Quando faltavam algumas semanas para um combate em Paris, Nong Rose trocava golpes num ringue com o seu irmão, num ginásio de Muay Thai, na província de Chachoengsao, na Tailândia. De lábios pintados de vermelho e com um soutien desportivo cor de rosa, a lutadora de 21 anos preparava-se para o primeiro combate de sempre em França com um lutador transgénero.

Nong Rose: Uma lutadora para além do género
Nong Rose: Uma lutadora para além do género. Foto: Lillian SUWANRUMPHA/AFP créditos: Lillian SUWANRUMPHA

O Muay Thai é o desporto nacional na Tailândia e carrega em si os ensinamentos de várias gerações de combatentes. Foi assim que Nong Rose aprendeu a lutar desde muito nova, quando o tio, um lutador profissional de Muay Thai, começou a transmitir-lhe alguns dos movimentos básicos como socos e pontapés rotativos.

"Desde que éramos pequenos, que estamos habituados a lutar, mas ela sempre foi mais forte do que eu", começa por dizer Somrak Polchareon, irmão gémeo de Nong Rose, em declarações à AFP.

Aos olhos da lei tailandesa, Nong Rose continua a ser um cidadão com o nome de Somros Polchareon apesar de se sentir uma rapariga desde muito nova, quando aos 14 anos começou a vestir-se como uma menina.

Na vida, como no ringue, onde Nong Rose competiu sempre contra homens, lutar pelo seu espaço nem sempre foi fácil para esta lutadora de Muay Thai.

Nong Rose: Uma lutadora para além do género
Nong Rose: Uma lutadora para além do género. Foto: Lillian SUWANRUMPHA/AFP créditos: Lillian SUWANRUMPHA

"Quando comecei a lutar como rapariga, tinha muito medo que as pessoas não me aceitassem", começou por dizer Nong Rose à AFP enquanto limpava o suor da cara após mais um treino.

Apesar da Tailândia ter uma reputação liberal e aberta em relação à comunidade homossexual e transgénero, a descriminação fora do âmbito da vida noturna e da área do espetáculo é bem real, nomeadamente num desporto tão tradicional como é o Muay Thai.

A lutadora revela também que no início da sua carreiras os seus adversários ficavam intimidados, ou mesmo irritados, com a sua aparência.

"Na minha aldeia todos me conheciam por isso era fácil", começa por dizer. "Mas fora da cidade, alguns lutadores olhavam-me de lado e diziam que as pessoas transgénero não podiam vencer", acrescentou.

Nong Rose: Uma lutadora para além do género
Nong Rose: Uma lutadora para além do género. Foto: Lillian SUWANRUMPHA/AFP créditos: Lillian SUWANRUMPHA

Muitos cidadãos transgénero na Tailândia são descriminados num país em que o governo militar considerou a mudança de género uma doença mental em 2012.

A prática da mudança de sexo continua a não ser reconhecida legalmente, causando uma autêntica dor de cabeça para aqueles que procuram ajuda médica e muralhas burocráticas.

Nong Rose, que se tornou lutadora profissional quando acabou o secundário há dois anos, lutou contra o preconceito ao somar vitórias atrás de vitória no ringue, tendo neste momento um registo de 150 vitórias em 300 combates.

Hoje em dia, Nong Rose é conhecida por joelhos de aço.

Nong Rose: Uma lutadora para além do género
Nong Rose: Uma lutadora para além do género. Foto: Lillian SUWANRUMPHA/AFP créditos: Lillian SUWANRUMPHA

"Em combate, ela avança sobre ti usando os joelhos como martelos", afirmou Chalongchai Meemindee, que defrontou Nong Rose no passado mês de novembro.

"É bom tê-la no ringue porque traz alguma cor e atrai assistência, especialmente estrangeiros", acrescentou o lutador de Muay Thai mais conhecido por 'Phetsuphan'.

No próximo dia 6 de janeiro, Nong Rose vai defrontar em Paris o campeão francês de Muay Thai no primeiro combate em solo francês com um lutador transgénero.

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