Quando Kennedy Simon recebeu o testemunho para terminar o percurso dos Estados Unidos da América na estafeta mista de 4x400 metros nos Mundiais de Eugene, o destino estava traçado: aos 36 anos, Allyson Felix iria despedir-se do atletismo ao mais alto nível com mais uma medalha, no santuário no atletismo norte-americano, em Eugene, cidade 175 km a sul de Portland.

O ouro estava ali a mão de semear. Allyson Felix, no segundo percurso, não comprometeu, mas no quarto, Kennedy Simon, deitou tudo a perder. Com um 'estouro monumental', desceu de primeira para terceira na reta final, assegurando apenas o bronze, atrás da República Dominicana (3.09,82 minutos) e Países Baixos.

Para muitos, não seria a despedida merecida para Allyson Felix, com o ouro ali tão perto, mas para a velocista norte-americana, importante era despedir com uma medalha. Um bronze com sabor a ouro no 'Track Town, USA', o palco dos campeonatos nacionais da maior potência mundial do atletismo.

"Em criança chamavam-me 'pernas de galinha', e nunca nos meus sonhos imaginei ter uma carreira como esta. Estou grata ao desporto, que mudou a minha vida. Dei tudo o que tenho a correr e, pela primeira vez, não tenho a certeza de ter mais para dar […] Está época, não importam as marcas, mas sim a alegria. Se me virem na pista será para demonstrar toda a minha alegria e apreço por todos", escreveu, há dias, Félix na sua conta na rede social Instagram.

Uma despedida merecida

Eugene marcava a despedida da mais galardoada atleta a nível mundial, de uma carreira iniciada em 2005, em Helsínquia, logo com o título mundial de 200 metros. A 'campeã das campeãs' deixa o atletismo de alta competição com 19 medalhas (13 de ouro, três de prata e três de bronze) no palmarés, entre 200 e 400 metros e estafetas.

Em criança chamavam-me 'pernas de galinha', e nunca nos meus sonhos imaginei ter uma carreira como esta

Para despedir-se em grande, Félix precisou da ajuda da federação norte-americana de atletismo: a velocista falhou os 'trials' nos 400 metros para estes Mundiais, que decorrem até ao dia 24 em Eugene, no Oregon, mas acabou por ser selecionada para poder despedir-se em pista, da melhor forma possível, de uma carreira que inclui sete medalhas de ouro em Jogos Olímpicos e 12 títulos de campeã mundial.

Nos Jogos Tóquio2020, Allyson Felix subiu duas vezes ao pódio, conquistando as suas 10.ª e 11.ª medalhas olímpicas, que lhe permitiram destronas Carl Lewis e tornar-se na norte-americana mais medalhada da história olímpica.

Allyson Felix em ação nos Mundiais de atletismo de 2022
Allyson Felix em ação nos Mundiais de atletismo de 2022 créditos: STEPH CHAMBERS / GETTY IMAGES VIA AFP

O fim de uma carreira ímpar na história do desporto estava marcada para 2021, mas a norte-americana acabou por prolongar a competição por mais uma época, para se despedir das pistas em Eugene, num dos momentos altos dos campeonatos mundiais de atletismo.

Logo no início da carreira, Félix mostrou ao que vinha: no seu primeiro mundial em 2005, em Helsínquia, arrebatou o título nos 200 metros. Voltou a ser campeã em 2007 e 2009, após o que evoluiu para os 400 metros, que ganhou em Pequim2015. Este quadro vitorioso completa-se com sucessos nas estafetas dos Estados Unidos de 4x100, 4x400 e 4x400 mista.

Uma 'guerra' com a Nike desviou Allyson para as causas sociais

No regresso às pistas para a despedida no 'Track Town, USA', Félix não se preparou para as medalhas. Há muito que a sua luta é outra. Após o fim da sua ligação com a Nike em 2018, em protesto pela forma como a marca desportiva tratava as atletas grávidas, a velocista enveredou-se pelas causas sociais, depois de quase morrer juntamente com a filha, quando estava grávida.

"Esta temporada corro pelas mulheres. Corro por um futuro melhor para a minha filha. Corro por ti", disse.

A sua filha Camryn nasceu em 2018, depois de um parto complicado que ia roubando a vida aos dois. Os médicos tiveram de recorrer a uma cesariana de emergência às 32 semanas de gestação devido a uma grave pré-eclâmpsia (complicação muito grave da gravidez que se caracteriza pelo aparecimento de convulsões, é precedida pelo aumento da albuminúria, hipertensão arterial, edemas, oligúria, vertigens, zumbidos nos ouvidos, cefaleias persistentes, fadiga, sonolência e vómitos. A ocorrência desta doença pode provocar complicações mortais para o feto e para a mãe).

Allyson Félix permaneceu, durante semanas, na unidade de terapia intensiva neonatal ao lado da filha. Ali, a sua vida iria mudar.

Enquanto estava grávida, Félix tentou renovar o seu contrato a Nike, a marca que sempre a patrocinara. A gigante norte-americana de equipamento desportivo entendeu que devia reduzir o valor do contrato em 70% devido a gravidez da velocista, apesar dos muitos títulos ganhos.

Allyson Félix não gostou e, numa carta aberta publicada no 'The New York Times', em 2019, abriu o coração.

"Se é isso que eles pensam que eu valho agora, aceito. O que eu não estou disposta a aceitar é o 'status quo' em torno da maternidade. Pedi à Nike que garantisse contratualmente que eu não seria punida se não tivesse o meu melhor desempenho nos meses a seguir ao parto. Queria estabelecer um novo padrão. Se eu, uma das atletas da Nike mais comercializadas, não conseguisse assegurar estas proteções, quem conseguiria?", questionava.

Allyson Félix em ação nos 200 metros, aos 17 anos
Allyson Félix em ação nos 200 metros, aos 17 anos créditos: MIKE FIALA

Mesmo sem querer, Félix tinha começado um movimento. Depois da sua carta, outras atletas também tomaram a mesma atitude e expuseram os seus casos. O Congresso dos Estados Unidos da América ordenou a abertura de um inquérito, a Nike foi obrigada mudar a sua política em relação a maternidade. As atletas passaram a ter o seu salário por inteiro e os bónus nos 18 meses em torno da gravidez. Outras empresas acabaram por seguir o exemplo e adotar novas medidas de proteção às mulheres grávidas.

Esta temporada corro pelas mulheres. Corro por um futuro melhor para a minha filha. Corro por ti

Um ano depois, em 2019, estava a discursar no Congresso norte-americano. As suas vitórias já não vinham apenas das suas 'pernas de galinha' em pista.

"Depois de ter vivido os dois dias mais aterradores da minha vida, aprendi que a minha história não era assim tão invulgar. Havia outras como eu, tal como eu. Negras como eu, saudáveis como eu e a fazer o seu melhor, tal como eu. E enfrentaram a morte como eu. Precisamos de dar mais apoio às mulheres de cor durante a sua gravidez. Há um nível de preconceito racial no nosso sistema de saúde que é preocupante e será difícil de combater, mas isso não significa que não o devemos fazer", disse, no seu discurso, perante os congressistas.

Allyson deixou a Nike, passou a ser patrocinada pela Athleta e a correr com ténis da Saysh, a marca que fundou. Passou a enviar um par de ténis a clientes que engravidaram - devido à mudança de tamanho dos seus pés - sem qualquer custo associado. Com o patrocínio da Athleta, criou a '&Mother', uma uma associação sem fins lucrativos para ajudar as atletas, treinadoras e staff a proporcionar aos seus filhos os cuidados necessários.

Juntamente com a Women's Sports Foundation, a velocista e a Athleta ajudam atletas do sexo feminino com a atribuição de 10 mil dólares para as despesas necessárias nos cuidados infantis, de forma a que não tenham de deixar de treinar e competir.

Durante a sua carreira, teve de medir forças com gigantes do atletismo como Merlene Ottey, Christine Arron, Carmelita Jeter e Shelly-Ann Fraser-Pryce.

Recebeu, em três ocasiões -2005, 2007 e 2010 - , o 'Jesse Owens Award' de Atleta do Ano, o maior prémio do atletismo norte-americano. É a maior vencedora deste prémio ao lado de Marion Jones.

Deixa a alta competição com o nome gravado nos anais da história do atletismo.

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