O sonho era acabar imbatível e imparável, mas o fim da carreira de Usain Bolt foi dramático. Depois de ter falhado o ouro nos 100 metros, a única prova individual que fez nos Mundiais de Londres, o velocista de 30 anos não conseguiu despedir-se das pistas com queria, este sábado, 12 de agosto.

Escalado para correr o último quarto do percurso nos 4x100 metros, Bolt teve uma lesão muscular e caiu em pista, cheio de dores, vendo fugir a sua última tentativa de despedir-se das pistas com ouro ao peito. Ainda tentou terminar, mas as dores levaram a melhor, deixando o jamaicano no chão, a chorar de dor. Mas este é apenas um detalhe na carreira do melhor de sempre do atletismo.

Apesar de só ter conquistado um bronze nos 100 metros e de não ter terminado sequer nos 4x100 metros, o jamaicano gravou o seu nome com letras de ouro na galeria das lendas do desporto e deixa as pistas como o homem mais rápido do Mundo, com recordes difíceis de serem batidos. Bolt queria sair invencível e imbatível, mas teve de se contentar com o bronze nos 100 metros, depois de batido finalmente por Justin Gatlin. A forma como se despediu pode até levar o jamaicano a repensar a sua retirada e tentar voltar para, agora sim, sair pela porta grande. As muitas lesões que enfrentou ao longo do ano não lhe permitiram chegar a Londres na sua melhor forma. Gatlin ganhou com apenas 9.92, mais três centésimos que Bolt e mais dois que o jovem Coleman.

Usain Bolt cai na final dos 4x100 metros nos Mundiais de atletismo
Usain Bolt cai na final dos 4x100 metros nos Mundiais de atletismo créditos: AFP

Os números que fazem de Bolt o Melhor de Sempre

Aos 30 anos, ´Lightning Bolt` como é conhecido, (ou ´Relâmpago`, na tradução para português), deixou de encontrar motivação para continuar a fazer o que sabe melhor: ser mais rápido que tudo e todos e chegar a meta com aquele sorriso de dever cumprido.

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“Todos os que me conhecem sabem que a cada nova época procuro novas motivações, penso no meu legado e em como quero ser recordado. Levei o atletismo a um novo nível de diversão e entretenimento, mas sinto que é hora de me retirar, porque já cumpri os meus objetivos", disse o único tricampeão olímpico dos 100 e 200 metros.

Bolt deixa as pistas com 11 títulos mundiais e oito medalhas de ouro em Jogos Olímpicos, sendo que 12 destes títulos foram arrecadados a nível individual. Sai também com o recorde do mundo dos 100 metros, fixado nuns incríveis 9.58s e um recorde nos 200 metros, de 19.19s. Além disso, ajudou a Jamaica a pulverizar o melhor tempo de sempre nos 4x100 metros masculinos, com a marca de 36.84s.

Do críquete às pistas e os primeiros recordes. Aos 15 anos já era um fenómeno

A lenda Usain Bolt começou a ser formada ainda na escola secundária de Trelawny, em Sherwood Content, Jamaica, quando o seu treinador de críquete, a outra paixão de Bolt, notou que o rapaz de 12 anos era muito rápido. Entrou para o atletismo e passou a ser treinado pelo ex-velocista olímpico jamaicano, Pablo McNeil. Aos 15 anos, durante uns campeonatos entre escolas, venceu a prova dos 200 metros com o tempo de 22.04s. Um ano depois baixou para os 21.81s.

Mas foi no Campeonato Mundial júnior de atletismo, realizado em Kingston, Jamaica, que começou a mostrar potencial a nível internacional. Ainda com 15 anos e já com 1,96 metros, venceu nos 200 metros com 20.61s e tornou-se no mais jovem de sempre a vencer uma medalha de ouro num campeonato júnior de atletismo. Um ano antes tinha disputado a primeira competição internacional pela Jamaica, vencendo duas medalhas de prata nos 200 m e nos 400 m da categoria sub-17 dos CARIFTA Games, uma competição regional na região das Caraíbas.

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Viria a tornar-se profissional aos 17 anos, em 2004. Sempre a quebrar recordes, tornou-se no primeiro velocista com aquela idade a baixar dos 20 segundos nos 200 metros, numa prova nas Bermudas onde fez 19.93s. O seu nome começava a ecoar na imprensa internacional, a curiosidade sobre o veloz e poderoso miúdo da Jamaica foi aumentando e havia uma grande expetativa para saber o que poderia fazer os seus primeiros Jogos Olímpicos, em Atenas 2004. Uma lesão no tendão de Aquiles não permitiu que fosse além das eliminatórias, num ano em que Francis Obikwelu deu a prata a Portugal nos 100 metros.

Depois de algumas lesões que o tiraram de algumas provas, Bolt surgiu em 2006 a bater o recorde de Justin Gatlin do meeting de Ostrava, na República Checa e a fazer 19.88s, recorde pessoal, em Lausanne, na Suíça, numa prova em que foi 3.º. atrás de Xavier Carter e Tyson Gay.

Dos 200m para os 100m…para continuar a bater recordes

Mas Usain Bolt queria mais. O ´Relâmpago` queria saltar para os 100 metros, algo que o seu técnico não concordava, por entender que a sua técnica era mais propícia aos sprints mais longos, 200 e 400 metros. Perante a insistência do jovem velocista, Glen Mills, seu técnico atual, prometeu-lhe deixa-lo correr os 100 metros se batesse o recorde da Jamaica nos 200 metros (19.86s) , na posse Donald Quarrie, ídolo de Bolt, desde 1971. Em 2007 no campeonato jamaicano, correu os 200 metros em 19.75s. A partir daí passou a correr também nos 100 metros, sendo que a sua primeira aparição foi no meeting de Creta, Grécia, onde venceu com 10.03s.

Nos Mundiais de Osaka em 2007 não viria a disputar os 100 metros. Era preciso mais trabalho para essa prova, mas Bolt entrava nos 200 metros como um dos candidatos a desafiar o norte-americano Tyson Gay, que estava no auge da carreira. Gay venceu os 100 e os 200 metros, deixando Bolt com a prata. Na segunda vez que correu nos 100 metros, na Kingstown Invitational, em maio de 2008, cravou uns espetaculares 9.76s, a segunda melhor marca mundial de sempre, apenas atrás do recorde de Asafa Powell. Estava a nascer uma lenda na prova rainha do atletismo de velocidade. Menos de um mês depois, no Reebok Grand Prix de Atletismo de Nova York, estabeleceu um novo recorde mundial nos 100 metros com 9.72s, naquela que era apenas a sua quinta prova na categoria. Em junho baixou a sua marca nos 200 metros para 19.67s, novo recorde jamaicano, em Atenas, Grécia.

Usain Bolt
Usain Bolt créditos: AFP or licensors

De recorde em recorde, a carreira de Bolt ia de vento em popa. Nos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008 tornou-se no homem mais rápido do mundo ao correr os 100 metros em 9.69s, primeiro homem abaixo de 9.7s em olimpíadas. Chegou à meta a bater no peito, a olhar os adversários, descontraído e sem oposição. Venceu depois os 200 metros com 19.30s e com um vento contra de 0.9m/s;[31]. Passou a ser o primeiro velocista a ter o recorde mundial dos 100 e 200 m simultaneamente desde Quarrie, o primeiro a faze-lo numa mesma Olimpíada. No último dia de prova, aos 22 anos, ajudou a Jamaica a vencer os 4x100 m com o tempo de 37.10s, um novo recorde mundial.

Mas nove anos depois seria obrigado a devolver a medalha de ouro nos 4x100 metros já que Nesta Carter, um dos velocistas jamaicanos, acusou uma substância proibida -metilhexaneamina. O doping no atletismo tem sido, aliás, uma das grandes lutas de Bolt.

"Estou triste, mas existem regras", disse na altura. "Se houver provas de que os atletas estão a tomar substâncias proibidas, estes têm que ser punidos. Quem fizer batota tem que ser castigado e essa é a mensagem certa", referiu recentemente, a respeito da suspensão de vários atletas russos.

A lenda começava a tornar-se imparável e imbatível. Nos mundiais de 2009 em Berlim, Tyson Gay apareceu como o grande rival de Bolt, alguém capaz de destronar o jamaicano. Mas na final dos 100 metros Bolt não deu hipóteses e correu a distância em 9.58s, quebrando o seu próprio recorde de Pequim2008. Nos 200 metros fez 19.19s para a distância, 0.11 mais rápido que o recorde anterior e repetindo o feito de dois recordes mundiais num mesmo evento. Depois de bater todos os seus recordes em Berlim, frisou.

"Sempre há limites. Eu não conheço os meus", declarou.

Nos mundiais de Daegu em 2011 espantou o mundo do atletismo ao ser desclassificado com uma falsa partida na final. Como consolo, levou duas medalhas, nos 200 metros e nos 4x100 metros.

Muitas dúvidas pairavam sobre as suas capacidades nos Jogos Olímpicos de Londres em 2012 mas o ´Relâmpago` desfez todas ao vencer nos 100 metros com 9.63s, um tempo melhor que o de Pequim, e os 200 metros com 19.32s.

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Na final dos 100 m, porém, venceu novamente em 9.63s, um tempo melhor que o de Pequim, deixando Blake com a medalha de prata; e repetiu a vitória nos 200 m, com a marca de 19.32s, com Blake novamente em segundo e um pódio totalmente jamaicano com Warren Weir em terceiro. Retirou-se das olimpíadas com vitória nos 100, 200 e 4x100 metros nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, mas sem as marcas de outros tempos.

Saída inglória mas aplaudido de pé

Na noite de sábado, em Londres, Bolt viu a sua despedida ofuscada pelo brilhante ouro da equipa masculina dos 4x100 metros, que bateu a favorita Jamaica (desclassificada, já que Bolt não terminou a prova) e os EUA.

Viria a regressar, 24 horas depois, para se despedir do público que entreteu ao longo dos últimos 10 anos.

Ao som de "Reggae Night", de Bob Marley, o jamaicano aplaudiu o público presente. Quando passava nas raias onde fez história, Bolt parou, fez o sinal da cruz e deu um beijo na pista. No lugar do tiro, a largada foi com fogos de artifício.

"Sempre que entrou em pista tenho a função de entreter o público, que sempre me apoiou muito. Obrigado a todos", disse um emocionado Bolt.

Nos ecrãs do estádio passara os grandes momentos da carreira de Usain Bolt, com os números estratosféricos. Mais tarde, dirigiu-se para perto da linha de chegada, onde estavam os pais, abraçou-os e voltou depois a linha de chegada para fazer a pose que o consagrou: o ´raio`.

«Vim para ser uma lenda e já o sou»
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Bolt deixa o atletismo com números muito difíceis de igualar: campeão olímpico por nove vezes e campeão do mundo em 11 situações, Bolt bateu três vezes o recorde do mundo dos 100m, bateu duas vezes o recorde do mundo dos 200m.

Há um antes e um depois de Bolt no atletismo. Enquanto cá esteve, o atletismo viveu os seus melhores dias, mesmo debaixo da ´epidemia` do doping. Corria, ganhava de forma folgada, batia no peito, tirava fotos com os fãs, brincava com os adversários, divertia-se no que fazia, entretinha o público.

O legado de Bolt

Recordes Mundiais
100m - 9.58s - Berlim-2009
200m - 19.19s - Berlin-2009
4x100m - 36.84s - London-2012

Medalhas olímpicas
Pequim-2008*: ouro nos 100m e 200m
Londres-2012: ouro nos 100m, 200m e 4x100m
Rio-2016: ouro nos 100m, 200m e 4x100m
* o ouro nos 4x100m foi retirado após doping de um membro da equipa jamaicana

Medalhas em Mundiais
Osaka-2007: prata nos 200m e 4x100m
Berlim-2009: ouro 100m, 200m e 4x100m
Daegu-2011: ouro 200m e 4x100m
Moscou-2013: ouro 100m, 200m e 4x100m
Pequim-2015: ouro 100m, 200m e 4x100m
Londres-2017: bronze 100m

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