"Eles são malucos, mas consegue-se ver o medo nos olhos deles". Esta frase de Meaghan Benfeito é a melhor entrada para estas linhas sobre o Red Bull Cliff Diving. Mas já mais à frente no texto vamos conhecer melhor esta saltadora, que já conta com três medalhas olímpicas no currículo e que tem costela açoriana.

"Assustam-me as possíveis consequências de um salto que corra mal quase tanto como ter um emprego das 9 às 5 num escritório". Estas palavras do saltador David Colturi descrevem da melhor forma a vida no limite destes atletas de enorme coração.

Vista do barco onde os jornalistas assistem Red Bull Cliff Diving
Vista do barco onde os jornalistas assistem Red Bull Cliff Diving créditos: @André Delgado

14/07/2018 - São Miguel, Açores - O dia desperta madrugador para as dezenas de jornalistas que rumam ao Ilhéu de Vila Franca do Campo. Uma espécie de paraíso conhecido por ser um dos mais "puros spots" do calendário de sete eventos do Red Bull Cliff Diving. À medida que a embarcação avança - é deste local que os jornalistas assistem à prova - o ponto 'pequenino' à distância ganha dimensão e convida à reverência, à medida que se consegue vislumbrar o arquipélago vulcânico, onde os atletas saltam diretamente das rochas.

Realizadas a primeira e segunda rondas, com saltos que variaram entre as rochas e a plataforma e mudaram de 'spot' ao sabor do vento, num lugar em que a chuva e sol dizem 'Olá' com a mesma facilidade. No sábado, iriam conhecer-se o nome dos vencedores deste ano da prova dos Açores, considerada uma das mais exigentes do calendário.

Longe de ser um local turístico - só pode receber 400 pessoas de cada vez a cada visita - o Ilhéu de Vila Franca do Campo, pedaço de rocha que só foi resgatado pelo Governo Regional dos Açores, em 1989, ficou engalanado para o baile anual acrobático levado a cabo pelos saltadores que vêm dos quatro cantos do mundo.

Comprimidos para o enjoo 'check', pequeno-almoço rico em hidratos de carbono 'check'. Os 'escribas' estavam assim munidos e com o estômago forte para assistir a um espectáculo absolutamente surreal. O balouçar do barco ao sabor das ondas debaixo de um céu cor de alcatrão conferiram o dramatismo ideal e consciencializaram sobre a força da natureza, no seu estado mais puro.

O Salto em números
- 27 metros para homens;
- 21 metros para senhoras;
- 3 segundos de duração;
- 85 km/h.

Com uma visão pouco superior ao nível do oceano, é possível ter-se a percepção do nível de 'loucura' desde 16 atletas (10 a nível masculino e 6 a nível feminino sem contar com os 'wild cards'). Entre mortais, piruetas e encarpados, os saltadores fazem de tudo para impressionar os juízes. Mas ao olhar para o abismo, do alto da plataforma - 27 metros para os homens e 21 metros para as senhoras - não há nada que faça tremer estes magníficos. Ou será que há? O trabalho de escritório? Algo mais. É que apesar da loucura, os saltadores estão cientes do risco.

Meaghan Benfeito, a saltadora olímpica do Canadá, que tem raízes em São Miguel

Meaghan Benfeito, saltadora olímpica
Meaghan Benfeito, saltadora olímpica créditos: @André Delgado

Voltamos a recuperar a frase com que iniciamos estas linhas. "Eles são malucos, mas consegue-se ver o perigo nos olhos deles". Meaghan Benfeito sabe do que fala. Saltadora olímpica em piscinas de 10 metros, trata por tu alguns dos atletas presentes no circuito mundial.

O que é facto é que há muito risco associado para o corpo que embate a 85 km/h na água e precisa estar em máxima tensão para o momento do impacto. Mas nem os anos de experiência e a excelente forma física retiram o medo, que se encontra sempre presente na cabeça dos atletas. E é também por isso que a saltadora admira o esforço, mas prefere manter-se à distância da competição dos 'saltos de penhascos'.

"Eu cresci com o David Colturi. Estive nos Jogos [Olímpicos] com o Blake [Aldridge] e o Gary [Hunt]. Costumo vê-los online. Mas é muito diferente vê-los ao vivo e passei a respeitá-los muito mais. Eles mostraram-me que têm medo. Conseguimos ver que eles têm medo, aprecio-os mais porque podemos ver o outro lado. Eles todos me dizem que eu consigo. Eu penso que eles não estão certos, estão errados. Vamos ver...".

Meaghan Benfeito: "Conseguimos ver que eles têm medo, aprecio-o mais porque podemos ver o outro lado"

Nascida no Canadá há 29 anos atrás, Meaghan Benfeito é neta de micaelenses que rumaram há seis décadas para o outro lado do Atlântico em busca de uma vida melhor. Dona de três medalhas olímpicas (Uma de prata e uma de bronze em mergulho sincronizado e outra de bronze a nível individual conquistada nos Jogos do Rio de Janeiro) - Meghan confessa que o Cliff Diving não é a sua praia, apesar de muitos dos seus amigos do circuito a encorajarem a experimentar.

"Eles todos me dizem que eu consigo. Eu penso que eles não estão certos, estão errados. Vamos ver..."

No dia anterior, Meaghan tinha aceitado o convite do amigo David Colturi para experimentar saltar das rochas do ilhéu, numa altura superior em cinco metros ao que costuma saltar nas piscinas.

"Não saltei mesmo das plataformas. 15 metros é o suficiente para mim. Não saltarei mais alto do que isso".

As diferenças entre a piscina e o Cliff Diving são muitas e não se trata apenas de altura. "É muito diferente. Primeiro a altura. Eu normalmente quando mergulho, mergulho com as mãos e não com os pés. É a diferença do Cliff Diving. É muito alto, muito diferente, parece que doí". Na piscina "sei o que estou a fazer, porque o faço há 22 anos. Estou habituada".

Insistimos e Meaghan devolve-nos a pergunta utilizando um ditado bem português: "Nunca se pode dizer nunca, nunca sabemos. Mas não penso que é uma coisa que eu vá fazer no futuro".

Dona de marcados traços lusos e de uma boa disposição contagiante, fala com entusiasmo das suas origens açorianas, mas nem sequer tenta arranhar o português, apesar de entender a língua de Camões.

"A minha mãe já nasceu no Canadá. É por isso que eu não falo muito português. Entendo e por isso é divertido vir aqui. Ver onde os meus avós cresceram. Ter dois países é melhor do que um", diz.

Com casa em Montreal, cidade grande e sem mar à volta, vê em São Miguel uma espécie de porto de abrigo. "É tão verde, a água é espectacular e não há neve". Contudo, a casa continuará a ser o Canadá. "Viver aqui uma dia? Talvez não, mas ter uma casa sim, para vir o mais possível. Só vim cá três vezes porque passo a vida a treinar e não tenho muitas férias. Depois de me retirar poderei vir mais vezes".

Desportivamente, Megahan quer fazer "Benfeito' nos próximos Jogos Olímpicos e quem sabe mudar para ouro a cor das medalhas obtidas nos Jogos do Rio e em Londres.

"Vou tentar ganhar outras medalhas de outra cor nos Jogos de Tóquio que são em 2020. E depois disso acabou. É tempo de me retirar". Depois de deixar as piscinas, Megahan quer tentar ter uma vida mais "normal" e pacata.

"Quero ter um local para tomar conta de crianças juntamente com as minhas irmãs. Adoro crianças, tenho muitos primos mais novos. Espero abrir algo e divertir-me com os miúdos".

Terminada a entrevista com a saltadora. Deixámos Megahan apanhar o barco para o ilhéu para ver 'à lupa' a ronda decisiva da prova dos Açores.

Confirmando todo o seu favoritismo, que ficou bem patente no dia anterior, a australiana Rhiannan Iffland acabou por deixar uma marca memorável nos Açores. Executou o salto perfeito a partir das rochas no dia anterior, obtendo apenas a segunda pontuação nota 10, em toda a história da competição feminina. Foi o salto mais memorável da sua carreira, depois de um frontal com dois mortais e uma pirueta e meia. Obteve ainda a maior pontuação de sempre para uma atleta feminina.

Steven Lobue, David Colture e Gary Hunt foram os homens do pódio nos Açores
Steven Lobue, David Colture e Gary Hunt foram os homens do pódio nos Açores créditos: @André Delgado

No que diz respeito à competição masculina, Steven Lobue venceu a prova no último suspiro, trespassando o oceano atlântico com um triplo mortal e tripla pirueta, levando a melhor sobre Colturi que acabou por ficar no segundo lugar. Gary Hunt, ficou pela terceiro lugar.

Red Bull Cliff Diving: Steven LoBue e Rhiannan Ifland foram os grandes vencedores da etapa dos Açores
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Steven Lobue lidera agora a geral individual do Red Bull Cliff Diving.

Foi a segunda vitória consecutiva do 'Spin Master', depois de ter obtido o triunfo em Bilbao na ronda anterior.

Ao SAPO Desporto, Lobue, confessou-se um sortudo por fazer o que gosta num 'escritório' como a ilha de São Miguel.

"Este lugar é especial. Às vezes [antes do salto] tiro um momento para apreciar a beleza da Ilha. Somos uns sortudos por fazer o que amamos em lugares tão especiais", diz.

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