Consegue ver-se de raquete na mão a partilhar momentos únicos e a fazer novas amizades dentro e fora de uma quadra, a cuidar da sua saúde e até a participar em torneios? Se respondeu afirmativamente a esta pergunta tenciona ser ou já é um dos quase 100 mil praticantes de Padel em Portugal.

Recente no nosso país, o padel deu os primeiros passos em 1969 no México. Espanha e Argentina são as grandes referências.

Em 'sprint', depois do enorme crescimento nos últimos anos, Portugal caminha a passos largos para tentar ombrear com essas potências. A aposta na prática e na formação é uma árvore que tem dado frutos e Ana Catarina Nogueira é o maior deles, ao ser a grande figura do padel luso. O percurso meteórico da portuense em 2019 transporta-nos até à Quinta de Monserrate em Matosinhos, a base da padelista de 41 anos.

O Padel deu os primeiros passos em 1969 no México

O que dizer dos últimos meses absolutamente meteóricos: Primeiro padelista português a disputar uma final de um torneio do WPT no Euro Finans Swedish Padel Open em 2019. Voltou a repetir nova final em Mijas (em agosto) e algumas semanas depois voltou a marcar encontro com a história, no Madrid Masters.

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Ana Catarina Nogueira nasceu no dia 20 de setembro de 1978

17:45 – Com a hora da entrevista a aproximar-se questionamos um matosinhense sobre a localização dos campos de 'ténis' da Quinta de Monserrate. Omitimos o substantivo 'padel', afinal de contas este desporto ainda agora deu os primeiros passos no nosso, e não está ainda no ouvido das gerações mais antigas.

O encontro com Ana Catarina Nogueira é marcado para a tardinha. Findo o treino da manhã, é hora da padelista vestir a pele de professora. Dá aulas a alunos do nível 3. 'Padelistas wanna be' que têm a sorte de treinar com a atual 8.ª colocada do ranking mundial do WPT.

Há três níveis de aprendizagem no Padel que vai do nível 3 ao 1

"Os alunos ficam muito orgulhosos da sua professora. Seguem os resultados e os torneios. É engraçado porque também se vão criando algumas amizades. Essa parte de dar aulas é algo que complemento com o papel de jogadora", revela-nos entre sorrisos Ana Catarina. Os ensinamentos e o contacto com os alunos são um salpico de realidade para uma das melhores jogadores do mundo.

Padel Regras
Padel Regras créditos: @SAPO Desporto

"Dar aulas também nos ajuda a ter os pés no chão, experiências diferentes, conhecer muita gente que também nos vão apoiar nessa carreira de jogadores. Os patrocínios muitas vezes surgem de alunos. Os próprios gostam de ajudar, gostam de apoiar.", lembra.

Ana Catarina é pessoa de gargalhada fácil, voz determinada e senhora de si. Trabalhadora e consistente, dentro e fora do campo. Foi com a mesma simplicidade que agarrou o padel numa pancada a duas mãos, quase com uma brincadeira. Os pergaminhos já os tinha no ténis, mas foi a competição que lhe puxou o 'bichinho'. Campeã na modalidade maior, ressurgiu no Padel para brilhar ao mais alto nível.

"Joguei ténis durante 15 anos em alta competição. Fui três vezes campeã nacional e estive muitos anos ligado à competição. Quando deixei de jogar, não fazia ideia do que era o padel, nem que poderia ter uma segunda carreira desportiva. O padel apareceu, dois ou três anos depois de ter deixado de jogar ténis, isto através do meu ex-treinador de ténis, o Pedro Cordeiro. Foi na Maia que me levou a experimentar o padel. No início era só por lazer. Jogar para manter a atividade física e um convívio entre amigos. Só mais tarde é que começaram a aparecer os torneios. Mas foi a partir do momento que comecei na competição, que voltou o 'bichinho' até hoje", recorda.

Ana Catarina Nogueira, jogadora de Padel
O momento do triunfo de Ana Catarina Nogueira e Paula JoseMaría

Em 2019, a jogadora mais cotada a nível nacional, colocou bem alto a fasquia: Lograr um lugar nas 16 melhores do mundo e vencer um torneio do World Padel Tour. Esteve à porta do sonho em Mijas e no Swedish Padel Open, em Bastad (Suécia). Atingiu algo inédito e inesquecível com a vitória nos Masters de Madrid.

"Neste momento estou no top-10, o que era um sonho"

"Quando conquistei o título foi uma grande felicidade e também uma recompensa pelo trabalho diário. Pela dedicação, pelo treino, pelo esforço que nos últimos anos tenho tido para chegar ao topo da modalidade. Neste momento estou no top-10, o que era um sonho. O objetivo era terminar no top-16, para ir ao Masters do final do ano e já estou no top-10, por isso é realmente incrível."

Experiência + Talento = Dupla de sucesso

Se no ténis és um lobo solitário, no padel atuas em 'matilha'. O projeto para a criação de uma nova equipa começou a ser desenhado no início de 2019, depois da jogadora portuguesa ter decidido que não iria continuar com a mesma parceira. A escolhida foi Paula Josemaría, espanhola de 22 anos e com um enorme futuro pela frente. Logo no primeiro torneio em conjunto, a dupla atingiu as meias-finais do Masters de Marbella em março último. No mês de setembro, Ana Catarina Nogueira juntamente com a jogadora natural da Extremadura, venceu o Masters de Madrid, um dos torneios mais importantes do WPT. Êxito histórico para o padel português num circuito dominado por atletas espanhóis, argentinos e brasileiros.

Ao contrário do ténis, o padel joga-se sempre em duplas

"Paula Josemaría foi uma jogadora que sempre me chamou à atenção, para além de ser jovem, tem muito potencial. Tem também a vantagem de ser esquerdina. No padel é uma vantagem jogar com um jogador esquerdino do lado direito. Decidimos então jogar juntas. Tivemos agora um pico em que atingimos a final do Open de Mijas e depois a final do Masters de Madrid", analisa e prossegue.

Ana Catarina Nogueira, jogadora de Padel

"Para Portugal foi um marco histórico porque nenhum jogador português tinha conseguido isso. Mesmo no próprio circuito mundial foi dada muita importância…houve uma portuguesa que conseguiu conquistar um Masters e por isso também existiu grande destaque."

"Houve uma portuguesa que conseguiu conquistar uma Masters e por isso também existiu grande destaque"´

19 anos separam Ana e Paula no bilhete de identidade. A portuguesa faz parte de uma geração de jogadores que depois de terem feito carreira no ténis, transitaram de forma natural pelo padel. Por outro lado, a jogadora nascida na região da Extremadura é praticamente uma padelista nativa. O jogo mais cerebral da mais experiente Ana Catarina Nogueira entronca quase de uma forma perfeita com o jogo de potência da espanhola, numa sintonia notória dentro e fora das quadras.

"O nosso parceiro dentro de campo é o melhor do mundo. Tem que haver uma química para as coisas funcionarem"

"O padel é um desporto de duplas. Vamos juntas para os torneios, para os treinos, para o hotel. Durante a competição, estamos sempre uma com a outra. E mesmo dentro do campo, para uma dupla funcionar, o nosso parceiro naquela altura tem que ser o melhor do mundo. Tem que haver uma química muito grande para as coisas funcionarem. Só assim é que um jogo de dupla pode funcionar. Nós temos conseguido isso muito bem, eu e a Paula. Para além disso complementamos muito bem o nosso jogo. A Paula é uma jogadora muito agressiva, muito de potência. Eu sou uma jogadora mais consistente, que não gosta de falhar. E acho que encaixamos bem nesse aspecto", analisa.

"A Paula é uma jogadora muito agressiva, muito de potência. Eu sou uma jogadora mais consistente, que não gosta de falhar. E acho que encaixamos bem nesse aspecto."

Títulos de Ana Catarina Nogueira

- Vitória em novembro de 2018 ao lado da argentina Delfina Brea

- Vitória no Masters de Madrid em Setembro de 2019, juntamente com a espanhola Paula Josemaría.

Ana Catarina Nogueira, jogadora de Padel
O ponto em que a dupla Ana Catarina Nogueira - Paula Josemaria vence o Masters de Madrid. @WPT

Padel, o desporto social

Num país em que a prática de desportos de raquete era uma raridade, o padel contribuiu para dar um 'safanão' na realidade nacional. Os clubes cresceram como cogumelos pelo país fora…apareceram jogadores e as famosas combinações de jogos por whatsup. O amigo trouxe o amigo…isto porque bater umas bolas, no padel, está ao alcance de qualquer um ao contrário do frustrante primo maior que está cheio de idiossincrasias: O ténis.

"O 'boom' maior surgiu nos últimos cinco anos, tanto a nível de praticantes, como campos e clubes. No entanto, o padel é um desporto que já existe há mais anos, mas é uma modalidade recente, por isso é natural que agora esteja em grande crescimento", conta-nos a atleta de 41 anos, antes de enumerar as razões pelas quais o padel é um desporto cada mais popular. "As características do padel é o que atrai as pessoas para o jogo. É um desporto relativamente fácil de jogar para quem é iniciante e nunca praticou desportos de raquete. Rapidamente consegue-se trocar bolas e ter algum sucesso. E isso cativa as pessoas a voltarem. É um desporto muito social, em que as pessoas convivem muito fora do jogo. Há muita gente que se conhece no padel, a jogar e a marcar jogos."

Ana Catarina Nogueira, jogadora de Padel

O aumento exponencial no número de praticantes faz com que a Federação Portuguesa de Padel reforce as ambições. Resta questionar... Será que poderemos ombrear nos próximos anos com a Argentina e Espanha, tanto a nível de praticantes como de sucesso desportivo? O caminho ainda é longo, sobretudo no campo da formação, mas há mais bem mais que uma luz ao fundo do túnel.

"Sim, nós pouco a pouco temos vindo a encurtar a distância para a Espanha e Argentina. É claro que esses países levam 20 ou 30 anos de avanço, sobretudo em escolas de formação de crianças e jovens que já são muito fortes e Portugal aí ainda tem muito trabalho pela frente. Temos dois ou três jogadores, tanto no masculino como a nível feminino a apostar no circuito e já com bom nível. (…) Penso que daqui a alguns anos possamos estar ao nível desses dois países. Nós já competimos contra eles e daqui a uns anos penso que a distância será muito menor", declara.

O profissionalismo e as diferenças entre homens e mulheres

Sem a dimensão mundial do ténis, o padel ainda está restrito a poucos países. O circuito - entre março e dezembro - é relativamente curto no que diz respeito ao número de torneios e não sobra muita margem de manobra para os jogadores fazerem vida.

‘Noggy’ - como é carinhosamente tratada pelos amigos - complementa a carreira de jogadora com as aulas. No Top-10 masculino e feminino contam-se pelos dedos das mãos os atletas que são exclusivamente profissionais.

No que diz respeito aos prémios, o 'gap' entre o circuito masculino e feminino ainda é do tamanho de uma montanha. No ténis, as jogadoras têm reivindicado a igualdade em matéria de 'prize money', mas no padel ainda há um longo caminho a percorrer nessa matéria.

'Noggy' ocupa o 8.o lugar no ranking mundial

"A discrepância do prémio feminino para o prémio masculino é muito maior do que no ténis. Aí já existe grande igualdade nomeadamente nos torneios do Grand Slam. No padel essa diferença é bastante grande a nível dos prémios, e é uma luta que tem que ser feita e conquistada e um caminho que tem quer ser percorrido a pouco e pouco. Em Portugal, já há casos de um ou dois torneios com igualdade de prémios. E outros torneios que desejam aproximar para que não haja tanta diferença. E acho que é esse o caminho", explica.

A treinar em Portugal, Ana Nogueira só se reúne com a parceira alguns dias antes do início dos torneios que se realizam maioritariamente em Espanha. 'Noggy' tomou a decisão de treinar em 'casa', sabendo de antemão que as condições, apoios e patrocínios não são em tão grande número como no país vizinho. Apesar de tudo, a capacidade de evolução não se tem ressentido da decisão. A resiliência da padelista e o lugar no top-10 mundial constituem o melhor cartão-de-visita.

"Tomei a opção de ficar cá em Portugal, que é um bocadinho a minha base e a minha residência. As condições não são as ideais e tenho menos apoios do que as atletas que competem lá fora. Mas sempre consegui ir evoluindo e melhorando até chegar a este ano, em que entrei nas top-10. E é sinal de que é possível, que mesmo nas condições não ideais é possível. Mas penso que as condições em Portugal têm vindo a melhorar e com estes resultados que eu tenho tido, vão surgir mais apoios e patrocínios".

Com uma mão cheia de anos no circuito, Ana Catarina Nogueira esteve por diversas vezes à porta do top-16, posição que que dá acesso ao Masters final do ano. Também nunca tinha conseguido chegar à final de um torneio do WPT. Daí os objetivos relativamente conservadores no início do ano. Conservadores não? A jogadora discorda e prefere antes destacar todo o percurso, num ano em que está a superar todas as expetativas.

"Os objetivos [para 2019] não eram conservadores…eu estou no circuito há cinco anos e até agora tinha tido sempre esse objetivo de chegar às 16 primeiras e entrar uma Masters e nunca tinha conseguido. É claro que este ano está a exceder as expectativas, mas também se calhar é fruto da experiência que eu ganhei. Também sem dúvida a parceria que tenho feito com a Paula [Josemaría Martín]. Este ano tem sido uma evolução constante e tenho vindo a melhorar muito vários aspetos do jogo. E isso tem permitido esta subida no ranking", justifica.

Com vitórias sobre a número 1, número 2, número 3 e número 4, - a única dupla a fazer esse brilharete este ano – a expetativa é de que a padelista possa chegar novamente à final de um torneio do WPT (com quatro torneios por disputar e um Masters) até ao final da temporada em dezembro. Mas tal como em todos os desportos, na elite, são muitas vezes os detalhes que fazem toda a diferença.

Ana Catarina Nogueira foi eliminada nos quartos de final do WPT Cascais frente à dupla n.º 1 Mundial. O torneio português realizou-se entre os dias 17 e 22 de setembro.

"Seria engraçado chegar a mais a uma final…mas vai ser muito difícil. No WPT Cascais perdemos nos quartos-de-final contra a dupla n.º 1. 6-4 no terceiro set…um break de diferença e elas acabaram por ganhar o torneio. A diferença entre perderes nos quartos de final e chegares a uma final é muito pouca. São pequenos detalhes em cada jogo que fazem a diferença. É difícil dizer-se se se vai chegar a uma final, mas o objetivo passa por aí. No top-20 as diferenças são poucas…A partir dos quartos de final qualquer torneio fica em aberto.", enaltece.

"A diferença entre perderes nos quartos de final e chegares a uma final é muito pouca"

Com os trunfos há a massagem do ego. As cabeças voltam-se, o mediatismo surge, a pressão cresce. 'Noggy' não se deslumbra. Continua a encarar os jogos como se de uma luta se tratasse, em que o KO e o triunfo pode estar à distância, ora de uma bola na rede, ora de um momento de inspiração.

"As pessoas agora pensam que em todos os torneios eu vou chegar à final"

"Tenho aparecido muitas vezes nos jornais e na televisão e tento sempre manter os pés na terra, a cabeça focada nos objetivos, sobretudo por que as pessoas agora pensam que em todos os torneios eu vou chegar agora à final, e é super difícil. Há muito fatores que influenciam…os resultados, a condição física e a condição mental. Todos os jogos são uma luta e temos que os encarar da mesma forma."

"Fora dos campos de padel, Ana Catarina Nogueira assume o papel de anónima com orgulho. Estar parada não é com ela até porque a paixão pelo desporto sempre a acompanhou desde sempre.

"Sou uma pessoa muita calma, muito tranquila. Fora dos torneios e das viagens que faço gosto de estar com a família, com os amigos. É bom poder abstrair-me de toda a questão do padel. Antes de começar no ténis joguei muito basquetebol…o meu irmão jogava e ia atrás dele. Sempre pratiquei muito desporto, futebol, ténis de mesa. Fui sempre muito ligada ao desporto como praticante e espectadora. A licenciatura nessa área também foi um passo natural", recorda.

Fora dos torneios, Ana Catarina tenta desligar-se das quadras e vive uma vida igual à de tantos outros. Não dispensa a companhia de um bom livro, e de tempos a tempos passa os olhos por um filme ou uma série, mas não tem feitio para estar fechada em casa.

"Gosto muito de ler…De vez em quando vejo algumas séries, um filme mas não sou pessoa de ir ao cinema", revela.

Por vezes a carreira de padelista faz com que Ana Nogueira falhe aqui e ali alguns compromissos familiares. Já era assim enquanto tenista. Por isso mesmo foi especial e ficou na memória o momento em que os pais, ao vivo e a cores, puderam presenciar a vitória mais saborosa da carreira até ao momento, na final do Masters em Madrid. É neles em que pensa nos momentos felizes em que ergue o punho em sinal de vitória.

Ana Catarina Nogueira e os pais
Ana Catarina Nogueira e os pais créditos: DR

Em quem pensou quando ganhou o Masters de Madrid? "Pensei nos meus pais que foram pela primeira vez assistir a uma etapa do World Padel Tour [Madrid] e assistiram à final. Correu bem porque ganhei (risos) e portanto…Olhei para eles e vi que eles estavam super felizes e emocionados e por isso [a vitória] acho que foi para eles.", conta com um sorriso no rosto.

Sobre o futuro há uma certeza, será ligado ao padel.

"Trabalhar na organização de torneios ou na federação? Talvez…Pode ser um caminho…para me manter ligada à modalidade. Também gosto dessa parte de organização de eventos e torneios e de estar com as pessoas e aproveitar também um pouco os resultados que obtive no padel para divulgar a modalidade".

Mas mais importante que os prémios e que o mediatismo fica algo que o dinheiro não pode comprar. Algo que o padel traz consigo, na sua essência, e que fica para o resto da vida.

"Há muita gente que faz amizades no padel e convive com outras pessoas que não tinha outra oportunidade de conhecer de outra forma. Também me acontece muito isso. Já criei muitas amizades…Para o resto das pessoas é óbvio que isso acontece. Há muita a coisa de no padel as pessoas usarem o whatsup para marcarem jogos e as pessoas aparecem e começam a conhecer novas pessoas. Depois do jogo fica-se sempre à conversa e é também por isso que o padel cativa as pessoas", termina.

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