Maria José Delgado Andrade, Zezinha, 23 anos, nasceu nos arredores da cidade do Mindelo, em Ribeirinha, no seio de uma família humilde. Passou por muitas dificuldades mas nunca desistiu dos seus sonhos. É um exemplo de força, superação e humildade.

Conta que foi o pai, Tony, que lhe incutiu, ainda em criança, o gosto pelo desporto. “Ia correr pelas montanhas da ilha com o meu pai e irmão. Passava o dia a correr, mesmo quando ia ao mercado era a correr”, recorda.

Nessa altura o atletismo era o seu grande amor. “Gostava mesmo era de atletismo porque ainda não sabia que existia o taekwondo”, confessa.

“Parei de estudar, deixei a minha família, tudo pelo taekwondo”

Zezinha foi apresentada à modalidade por uma prima há cerca de dois anos. “ A minha prima disse-me que tinha um rapaz que ensinava taekwondo mas eu nem sabia do que se tratava. Disse-me que podia encontrar ali a oportunidade de ir para fora de Cabo Verde”, lembra.

Em outubro de 2013, começou a assistir os treinos, primeiro no pátio do Liceu José Augusto Pinto, e depois no Espaço Nhô Djunga mas não depositava muita fé na modalidade.

“Achava que nunca conseguiria singrar na modalidade, pelo meio corpo franzino, mas descobri que as lutas são organizadas por categoria, por peso”, recorda. E começou a acreditar que poderia dar certo. Hoje compete na categoria -49 kg.

Participou no primeiro campeonato nacional em 2014 e ainda não tinha muita experiência. Contudo os sonhos de Zezinha eram enormes: queria chegar às Olimpíadas do Rio. Surgiu então a oportunidade de partir para os Estados Unidos para uma temporada de treinos.

"Quem deveria ir para os Estados Unidos era a minha colega, a Ana Cristina, mas aconteceu um imprevisto e fui selecionada no lugar dela porque fiquei entre as três melhores no campeonato nacional", relembra com nostalgia. E afinal a prima tinha razão, as portas para o exterior abriram-se através do taekwondo.

"Parei de estudar (estava a fazer Direito), deixei a minha família, tudo pelo taekwondo e tem valido a pena”, disse. Os esforços do treinador Joe Pina têm sido cruciais para a caminhada de Zezinha do Taekwondo. É o grande incentivador da atleta.

“Vivo em casa do nosso treinador, desde que cheguei nos EUA, pois ainda não ganho nada com o desporto, a nível financeiro. Só depois da qualificação é que começaram a surgir apoios e as pessoas começaram a reconhecer-me”, explica.

A qualificação para o Rio 2016

“Sempre que via os Jogos Olímpicos na televisão sonhava um dia lá estar. Representar o meu país é algo enorme, sonhava desfilar com a bandeira de Cabo Verde”, e sonho está prestes a realizar-se mas chegar até aqui não foi fácil.

Embora a qualificação tenha sido rápida e por mérito próprio, Zezinha confessa que passou por momentos complicados.

“Muitos atletas treinam por muitos anos para conseguir um lugar nas Olimpíadas e eu em pouco tempo consegui e por isso estive sob pressão. Passava muito tempo a ver vídeos de luta e isso tudo começava a perturbar-me mas depois consegui libertar-me desta pressão”, confessa.

Diz que muitos não acreditavam no seu potencial enquanto atleta. Muitas vezes ouviu palavras desencorajadoras, mas preferiu transformá-las em motivação.

Em fevereiro deste ano, no Open de Taekwondo, em Agadir (Marrocos), a atleta olímpica fez história ao conseguir a primeira qualificação cabo-verdiana para Jogos Olímpicos Rio 2016.

Zezinha Andrade venceu a medalha de Prata com duas vitórias nos quartos e nas meias-finais, tendo perdido a final por uma diferença mínima, 2-3 para a atleta do Congo, Rosa Keleku, e conseguiu a qualificação direta para o Rio 2016.

“Foi uma emoção grande, tive quase 30 minutos para entender o que tinha acontecido”, afiança.

“Falta ainda realizar outro sonho: ajudar os meus pais”

Apesar de estar a viver um sonho, Zezinha não se esquece das suas origens humildes e todas as dificuldades por que passou.

“Sempre quis sair de Cabo Verde para procurar uma vida melhor para a minha família. Já realizei muitos sonhos - estar nos Jogos Olímpicos, conhecer Nova Iorque, Egito - mas ainda falta realizar o meu maior sonho: ajudar os meus pais”, afirma.

A atleta quer estudar Economia. A nível desportivo vai continuar a viver o sonho do taekwondo e trabalhar para os Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020.

Por agora, os treinos vão ocupar o maior tempo de Zezinha, que deve partir para o Brasil no início do mês de agosto. No dia 17 de agosto, vai entrar no tatami para o seu primeiro combate. A atleta já sabe que vai defrontar a tailandesa Panipak Wongpattanakit.

No decorrer das provas, deverá também defrontar a atleta chinesa Wu Jiangyu, “a sua maior inspiração no taekwondo”. “Ela é campeã olímpica, acompanho a sua carreira e sempre sonhei conhecê-la, mas nunca defrontá-la”, diz entre risos.

Embora reconheça que vai ser uma competição difícil, a atleta promete dar o seu melhor para conseguir uma medalha.

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