O râguebi é um desporto para todos, dos mais novos aos mais velhos, homens e mulheres, todos são bem-vindos no mundo desta modalidade tão pouca falada em Portugal, mas que aos poucos tem ganhado espaço nas preferências dos jovens atletas.

Há uns anos, quando as crianças iam para a escola normalmente enveredavam também pela prática de um desporto. Na maior parte das vezes era o futebol para os rapazes e a ginástica para as raparigas. A natação era outra das modalidades mais escolhidas, mas o râguebi não costumava ser. Tudo mudou e o Rugby Youth Festival é a prova disso.

O maior torneio de râguebi da Europa

A 11.ª edição do Portugal Rugby Youth Festival trouxe a Lisboa três mil jovens de todo o mundo, com 118 equipas dos cinco continentes a disputarem o maior torneio de rugby da Europa.

Entre as 118 equipas no torneio organizado pela Move Sport, que se disputou nos dias 13 e 14 de abril no Estádio Universitário em Lisboa, contam-se 63 portuguesas e 55 estrangeiras.

As equipas estrangeiras, que este ano batem o recorde de participações, representam os cinco continentes e algumas das nações mais prestigiadas do 'rugby', como é o caso de Inglaterra, Austrália, Irlanda, Escócia, França, País de Gales e Estados Unidos. Também estiveram presentes equipas da Namíbia, Zimbabué, Suécia, Luxemburgo, Gibraltar, Bélgica, Espanha, Itália e Qatar.

O Portugal Rugby Youth Festival disputou-se nos escalões masculinos de sub-13, sub-15, sub-17 e sub-19, e femininos de sub-15 e sub-19. Durante os dois dias da competição, as equipas fizeram um total de 350 jogos, com as finais de todos os escalões a serem realizadas no domingo, onde participaram jovens entre os 12 e os 18 anos.

A equipa de Agronomia venceu a final de sub-13 ao derrotar a equipa de Direito, na primeira final da tarde de domingo. De seguida, entraram em campo as equipas femininas de sub-15 da USA Schools e Lusitanas, com a formação portuguesa a vencer a final.

O jogo seguinte colocou frente a frente as raparigas americanas da equipa Morris Girls e as australianas do Melbourne Kangaroos em sub-19. A vitória foi conquistada pelas australianas.

No escalão sub-15 foi a vez dos ingleses do Blackheath Rugby Club enfrentarem os americanos do USA Schools. Depois de um encontro renhido, o Blackheath marcou o ensaio da vitória já perto do fim da partida.

Nos restantes escalões, os irlandeses do Tullow RFC venceram em sub-17, e os ingleses Myerscough College saíram vitoriosos do escalão sub-19.

De pequenino é que se torce o pepino

Quem não conhecesse Lisboa descobria facilmente o local do Rugby Yourh Festival. A atmosfera no Estádio Universitário era contagiante e a quantidade de pessoas a circular denunciava rapidamente o local do torneio.

Centenas de famílias estiveram presentes para um fim-de-semana fora do normal. Com várias atrações e muitos stands para ver, o Rugby Youth Festival cativava a atenção de quem por lá passava e principalmente dos mais novos, que eram (mesmo) muitos.

Depois de um sábado com 147 jogos, o domingo prometia ser de emoções fortes... e cumpriu. O segundo e último dia do festival estava reservado para as finais de todas as categorias e nada melhor para começar que um clássico.

No escalão de sub-13, Agronomia e Direito ficaram frente a frente para discutir o troféu. As bancadas estavam cheias, as emoções estavam ao rubro e o apoio a ambas as equipas era enorme.

Ouviam-se gritos dos treinadores, cânticos das bancadas e sentiam-se os nervos de todos aqueles que estavam de fora. Começado o encontro, a garra dos jogadores era mais do que óbvia, mas o râguebi tem características que não são assim tão óbvias.

A violência que normalmente é associada à modalidade não estava presente. Mas havia disciplina, respeito, companheirismo, espírito de equipa e espírito de sacrifício. Algo que não se vê em todas as modalidades, especialmente em atletas tão novos.

Terminada a partida, Agronomia levou a melhor, mas foi a atitude dos jogadores de Direito que saltou à vista. A tristeza de cada um era bastante clara, mas a esperança de um próximo jogo melhor também o era. Não existia o sabor amargo da derrota, mas a vontade de fazer melhor.

Aqui ganham experiências que não têm no dia-a-dia apenas a jogar râguebi - Duarte Fonseca, treinador de Direito sub-13

No final da partida, e depois do discurso feito aos jogadores, um dos treinadores da equipa de Direito falou ao SAPO Desporto. Duarte Fonseca comanda as equipas de sub-12 e sub-13 em conjunto com outros colegas, sendo que cada equipa tem seis treinadores.

O treinador educador

Na rotina diária de um treinador de râguebi não entram este tipo de torneios com regularidade, apenas convívios (o que chamam aos jogos normais dos fins-de-semana). No entanto, Duarte Fonseca garante que a experiência do Rugby Youth Festival é diferente de todas as outras.

"Este evento é muito importante porque faz os miúdos crescer. Eles participam e crescem nestes torneios porque quando voltam para o clube já voltam diferentes, vêm as coisas de outra maneira. Aprendem e voltam mais dedicados. Aqui ganham experiências que não têm no dia-a-dia apenas a jogar râguebi. Aqui jogam com equipas internacionais e têm este ambiente todo, que não temos nos torneios que fazemos diariamente", referiu o técnico.

Ser treinador de jovens é mais do que ser treinador, explicou Duarte Fonseca. "Temos de ser professores, pais, educadores. Os valores que lhes transmitimos eles passam para a vida, por isso somos principalmente educadores", disse.

Entram na equipa quando são apenas crianças e nós acompanhamos o crescimento até que se tornam homens - Irin Dracuna, mãe e treinadora

Além de Duarte Fonseca também Irin Dracuna acredita que o râguebi cria atletas com bom carácter. Irin é da Namíbia e veio a Portugal com um dos três filhos, que joga na equipa Windhoek HS.

"O meu filho veio jogar e eu vim com ele. O meu filho joga pela equipa de sub-19. Além de ser mãe de três jogadores, sou também treinadora dos atletas com seis anos. Sempre que possível gosto de vir com eles aos torneios internacionais, como este", disse.

Quanto ao papel do treinador, Irin Dracuna admitiu que "é muito bom treinar atletas tão pequenos. Eles aprendem e vão crescendo connosco e enquanto praticam râguebi. Entram na equipa quando são apenas crianças e nós acompanhamos o crescimento até que se tornam homens."

Os pequenos grandes protagonistas

Não há história que não tenha protagonistas e esta tem muitos. Alguns começaram a praticar em pequenos, outros descobriram a paixão pelo râguebi mais tarde. Alguns praticam várias modalidades, outros têm um só amor, como José Barros, de 13 anos.

"Comecei a jogar râguebi há dois anos, nos sub-12 de primeiro ano e desde que comecei que não quero largar. Nunca gostei de desportos que toda a gente praticava, preferi ser diferente, além disso o ambiente aqui em Direito é muito bom", revelou o jovem jogador, depois do encontro com Agronomia. Mas José Barros não é o único.

Francisco Ferreira tem 13 anos e representa também Direito. "Jogo râguebi desde os cinco anos e joguei sempre por Direito. Desde pequeno que vejo râguebi e sempre quis praticar", revelou o atleta.

Outro caso é o de António Bandeira, de 12 anos. "Jogo râguebi desde os 8 anos. Tinha uns amigos que jogavam râguebi, os meus pais incentivaram-me, fui fazer um treino e gostei bastante, então decidi ficar", explicou.

"Os meus amigos jogavam por Direito, a minha família também era adepta de Direito então eu escolhi jogar aqui. Mesmo quando ainda não jogava, sempre gostei da equipa", contou António Bandeira.

Mas nem tudo é só jogar e Duarte Fonseca explicou como funciona o trabalho com estes jovens atletas. "Fazemos dois treinos por semana, à quarta-feira e ao sábado. Mas se tivermos convívios, que é o que chamamos aos torneios normais, já não treinamos", disse.

"Acho que é importante eles terem outras atividades e outros desportos fora do râguebi. Temos aqui jogadores que são surfistas, e que conseguem complementar isso com o râguebi. Nós somos uma equipa de seis treinadores, no final de cada semana eu mando o treino para os meus colegas, falo com eles e gosto que mudem o que acharem melhor para que todos possam aportar as suas experiências, porque isso é vantajoso para os miúdos. Porque uns dão mais importância a um pormenor e outros a outro. Os treinos têm de ser muito lúdicos porque são atletas muito novos", explicou Duarte Fonseca.

Rugby Youth Festival
O jogo entre Agronomia e Direito no escalão sub-13 créditos: Cátia Leitão

O estigma da violência

Nos valores passados aos jovens jogadores de râguebi a violência não tem espaço. "O râguebi não é nada violento, é um desporto duro, é um desporto de contacto, mas violento não é. Aliás, violência nós não queremos aqui", garantiu o treinador de Direito, explicando de seguida como funcionam as penalizações no râguebi.

"Quando há violência as penalizações são muito grandes. Há penalizações em que o jogador não pode jogar durante cinco ou seis semanas, ou mesmo seis meses, depende. Só por falar mal com o árbitro, um jogador pode ir para a rua. Por exemplo, um amarelo aplica-se logo no jogo, ou seja, se um atleta levar um amarelo tem de vir cá para fora durante dez minutos e a equipa é penalizada no próprio jogo, não passa para o jogo a seguir. São regras muito mais justas", afirmou Duarte Fonseca.

Afinal o râguebi não é aquele bicho papão que eu achava que era, não é nada violento como eu pensava. Eles adoram e eu também - Fátima Ferreira, mãe de André e Tomé

Quem sabe do que fala, garante que o râguebi não é um desporto violento. No entanto, às vezes é preciso "ver para crer", principalmente quando falamos dos pais de futuros praticantes.

Fátima Ferreira levou os dois filhos gémeos, André e Tomé de 11 anos, ao Rugby Youth Festival onde estes representaram o GDA (Grupo Desportivo Alcochetense). Mas, Fátima admitiu que inicialmente teve receio de inscrever os dois filhos na modalidade.

"Eles jogam râguebi há dois anos, começaram com 9 anos. Inicialmente eles apareceram em casa com a ideia de que queriam jogar râguebi. Eu admito que ao início não queria porque tinha uma imagem do râguebi muito diferente daquilo que na realidade é. Entretanto eles lá me convenceram e foram um dia experimentar. Afinal o râguebi não é aquele bicho papão que eu achava que era, não é nada violento como eu pensava. Eles adoram e eu também", revelou Fátima Ferreira.

A mãe de André e Tomé referiu ainda que "o ambiente é ótimo entre os atletas, dão-se todos muito bem, entre pais é igual. Respeitam-se muito. A imagem que eu tinha do râguebi, de que era uma modalidade violenta, desapareceu. Nunca tiveram lesões e sabem que mais importante que ganhar é respeitar o adversário em campo, respeitando o adversário nunca haverá problemas. Estamos viciados nisto".

Fátima Ferreira e os filhos não são os únicos "viciados" no râguebi, embora em Portugal existam apenas 7 mil atletas federados na modalidade, que é a 17º mais praticada no país. Mas, como tem apaixonado jovens até aqui, o râguebi promete 'agarrar' cada vez mais amantes da modalidade.

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