O antropólogo Daniel Seabra disse hoje à Lusa que o futebol cria um “contexto favorável” para o aparecimento da agressividade em torno do fenómeno desportivo, uma vez que “encena uma confrontação entre duas partes” a que os adeptos aderem.

Questionado pela Lusa sobre os insultos racistas de que foi alvo o futebolista maliano Moussa Marega (FC Porto), no estádio do Vitória de Guimarães, Daniel Seabra, autor de um livro sobre as claques de futebol em Portugal, lembrou que o racismo “não se confina nem é um problema exclusivo” destes grupos.

O futebolista pediu para ser substituído e retirar-se de campo ao minuto 71 do jogo da 21.ª jornada da I Liga, entre o FC Porto e o Vitória de Guimarães (2-1), depois de ter sido alvo de cânticos e gritos racistas por parte de adeptos da equipa minhota.

Depois de ouvir “relatos” de pessoas afetas às claques de FC Porto e Vitória, o antropólogo percebeu que a zona de onde partiu a manifestação “não é de claques”, referindo que o fenómeno racista “está para além das mesmas”.

Alertando que manifestações racistas nos estádios “estiveram sempre presentes”, com vários exemplos ao longo dos últimos anos, esta teve um impacto muito maior. “Não me recordo de uma manifestação com tal intensidade”, afirmou.

“No fenómeno desportivo é importante sublinhar que muitas vezes este racismo é instrumental, usado para prejudicar o jogador da equipa adversária. Isso também esteve presente domingo”, referiu Daniel Seabra, que ainda assim explica que este caráter da ação “não atenua a gravidade” do ocorrido.

Segundo o antropólogo, mostra “que há em Portugal pessoas que são racistas, mas mostra também que há por parte de muitos outros cada vez menos tolerância” para esse tipo de insultos, ainda que não surpreenda “que no contexto atual um certo racismo escondido esteja a manifestar-se com mais frequência”.

“O contexto do futebol, nalguns casos, é predisponente e facilitador para que algumas pessoas que já são racistas no quotidiano possam, na consequência do futebol gerar tensões, ter comportamentos racistas”, acrescentou.

Pela sua “dimensão mimética”, em que a vitória ou derrota e a oposição de uma equipa de cada lado, numa espécie de “batalha estilizada”, o futebol apresenta-se “como uma luta entre dois clubes, sabendo-se que não são entidades isoladas, inscrevem-se em localidades ou regiões”, ou, em casos de seleções, sendo mesmo representações nacionais.

Por serem, então, “veículos de manifestações identitárias”, os clubes envolvem-se num jogo de “tensões”, num contexto que Norbert Elias, sociólogo alemão autor de “O Processo Civilizador”, estudou.

Segundo o autor, que trabalhou o tema na Universidade de Leicester, as emoções do futebol levam a que alguns “impulsos agressivos” que “todos nós controlamos no quotidiano sejam extravasados, libertados”, dentro de um espaço que foi legislado e institucionalizado”.

“O próprio desporto e o futebol descendem de jogos medievais muito mais violentos. Toda a institucionalização a que o futebol foi sujeito visa controlar esta agressividade. Se analisarmos a história do futebol, vamos analisar também a história da violência a ele associada”, explicou.

Segundo o antropólogo, não é certo “que o futebol seja hoje mais violento do que há muitos anos atrás”, contrariando uma “visão romanceada” sobre um passado mais pacífico do desporto.

“Há hoje é menos tolerância para com a violência, que é mais difundida por uma comunicação social muito mais presente”, considerou.

Em 2019, Daniel Seabra lançou “Claques de Futebol: O Teatro das Nossas Realidades”, uma versão de uma tese de doutoramento que expõe um trabalho de investigação levado a cabo desde 1992 com várias claques nortenhas, mas de “abrangência nacional”.

Um dado que salta à vista é a “heterogeneidade”, mas também “a questão da extrema direita e a sua influência”, e que “é mais ténue do que se pensa”, uma vez que há também a prevalência “dos partidos de esquerda”, sendo que os partidos mais afastados do centro, para um lado ou outro, acabam por ter mais peso, explicou por altura da apresentação da obra.

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