O futebol é um dos maiores agregadores de massas, despertando paixão, emoções exacerbadas e sendo um dos principais catalisadores da prática desportiva no nosso país. Como é óbvio, a grande maioria dos aficionados está intimamente ligada ao futebol 11, embora comecem a aparecer outras vertentes que estão a cativar cada vez mais adeptos.

Se o caminho do futsal já tem vindo a ser trilhado há alguns anos e está completamente estabelecido em Portugal (não é por acaso que temos das melhores equipas e seleções do Mundo), está a aparecer um novo parente nos últimos tempos, que promete mudar o paradigma.

O futebol de 7 começou por ser uma "modalidade menor", apenas praticada por grupos de amigos que desejavam recuperar as emoções do desporto-rei, mas não o conseguiam por incapacidade física de jogar num campo tão grande ou simplesmente pela dificuldade de arranjar elementos (quem já tentou organizar 'futeboladas' sabe a que me refiro). Neste momento, já ninguém pensa desta maneira e é uma competição séria que, embora ainda amadora, já consegue reunir centenas de equipas e milhares de participantes por todo o país, em eventos regionais, nacionais e até internacionais.

Nesse sentido, o SAPO Desporto conversou com os responsáveis das duas maiores ligas existentes em Portugal, a Associação Portuguesa de Mini Football e a Socca Portugal, para tentar perceber a que se deve a explosão do fenómeno e até onde pode evoluir para continuar a ajudar futebolistas, jovens e mais experientes, a perpetuarem o sonho de marcar golos, vencer jogos e conquistar troféus.

As origens do que se tornou um sério caso de popularidade remontam a 2007. Nessa altura, o fundador da AP Mini Football - a primeira liga a surgir - era proprietário de vários campos de futebol de 7 e identificou uma grande afluência de marcações à semana, que era muito mais reduzida ao fim de semana. Para ajudar o negócio, criou uma competição amadora, que na altura se denominava "Superliga Nacional" e que de pronto teve grande adesão no Porto e em Lisboa.

"Inicialmente, as equipas eram compostas por jogadores mais velhos, que só queriam um pouco de competição. No entanto, a liga foi crescendo gradualmente, até ao ponto em que já não havia campos para tanta procura. Foi aí que percebemos que tínhamos de expandir os nossos horizontes e que havia capacidade para fazer mais", começou por explicar João Silva, o coordenador regional da zona Norte da organização.

E assim foi. O fenómeno alastrou-se por Portugal, sendo que neste momento já conta com 15 mil atletas, divididos por 320 equipas, só nesta liga, que jogam em vários pontos do país: Porto, Lisboa, Algarve, Leiria, Pinhal Novo, Barreiros, Oeiras, Cortegaça, Vila do Conde, Vilas das Aves e Braga . O crescimento permitiu começar por organizar pequenos eventos nacionais, além das provas regionais, onde as equipas se juntavam numa cidade e jogavam entre si, sendo que agora há um campeonato nacional com várias etapas, para além de várias divisões, especialmente nos dois grandes polos habitacionais.

Mini Football
Mini Football créditos: Mini Football

Um mercado de transferências similar ao profissional

No princípio, as equipas era maioritariamente compostas por grupos de amigos, que queriam ter alguma competitividade e jogar futebol noutro tipo de contexto. Mas o que começou por ser uma boa forma de "juntar a malta" como desculpa para convívios e jantares, rapidamente se transformou noutra coisa. Atualmente, as equipas que lutam por objetivos maiores, como marcar presenças nos campeonatos nacionais ou subir de divisão, adotaram um modelo diferente de construção do plantel. 

Além de procurarem reforçar-se com atletas que ainda mantêm a atividade no futebol federado, de modo a trazer jogadores com um ritmo de jogo diferente, também já há uma espécie de 'scouting' noutra equipas, onde se selecionam os melhores para fortalecer os candidatos aos troféus. No entanto, isto pode trazer um problema.

"O nosso principal objetivo é proporcionar aos jogadores uma fantástica experiência, que se calhar não conseguiram usufruir quando jogaram futebol de 11 ou futsal. Queremos os melhores, mas percebemos que tem de haver um limite, porque não faz sentido misturar jogadores amadores, que na maioria dos casos só jogam futebol de 7, com atletas semi-profissionais, como às vezes aparecem. Por isso, impedimos as inscrições de jogadores que joguem da Liga 3 para cima, porque já é um desnível muito grande", revela Ricardo Monteiro, o responsável nacional e fundador da Socca Portugal.

Esta liga surgiu há bem menos tempo, tendo sido criada em 2021, durante a pandemia, por dois sócios que já tinham conhecimento de como funciona este tipo de provas e, por isso, já tinham "os passos necessários devidamente estruturados". Sendo mais recente, a Socca Portugal tem também um conceito diferente, até porque apenas é constituída por 120 equipas, com natural destaque para Porto e Lisboa (32 emblemas cada).

"Sabemos o que queremos fazer e defendemos a competitividade, mas sem valer ganhar a todo o custo. Optamos por ter uma liga mais reduzida, onde os intervenientes já se conheçam e, embora queiramos que haja rivalidade e disputa dentro de campo, quando saem das quatro linhas a ideia é que todos se relacionem bem", assume o dirigente, revelando ainda que prioriza nas equipas "a organização, pontualidade e o respeito por todos os intervenientes".

Socca
Socca créditos: Socca

Desejo de ganhar, mas com senso comum

Qualquer pessoa que já tenha jogado futebol sabe que, por vezes, as emoções ficam difíceis de controlar. E se no futebol profissional há ocasiões em que os limites são ultrapassados, certamente imagina que isso também pode acontecer nesta competições.

Tanto a AP Mini Football como a Socca Portugal, têm um membro da organização (por vezes dois) e um árbitro prontos para garantir que o jogo corre como é suposto, que todos se divertem e que reina um sentimento de justiça e verdade desportiva que qualquer competição necessita. No entanto, tudo o que envolve bola à mistura pode gerar ânimos exaltados, mas a tolerância para quando os limites do bom senso são ultrapassados é zero.

"Toda a gente aqui conhece o futebol e sabe o que provoca nas pessoas. Mas já irradiamos jogadores e equipas por mau comportamento e isso não é negociável. Já perdemos bons árbitros, que não estão para se sujeitar a certas atitudes, devido a momentos em que as coisas se descontrolaram e, por isso, temos de filtrar as pessoas que podem participar nas nossas ligas. Essas pessoas vão sendo identificadas e não voltam a jogar nas nossas provas", conta João Silva, o que também vai ao encontro da ideologia traçada por Ricardo Monteiro.

Uma das ideias partilhadas pelas duas organizações em relação a este tema, e que já foram equacionadas por ambas, é a existência de segurança privada e policiamento nos jogos, algo que no patamar atual ainda é considerado inviável. As ferramentas utilizadas para combater este problema são a consciencialização das equipas em relação à necessidade de imperar o desportivismo e o bom senso, além do apelo a que é necessário o respeito por todos os envolvidos de modo a que o divertimento se alastre à totalidade dos intervenientes (jogadores, treinadores, árbitros e colaboradores).

Socca
créditos: Socca

Competições nacionais, com olhos postos no estrangeiro

O nível em que as duas entidades já estão permite ultrapassar as fronteiras nacionais e participar em Campeonatos da Europa e Mundiais, com alguma regularidade. No entanto, a forma de seleção ainda é diferente. Na AP Mini Football existe um selecionador nacional, que vai marcando presença nos torneios nacionais, de modo a elaborar uma lista de pré-selecionados que depois têm oportunidade de mostrar o que valem nos estágios de observação. Daí surge a lista final que representa a organização e, consequentemente, as cores da nossa bandeira.

Já a Socca Portugal, fruto da sua juventude enquanto liga, ainda opta por permitir ao campeão nacional ser o representante português nestes torneios, sendo que há ainda espaço para os melhores das outras equipas completarem a seleção. Como há vários jogadores estrangeiros a participarem nas competições, só é permitida a escolha de atletas que possuam cartão de cidadão português, até porque esse é um dos requisitos das federações europeias e mundiais.

Uma das questões que ainda é um problema para Portugal, é o facto de estas competições serem disputadas num formato de futebol de 6, que se aproxima mais do futsal no estilo de jogo. No nosso país a maioria das infraestruturas existentes é de futebol de 7, modalidade que todas as ligas privilegiam, o que significa um esforço extra na hora da preparação para as provas internacionais.

Quanto ao futuro, a criação de uma liga nacional de futebol de 7, onde as melhores equipas possam participar de forma exclusiva é o grande objetivo para a AP Mini Footbal, enquanto a Socca Portugal deseja implementar uma Liga 2 nas localidades mais pequenas (sendo que Porto e Lisboa já têm quatro patamares cada) e sonha em ter equipas a participar regularmente na Liga dos Campeões da modalidade.

Socca
Campeões nacionais de futebol de 7. Socca créditos: Socca

Grupos de amigos, que crescem até se tornarem numa equipa

Como em todas as competições e modalidades coletivas, não há boas ligas, sem haver boas equipas. Nesse sentido, e para percebermos o processo de criação de uma equipa, fomos conhecer o TANK/ASA METALS, um emblema criado em 2021, cujo nome se baseia numa brincadeira de infância, e que neste momento compete na Elite do Porto da AP Mini Football, uma das divisões mais fortes a nível nacional e de onde saem muitos dos convocados para as provas internacionais.

O que inicialmente começou como um grupo de amigos, rapidamente deu para perceber que poderia ser algo mais. Do fundo do futebol de 7, até ao topo foram vários passos, mas que tiveram as suas dificuldades. "O principal desafio é ter atletas de compromisso. Sabemos que a vida profissional e pessoal tem prioridade, mas não importa haver muita qualidade, se depois não houver assiduidade e continuidade", assume Daniel Santos, o responsável e guarda-redes da equipa portuense.

Quando a dimensão aumenta e já não é só pela diversão, começam as escolhas difíceis. Daniel Santos explica que é preciso saber "gerir pessoas e egos", além de ter muita organização para poder honrar os compromissos. Para se perceber, a entrada na competição custa 1100 euros, além dos 50 euros por jogo para despesas de campo e da organização, valores que só são possíveis de comportar com a ajuda de patrocínios. Sim, leu bem. O nível da competição está tão alto, que já há empresas a associarem-se aos clubes, uma vez que compreendem a visibilidade que a modalidade oferece.

E para ter sucesso desportivo? Aí, o dirigente dos TANK/ASA METALS, que também acumula funções como guarda-redes, acredita que é crucial "ter um bom treinador" além de ser obrigatório reinar um "espírito de equipa, onde todos remam para o mesmo lado". Quanto aos objetivos, o emblema do Porto quer cimentar-se na principal divisão regional, para depois sonhar com voos mais altos.

TANK/ASA METALS
créditos: TANK/ASA METALS

Esta é a síntese do fenómeno que tem conquistado futebolistas de Norte a Sul do país e que tem proporcionado experiências únicas a muitos atletas. Ainda assim, e apesar de o crescimento ser notório e veloz, ainda há muito por onde evoluir e tanto a AP Mini Football como a Socca têm contribuído (e de que maneira!) para o futebol de 7 se tornar, cada vez mais, uma modalidade de referência, em vez de apenas uma alternativa àqueles que querem fugir dos compromissos mais exigentes do futebol de 11 e dos que não encontram no futsal a sua praia. 

É um meio termo que está cada vez mais cimentado no universo futebolístico e que tem potencial para atingir patamares de excelência, promovendo sempre o desportivismo, a competição e a propagação dos valores de fair-play e inclusão que são a essência do desporto-rei.