maneira que fazia no secundário”, explica-nos, revelando como combate o cansaço acumulado ao fim de umas semanas desta rotina.

“Torna-se muito cansativo e em certas alturas preciso de, por exemplo, um fim de semana em que não faça mesmo nada para poder descansar e recuperar”, acrescenta.

O dia-a-dia deste ‘caloiro’ de Gestão não tem tanta margem de manobra como a dos restantes colegas: um dia de treino começa às 5h40 e acaba já depois das 23 horas.

“Num dia em que entre [na universidade] às oito da manhã, acordo às 5h40 para apanhar o comboio das 6h30. Venho [para Lisboa], tenho as aulas, fico à tarde a estudar e apanho o autocarro das 17 horas para ir treinar a Salvaterra das 19h às 21h30. Chego a casa às 22h30, despachar-me e não me despachar, pelas 23h e pouco estou na cama e é sempre assim”, diz-nos.

A entrevista foi realizada no ISCTE, onde Henrique estuda
créditos: SAPO Desporto

Com uma agenda tão preenchida, entre treinos, estudos e aulas, Henrique vê-se obrigado a fazer escolhas e a deixar as saídas, habituais nesta fase, para segundo plano, um ‘sacrifício’ que não é doloroso para o atleta, que tem as suas prioridades bem definidas os estudos, os trampolins e depois tudo o resto (por esta ordem).

“Quando fazes um desporto de alta competição há coisas que tu tens de sacrificar. Por exemplo, não podes ir às mesmas festas que todos os teus colegas, não podes fazer as mesmas opções que eles, não podes acabar as aulas e ir para as compras. Não queres deixar acumular a matéria, portanto tens que estudar porque tens treino depois, ou seja, isto implica um nível de organização mais elevado”, explica.

Apesar de não ter a mesma disponibilidade que os colegas, este jovem ginasta considera que esta priorização a que é obrigado pela prática desportiva lhe traz vantagens em relação a outros alunos,, não só no que toca à organização necessária e que incute em si mesmo, mas também ao nível do bem-estar físico, com a prática desportiva. 

“Tenho de ter muito bem definido o que vou fazer na minha cabeça (…) em relação aos meus colegas, noto que alguns são um pouco desorganizados, por exemplo, ‘se não faço hoje faço amanhã, se não faço amanhã faço no fim de semana’ e vão deixando acumular. Eu não posso porque se não fizer exatamente no dia, no dia a seguir já tenho o dia anterior e o próprio dia para fazer, começa-se a tornar numa ‘bola de neve’ e torna-se muito complicado. Ao mesmo tempo, estar a fazer exercício físico também faz bem”.

Para ‘sobreviver’ a todas estas mudanças normais numa fase que normalmente costuma ser de grande rebuliço, Henrique conta com uma base forte, composta pela família ‘de casa’ e pela família dos trampolins.

“Eu sinto sempre que a minha família me está a apoiar, tal como os meus treinadores, sinto que é muito mais fácil ir conseguindo ‘sobreviver’ a esta mudança”, afirmou.

A prata que Tóquio trouxe

Apesar da idade jovem, este ginasta já conta com muitos resultados dignos de nota no seu currículo: medalhas nacionais, dois bronzes no Campeonato da Europa, em Baku, no ano de 2018 (uma individual, uma por equipas) e o ponto alto: a prata, no Campeonato Mundial por Grupos de Idades, no escalão 17-21 anos, no passado mês de dezembro, em Tóquio, no Japão.

Veja as rotinas de Henrique Moreira no Europeu em Baku

Esta última ilumina o sorriso de Henrique, quando o questionamos sobre a aventura em terra nipónicas, em 2019.

“Tóquio foi uma experiência muito engraçada, muito fixe, especialmente pela parte de ter sido vice-campeão do mundo, mas também pela perspetiva que me deu de outro país. Já tinha viajado por alguns países, mas nunca tão longe. Em Tóquio as pessoas pensam e organizam-se de maneira diferente. É uma experiência única”.

Mas antes da viagem até ao Japão foi preciso angariar os apoios para financiar esta aventura, que acabou por trazer a prata para Portugal. Todos os ginastas contaram com apoios das respetivas câmaras municipais, além de outras entidades e Henrique juntou ainda os frutos do seu verão, em que trabalhou para juntar dinheiro para a viagem.

“Fui trabalhar no verão para pagar a viagem a Tóquio, tive de recorrer a várias organizações, à Câmara [Municipal], à Associação de Ginástica de Santarém e a outras entidades para ajudar a financiar a minha ida a Tóquio. Como eu, pelo menos em Salvaterra de Magos, todos os atletas foram ajudados pelas Câmaras Municipais”, explica.

Olhamos agora para o dia da prata, a 5 de dezembro de 2019. Um dia longo para Henrique com as qualificações para a final a iniciarem-se às 10h45 (hora local) e a final a ter início apenas pelas 18h05 (hora local).

 “As preliminares foram logo de manhã e o ambiente estava mesmo de ‘rebentar’ com o pavilhão. As pessoas estavam a apoiar muito e sentia-se aquela energia e vibração dentro do pavilhão. Com as preliminares de manhã e as finais no final do dia, o dia foi pouco cansativo porque tínhamos de estar no pavilhão e por exemplo, a mim começa-me a doer a cabeça e sinto-me muito cansado”, conta.

Henrique terminou a qualificação na terceira posição, com 70.800 pontos, menos 0.100 que o russo Egor Glushenko (2.º) e menos 0.200 que o australiano Lleyton Pagett (1.º) e com isso ganhou acesso à final. O cansaço? Esse desapareceu.

 “Quando se entra na final parece que tudo desaparece e sou só eu e o aparelho. Volta outra vez a energia vinda do público”, explica.

Energia e concentração que levaram Henrique a alcançar a melhor pontuação na primeira rotina entre os oito finalistas, onde alcançou uma pontuação de 35.400.  Na segunda rotina somou 35.300 pontos, a quarta melhor pontuação e alcançou a medalha de prata, numa prova completa sem sofrer qualquer penalização, com uma pontuação de 70.700.

Um passo em frente na carreira desde ribatejano, que tem como ídolo o russo Mikhail Zalomin, cinco vezes campeão mundial e medalha de ouro nos últimos World Games: “um ginasta único, não há igual (…) acho que vai ser difícil alguém chegar a ser melhor do que ele, porque ele é de facto mesmo quase perfeito a saltar.”

O futuro e os conselhos

Sobre o futuro, Henrique tem já os planos bem pensados e esta conjugação entre o desporto e o estudo/trabalho é para manter.

“Os trampolins são para continuar no futuro. A licenciatura é um plano A, por isso é que é a prioridade número, mas planeio continuar com os trampolins por muito mais anos”, aponta.

Mesmo com a ausência do duplo minitrampolim do programa olímpico, o jovem ginasta mantém o objetivo no ponto máximo, com o ‘alvo’ apontado aos ‘World Games’, os ‘jogos olímpicos das modalidades não olímpicas’ (os próximos estão marcados para 2021, em Birmingham, no estado do Alabama, Estados Unidos da América).

Para aqueles que possam vir a dividir os estudos com a prática desportiva de alta competição, Henrique Moreira deixa o conselho: as prioridades e a organização são pontos fulcrais esta vida de estudante-atleta.

 “Definam as prioridades, organizem-se e façam o melhor que podem, sendo que eu tenho muito a perspetiva que se é para fazer, é para fazer a 100% e é para fazer bem. E acho que para quem quer fazer este tipo de vida, se for para fazer é para fazer bem, convém organizar-se para não descompensar nenhuma das partes”, conclui.

 

Agradecimento especial ao Clube de Trampolins de Salvaterra e ao ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa.

*Artigo corrigido às 14:17

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