O mundo do futebol foi abalado na noite de domingo, com o anúncio da criação da Superliga Europeia. Uma ideia que já estava a ser 'cozinhada' há muitos anos pelos clubes mais ricos da Europa.

A notícia abriu uma 'guerra' entre os 12 clubes fundadores e a UEFA e FIFA, organismos que se opõe à esta ideia, tal como aconteceu há 11 anos quando os clubes de basquetebol mais ricos da Europa entraram em colisão com a Federação Internacional de Basquetebol e criaram a sua própria liga.

Foi em 2000, quando Real Madrid, Barcelona, Baskonia, Olympiacos, Zalgiris, Bennetton de Treviso, Kinder Bologna, AEK de Atenas e Fortitudo Bologna, os emblemas mais poderosos do basquetebol europeu, decidiram criar a União das Ligas Europeias e uma nova prova, Euroleague, para ocupar o espaço da Taça da Europa, que estava sob a égide da FIBA Europa.

Tal como acontece agora com a Superliga Europeia de futebol, os clubes de basquetebol queriam mais poder de decisão e gestão da modalidade a nível europeu. A decisão nasceu depois de um contrato televisivo da FIBA Europa com uma empresa suíça, no valor de 20 milhões de dólares, algo não aceite pelos clubes já que, até aquele momento, eram eles quem negociavam os seus direitos audiovisuais.

Ameaças e tribunais

Na altura a FIBA não aceitou e ameaçou expulsar todos os clubes fundadores da nova prova da sua organização, prometendo afastar os jogadores desses emblemas dos jogos das suas seleções e, consequentemente, das grandes provas como Europeus, Mundiais e Jogos Olímpicos. A ameaça nunca passou disso mesmo: ameaça.

A 16 de outubro de 2000 nascia oficialmente a Euroleague, com o jogo entre o Real Madrid e o Olympiacos (75-73). Nessa época, a Europa teve dois campeonatos de clubes a decorrerem em simultâneo: a Suproliga, organizada pela FIBA e ganha pelo Maccabi de Telavive, de Israel, e a Euroleague, ganha pelos italianos do Kinder Bologna. Além da prova principal, foi criada também a Eurocup, equivalente à Liga Europa de futebol da atualidade.

No ano seguinte, algumas equipas da Suproliga da FIBA Europa passaram para a Euroleague. Em 2004, as duas organizações - FIBA e União das Ligas Europeias - fizeram as pazes: a FIBA reconheceu a Euroleague como máxima competição de clubes, ficando as provas de seleções a cargo da FIBA.

Paz 'podre'

A paz entre os dois organismos foi interrompida quando em novembro de 2015, a Euroleague celebrou um contrato de 10 anos, no valor de 630 milhões de euros, com a IMG, para a gestão e exploração dos direitos audiovisuais e de marketing da prova. Um contrato que se juntou ao firmado com a Turkish Airlines por 15 milhões de euros em 2010. O montante ajudou a recriar a prova, passando esta para uma competição de 16 equipas, num sistema de todos contra todos, com mais jogos ao longo do ano e novos critérios de admissão de novos membros.

No novo formato, Real Madrid, Barcelona, TD Systems Baskonia, Panathinaikos, Olympiakos, Fenerbahçe, Anadolu Efes, CSKA Moscovo, Maccabi Tel Aviv, Zalgiris Kaunas, Olimpia Milano, Bayern Munique e ASVEL Lyon, equipas de licença A, asseguraram a sua participação na prova por um período de dez anos, sendo que as restantes equipas entrariam por convite. Há duas licenças adicionais que este ano foram atribuídos ao Bayern Munique e ao ASVEL Lyon Villeurbanne, outras duas licenças são dadas ao campeão da Eurocup e ao finalista da segunda prova da União das Ligas Europeias. As outras três licenças são atribuídas todos os anos, uma delas já foi dada ao Alba Berlim por duas temporadas.

CSKA Moscovo vs Fenerbahçe
CSKA Moscovo e Fenerbahçe disputaram a final da Euroliga de basquetebol créditos: John MACDOUGALL / AFP

O mérito desportivo deixava de contar para fazer parte desta nova Liga europeia de basquetebol. Além disso, a Euroleague garantiu que os seus jogadores não tinham obrigação de participarem em jogos das seleções organizadas pela FIBA.

A FIBA tentou dar a volta e criou a Liga dos Campeões. Convidou Anadolu Efes, CSKA Moscovo, FC Barcelona, Fenerbahçe, Maccabi Telavive, Olympiacos, Panathinaikos e Real Madrid para a nova competição, mas estes emblemas recusaram e permaneceram na Euroleague. A prova da FIBA avançou, premiando os clubes campeões nos respetivos países, com o mérito desportivo a permanecer como critério para aceder à competição, ao contrário da Superleague.

Além disso, a FIBA ameaçou vetar a participação de jogadores da Euroleague no Europeu de basquetebol de 2017, algo que algumas federações não aceitaram. A União das Ligas Europeias colocou uma providência cautelar para impedir as sanções. Os clubes rebeldes ganharam numa primeira instância e a FIBA e a FIBA Europa ficaram impedidas de aplicar sanções às ligas ou federações nacionais se os seus clubes participassem na Euroleague ou Eurocup. Também os dois organismos não podiam excluir as seleções dos seus torneios.

Mas, 21 dias depois, um Tribunal de Munique levantou a suspensão o que permitiu à FIBA sancionar clubes, ligas e federações.

Os ricos ganharam

Entre ameaças e trocas de acusações, algumas federações europeias suspenderam os seus clubes das provas internas, os clubes italianos deixaram a Eurocup. Numa tentativa de aproximação, a FIBA prometeu ao vencedor da Liga dos Campeões um lugar na nova Euroleague mas os clubes da União das Ligas Europeias rejeitaram, por entenderem que este estaria a passar do terceiro para o primeiro escalão do basquetebol europeu.

Em 2017 a Federação italiana recuou e deu liberdade de escolha aos seus clubes: Liga dos Campeões ou Euroleague.

Nesta guerra, ganharam os ricos já que a Euroleague e a Eurocup passaram a ser as principais provas de clubes do basquetebol europeu.

Real Madrid vs Barcelona
Real Madrid vs Barcelona créditos: KIKO HUESCA/EPA

Resta saber como será no futebol. Nesta altura, os 12 clubes fundadores parecem estar isolados já que outros emblemas estão contra esta liga dos ricos, assim como adeptos, jogadores, treinadores, dirigentes e políticos proeminentes. Toda as federações que se manifestaram até agora mostraram-se contra esta nova competição de elite na Europa. A UEFA conta com o apoio das mesmas para travar a nova competição, numa guerra onde tem a FIFA do seu lado.

FIFA e UEFA já ameaçaram excluir das suas provas clubes e jogadores que participem na Superliga Europeia.

Segue-se agora uma guerra que passará pelos tribunais e que fará correr muita tinta.

E no futebol? Eis a nova Superliga europeia

No domingo, AC Milan, Arsenal, Atlético de Madrid, Chelsea, FC Barcelona, Inter Milão, Juventus, Liverpool, Manchester City, Manchester United, Real Madrid e Tottenham anunciaram a criação da Superliga europeia, à revelia de UEFA, federações nacionais e vários outros clubes.

A competição vai ser disputada por 20 clubes, 15 dos quais fundadores – apesar de só terem sido revelados 12 – e outros cinco, qualificados anualmente.

A UEFA anunciou que vai excluir todos os clubes que integrem a Superliga, assegurando contar com o apoio das federações de Inglaterra, Espanha e Itália, bem como das ligas de futebol destes três países.

Entretanto, o organismo que rege o futebol europeu anunciou o alargamento da Liga dos Campeões de 32 para 36 clubes, a partir de 2024/25, numa liga única, em que cada equipa joga contra 10 adversários, cinco jogos em casa e cinco jogos fora.

Os oito melhores classificados vão ser apurados diretamente para os oitavos de final, enquanto os classificados entre o 9.º e o 24.º lugar vão disputar um ‘play-off’ para apurar outras oito equipas.

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