Princípios de jogo. Variação tática. Posicionamento defensivo. Exploração do espaço interior. Controlar a profundidade. Bola descoberta.

Nos últimos tempos, o 'futebolês' tem vindo a ser substituído por expressões mais académicas ligadas ao futebol. Os treinadores vindos das universidades começaram a ganhar o seu espaço em relação aos formados no relvado, na aprendizagem enquanto atletas. Nos comentários televisivos, mas também na imprensa escrita, os antigos treinadores deram lugar a uma juventude mais técnica a nível de linguagem.

Com o crescimento do jargão futebolístico, crescem também os interessados em ver o futebol para lá do resultado. Os 'treinadores de bancada' agora interessam-se pela forma como joga determinada equipa, dedicam-se à análise dos jogos, a serem 'olheiros' por conta própria. Nas redes sociais, mas também na blogosfera, vão surgindo vários espaços de debate sobre o desporto rei e as estratégias de cada treinador.

E nem sempre quem mais ganha é quem mais nos apaixona. Por isso, pegámos nos casos de três treinadores cujo futebol nos encantou em 2018 e fomos ouvir a opinião de Marcelo Chagas e Pedro Bouças, ambos treinadores de futebol, e ainda seis jovens que colaboram com o blog/página do Facebook 'Domínio Tático', um dos muitos espaços de análise que pululam nas redes sociais.

O que distingue Maurizio Sarri, Pep Guardiola e Quique Setién? O que os aproxima? Que jogar é esse destes três técnicos que apaixonaram o mundo do futebol em 2018? Bom, na verdade, Guardiola já nos tinha apaixonado no Barcelona, mas a sua segunda época no Manchester City, com recordes e mais recordes na Premier League, não deixa ninguém indiferente.

Valorização da posse de bola, jogar de forma apoiada, ter a equipa montada para dar sempre mais que uma linha de passe ao portador da bola, dar prioridade à construção pelo corredor central, movimentações constantes dos jogadores, variações táticas constantes ao longo do jogo: assim são as equipas de Guardiola, Sarri e Setién. Três ideias de jogo 'colhidas' na mesma 'árvore': Johan Cruijff, o 'pai' do futebol moderno.

O revolucionário 'mágico' holandês defendia a primazia da inteligência sobre o físico, o jogar coletivo, a ocupação de espaços e a pressão constante para não deixar o adversário jogar e ganhar rapidamente a bola, o guarda-redes como primeiro atacante e o avançado como primeiro defensor, a posse de bola como meio para atingir vários objetivos (atacar, manter a posse para frustrar o adversário). Com ele, a tática passou a ser tão importante como a técnica.

Pep Guardiola: o criador que odeia o nome da cria

Pep Guardiola é um alucinado pelos pormenores. Cresceu a aprender com os melhores, como Johan Cruyff, Bobby Robson, técnicos que o orientaram no Barcelona, onde era capitão e um grande médio centro. Mas foram as ideias do mágico holandês que acabaram por guiá-lo ao sucesso. Como treinador, começou no Barcelona B onde foi campeão da terceira divisão espanhola, em 2008. No final da época transitou para a equipa principal, onde esteve durante três épocas, vencendo tudo o que havia para ganhar: dos 19 títulos que disputou, conquistou 14.

O seu futebol de posse, de pressão constante, de blocos juntos, defesas altas, falso 9 na frente, foi apelidado de 'tiki-taka', embora Pep odeie esse nome. A Seleção de Espanha aproveitou a base e as rotinas do Barcelona para ser campeão do Mundo em 2010 e da Europa em 2012. Além do futebol que encantou a Europa, é de destacar os jogadores que cresceram com Guardiola: Busquets, Thiago Alcântara, Pedro Rodriguez, entre outros.

Tem forte capacidade de adaptação. Para mim, é por isso que está acima de todos os outros: tem uma identidade bem vincada e ao mesmo tempo é altamente estratégico.

Mas é no lado estratégico do jogo que o catalão mais se destaca. Pedro Bouças, treinador de futebol e criador do site 'Lateral Esquerdo', elogia a forma como Guardiola prepara os jogos em função dos adversários, sem nunca perder a sua identidade.

"Vai ao pormenor de saber como se comporta a equipa adversária, até nas bolas paradas. E depois traça a sua estratégia em função do que o adversário faz. Tem forte capacidade de adaptação. Para mim, é por isso que está acima de todos os outros: tem uma identidade bem vincada e ao mesmo tempo é altamente estratégico. No livro sobre ele, Guardiola explica o golo do Bayern Munique na Luz de bola parada [2-2 na 2.ª mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, 2015/16], onde ele explica como estudou o Benfica e preparou a equipa até a exaustão para bater a defesa à zona nos cantos do Benfica", destaca.

Adaptar-se para 'mandar' na Premier League

Depois de ter falhado a conquista da Liga dos Campeões no Bayern Munique, Guardiola mudou-se para Manchester para guiar os 'citizens' e "ganhar de uma forma como nunca antes alguém ganhou". Contratou os jogadores que quis para a sua forma de jogar, mas, no primeiro ano, falhou o título. A crítica foi feroz, mas, na segunda época, o técnico mostrou que todos estavam errados: foi campeão e bateu oito recordes, entre eles o maior número de pontos (100), maior número de vitórias fora, maior número de pontos em casa . O City de 2017 tinha evoluído e para melhor, como nos explica Marcelo Chagas, treinador de futebol com funções de Analista de Performance no Cova da Piedade, da Segunda Liga.

Para Guardiola, quem tem a bola é que manda no jogo, e é com base nessa premissa que todas as dinâmicas ofensivas e todos os posicionamentos são pensados e executados.

"A principal diferença foi deixar que a perspetiva cultural do país e das características da Premier League penetrassem em Guardiola e não vice-versa. Apesar de ser evidente o seu cunho, e percebermos após 2/3 minutos que estamos a ver uma equipa treinada por Guardiola, no segundo ano foi evidente:

- Guarda-redes com preponderância em Organização Ofensiva sendo solução para ter vantagem numérica em construção curta e ter capacidade individual para construção longa quando os adversários queriam pressioná-los muito alto, tendo originado alguns golos.

- Centrais com características técnicas para sair e entender, depois de ter trabalhado no primeiro ano, ter mais consistência e confiança nesses processos e ainda contratação de centrais que encaixassem rapidamente neste paradigma, como Laporte e Jonh Stones.

- Criar vantagem numérica, com os Laterais a realizarem movimentos interiores, ficando quase como médios para ter mais gente para circular e, caso perdessem a posse, estar com mais gente próximo dessas zonas.

- Em criação ofensiva e estando instalados no meio-campo campo ofensivo, posicionamento diferente de Fernandinho e Alas, garantindo equilíbrios diferentes da primeira época - adversários com maior dificuldade em sair em contra-ataques.

- E maior competitividade interna no plantel em posições fundamentais para criar e marcar golos - Bernardo Silva, Sané, Gabriel Jesus".

Esta ideia é secundada por Blessing Lumueno, treinador de futebol e um dos seis colaboradores do 'Domínio Tático'.

"Para lá dos jogadores novos que entraram, que muito ajudaram a equipa a ter esta estabilidade, foi o maior compromisso da equipa para com as ideias do treinador quando tinham a bola que levou aos recordes. Repara que a equipa concede menos contra-ataques perigosos do que anteriormente, por força dos jogadores terem entendido que era fundamental não perder a bola de qualquer forma, em qualquer situação. Faz faltas em zonas mais adiantadas e evita fazê-las em zonas mais recuadas. Os jogadores, pelo maior compromisso, estão mais focados em controlar o adversário e estão mais competentes na resolução das situações com muito espaço e poucos colegas para defender. [...]  A superação nas bolas paradas defensivas, e a forma determinada como atacavam a primeira bola para não deixar o adversário 'ligar' as suas referências. Foi desta forma, convencendo os seus jogadores da sua ideia de jogo, que ele foi conseguindo resolver muitos dos problemas que tinha tido no ano anterior", explica-nos.

Como joga o Manchester City de Guardiola?

E em que se assenta este modelo de jogo de Pep, que tanto apaixona? Basicamente, tudo gira a volta da valorização da posse de bola, como explica Tiago Teixeira, fundador do 'Domínio Tático'.

City-United  Análise Domínio Tático
City-United Análise Domínio Tático créditos: Domínio Tático
City-United  Análise Domínio Tático1
City-United Análise Domínio Tático1 créditos: Domínio Tático
Análise City vs United-Domínio Tático
Análise City vs United-Domínio Tático créditos: Domínio Tático

"Para Guardiola, quem tem a bola é que manda no jogo, e é com base nessa premissa que todas as dinâmicas ofensivas e todos os posicionamentos são pensados e executados. Não se trata apenas de ter muita posse de bola, mas sim de saber o que fazer quando a têm, principalmente em ataque posicional, uma vez que é o momento do jogo onde o City passa mais tempo durante os 90 minutos.

Na construção, Walker junta-se muitas vezes aos dois centrais para uma saída a 3, sempre com o objetivo de criarem espaço para progredirem em condução, ou para, através do passe vertical, ligarem com os jogadores atrás da primeira linha de pressão adversária. Guardiola percebe melhor que ninguém os benefícios que existem em sair a jogar de forma curta e apoiada, e é muito raro ver o City construir de forma mais direta, mesmo quando são pressionados de forma agressiva.

No meio campo adversário, em zonas próximas da grande área adversária, as combinações nos corredores laterais (lateral, médio interior e extremo sempre muito próximos uns dos outros) são uma das imagens de marca de Guardiola. A maneira como combinam em espaços reduzidos - onde o tempo e espaço para pensar e executar são menores - é absolutamente deliciosa. Não se trata de ganhar a linha de fundo para cruzar de qualquer maneira, mas sim de criar condições para entrar com a bola controlada na grande área, muitas vezes para realizar um passe atrasado ou para o segundo poste.

Pelo corredor central, a utilização do passe vertical para ultrapassar linhas defensivas e apoio frontal para enquadrar um médio dentro do bloco defensivo - muitas vezes apenas com a linha defensiva pela frente - é uma das principais dinâmicas ofensivas de Guardiola. Quando o médio enquadra, os movimentos de rutura dos extremos (de fora para dentro) são uma constante, tornando o ataque à profundidade (mesmo que o adversário de posicione num bloco recuado) uma das principais armas ofensivas do City de Guardiola.

No momento defensivo, é impossível ficar indiferente à qualidade da transição defensiva do City. O facto de terem sempre muitos jogadores na zona onde perdem a bola - fruto dos posicionamentos em ataque posicional -, e a agressividade com que reagem quando a perdem, torna o City uma equipa extremamente competente nesse momento do jogo".

Liverpool mostra como condicionar o jogo do City (Imagens e edição: Marcelo Chagas)

Análise tática Liverpool vs Manchester City-Marcelo Chagas
Análise tática Liverpool vs Manchester City-Marcelo Chagas créditos: Marcelo Chagas
Análise tática Liverpool vs Manchester City-Marcelo Chagas1
Análise tática Liverpool vs Manchester City-Marcelo Chagas1 créditos: Marcelo Chagas

E como se trava uma equipa destas? É este o conceito que não colhe unanimidade. Há quem pense que vencer Guardiola é travar o técnico, mas os nossos analistas têm uma opinião diferente: travar alguém pressupõe um conjunto de jogos entre os técnicos, como acontece entre o catalão e José Mourinho, embora aqui com vantagem para Guardiola (dez vitórias contra cinco do português e sete empates).

Além de Mourinho, o Tottenham de Pochettino e o Liverpool de Klopp tiveram sucesso, embora que pontualmente, frente ao City de Guardiola mas, como explica Blessing Lumueno, isso não significa que tenham descoberto a fórmula para travar o catalão.

"Um jogo, dois jogos, nunca serão o espelho de uma época. E nunca serão, para mim, avalizadores de superioridade ou inferioridade de uma forma de jogar sobre outra. Até porque nesses jogos a equipa pode perfeitamente ter sido superior e ter perdido, ou ter sido inferior e ter ganho. O que define isso? As incidências de cada jogo. E em cada jogo há momentos e situações em que umas equipas superam as outras, e esses momentos podem ser mais decisivos para o resultado final do que o rumo que o jogo teve na maior parte do tempo", sublinha o técnico, colaborador no 'Domínio Tático'.

Maurizio Sarri, o treinador dos 33 lances de bola parada

Só depois dos 50 anos é que Maurizio Sarri começou a brilhar. Este ex-banqueiro de 59 anos andou, durante décadas, nos escalões mais baixos do futebol italiano, ao comando de equipas da Toscana como Faellese, Cavriglia, Antella, Valdema, Tegoleto e Sansovino, ao mesmo tempo que estudava Economia e trabalhava no Monte dei Paschi, o mais antigo banco do mundo em atividade. No banco onde trabalhava aprendeu "o valor da organização e da capacidade de decisão", como confessara mais tarde. Deixou o trabalho no Monte dei Paschi em 2000 para se dedicar em exclusivo ao futebol.

O facto de Sarri e Setién terem passado por contextos difíceis, por equipas menores, fez com que tivessem de crescer porque estiveram em equipas onde precisaram de procurar soluções coletivas para ganhar jogos

Foi em 2004 que ganhou mais visibilidade, quando levou o Sangiovannese até a Série C2. Andou depois pelo Pescara (2005), Arezzo (2006-07), Avellino (2007), Verona (2008), Perugia (2008-09), Grosseto (2010), Alessandria[3] (2010-11) Sorrento[4] (2011) e Empoli, todos clubes que tentavam a promoção à elite do futebol italiano. Foi neste último, que levou à Serie A, que Sarri começou a ser falado, pela forma como colocou o pequeno Empoli a jogar como equipa 'grande'. A Itália maravilhava-se com os princípios de jogo do homem que ficou conhecido no seu país como o 'Mister 33' por ter preparado 33 jogadas para utilizar em lances de bola parada durante a sua passagem pelo Sansovino. "Acabámos por usar apenas quatro ou cinco", explicou mais tarde. Sarri prepara-se para os jogos de forma meticulosa, estudando os adversários ao pormenor em busca de possíveis pontos-fracos.

Aurelio De Laurentiis, o sempre polémico presidente do Nápoles, não perdeu tempo e contratou-o em 2015. Durante três épocas na formação napolitana, Sarri continuou a maravilhar a Itália, mas agora também a Europa, que se rendia ao futebol dos napolitanos. Os seus colegas de profissão não ficavam indiferentes com o que viam, como Guardiola que o elogiou quando o seu City venceu o Nápoles por 2-1 no Ethiad para a 'Champions' em 2017/2018. "Defrontámos uma das melhores equipas que encontrei na minha carreira, talvez mesmo a melhor", disse, na altura, o catalão.

Com o tempo, Sarri foi-se refinando. Talvez isso explique o facto de só depois dos 50 anos tenha dado nas vistas. "O facto de Sarri e Setién terem passado por contextos difíceis, por equipas menores, fez com que tivessem de crescer porque estiveram em equipas onde precisaram de procurar soluções coletivas para ganhar jogos. Quem está numa grande equipa não precisa de elaborar tanto o jogo coletivo para ter sucesso. O percurso deles até os ajudou a tornarem-se mais competentes", explica Pedro Bouças.

"No início da carreira era mais rígido. Pensava que a tática era o mais importante. Agora sei que há uma criança dentro de cada jogador, e um treinador não se deve esquecer da parte lúdica do jogo, porque no fim de contas o futebol é isso mesmo, um jogo. Quando um jogador se diverte, joga duplamente bem", confessou Sarri.

A sua chegada tardia à ribalta talvez se explique por uma mudança (lenta) de paradigma no mundo do futebol, onde só ganhar já não basta.

"As boas ideias são o parente pobre do futebol quando comparadas com os resultados, mas parece que, atualmente, o paradigma está a querer mudar. [...] De referir, ainda, que as ideias de Sarri levam tempo a ser implementadas com sucesso. Em contrapartida, ainda são poucos os clubes que pensam num projeto a médio/longo prazo. Continua a existir uma obsessão pelo imediatismo, mesmo que seja vazio. Costumo dizer que a pior coisa que existe no futebol são os títulos construídos em cima de ideias pobres", explica-nos Sofia Oliveira, do 'Domínio Tático'.

Sarri: Organização defensiva de alta qualidade, Organização Ofensiva e as Transições

Marcelo Chagas, um admirador das ideias de Sarri, destaca a Organização defensiva de alta qualidade, Organização Ofensiva e as Transições como pontos fortes deste napolitano.

"Sarri destaca-se pelo rigor ímpar da sua organização coletiva e distâncias reduzidas entre setores no Processo Defensivo que há muito não se via (talvez desde os tempos de Arrigo Sacchi), atribuindo uma coerência e simplicidade ao processo ofensivo assente em associações e triangulações curtas - passe interior, apoio frontal e procura pelo espaço no lado contrário ou à profundidade nesse corredor", explica-nos este Analista de Performance.

No início da carreira era mais rígido. Pensava que a tática era o mais importante. Agora sei que há uma criança dentro de cada jogador, e um treinador não se deve esquecer da parte lúdica do jogo.

As ideias de Sarri são as mesmas, independentemente do clube onde esteja. Do 4-3-1-2 no Empoli ao 4-3-3 no Nápoles e no Chelsea, o técnico italiano trabalha ao pormenor cada situação de jogo. Embora pareça um pouco rígido, os posicionamentos escondem várias dinâmicas trabalhadas para ultrapassar praticamente todos os problemas coletivos que o adversário pode colocar, como explica André Desterro, do 'Domínio Tático'.

"A estrutura-tipo do Nápoles e do Chelsea dele na construção – imaginando por exemplo uma situação em que o central do lado direito tem a bola e o adversário pressiona num bloco médio – consiste em ter os dois centrais lado a lado, mas a uma distância razoável um do outro, para dificultar a vida dos avançados adversários na pressão; o médio defensivo aparentemente ‘isolado’, entre a linha avançada e média do adversário, e os dois médios interiores estão relativamente próximos do médio defensivo mas com posicionamentos ligeiramente mais adiantados. A ideia disto tudo é, no fundo, usar esta estrutura algo fixa para criar vantagens aos jogadores mais adiantados. Explicando melhor, se o adversário se focar completamente em tapar todas as linhas de passe para os médios e deixar o central conduzir, ele vai fazê-lo sem problemas e possivelmente ligar logo, pelo chão, com um dos três jogadores da frente. Se se focar em tapar o médio-defensivo, quase sempre Jorginho (como muitos fizeram), ele será ignorado numa primeira fase, mas encontrado posteriormente, muitas vezes com o central a passar diretamente ao médio interior que, estando de costas, toca de primeira para o médio defensivo. Estas dinâmicas de 3.º homem – que, muito resumidamente, é o conceito de o jogador A conseguir que a bola chegue ao jogador C sem lha passar diretamente, usando o jogador B como uma simples 'parede' – são o oxigénio do futebol de Sarri, cujas equipas as usam de forma quase constante para ultrapassar adversários".

Apesar disso, a sua rigidez tática já lhe causou alguns dissabores nalguns jogos. Recentemente, o Tottenham de Pochettino venceu o Chelsea por 3-1, num jogo onde a equipa de Sarri não conseguiu fazer a bola chegar em condições a Hazard e William, e Jorginho não conseguiu ligar jogo na zona central. Marcelo Chagas mostra, nas imagens que seguem, a forma como os 'Spurs' condicionaram o jogo do Chelsea.

Análise tática Tottenham Chelsea Marcelo Chagas
Análise tática Tottenham Chelsea Marcelo Chagas créditos: Marcelo Chagas

Análise tática Tottenham Chelsea Marcelo Chagas2
Análise tática Tottenham Chelsea Marcelo Chagas2 créditos: Marcelo Chagas

Análise tática Tottenham Chelsea Marcelo Chagas3
Análise tática Tottenham Chelsea Marcelo Chagas33 créditos: Marcelo Chagas

Análise tática Tottenham Chelsea Marcelo Chagas4
Análise tática Tottenham Chelsea Marcelo Chagas4 créditos: Marcelo Chagas

Este vídeo de Pedro Bouças, do 'Lateral Esquerdo', complementa a análise

Quique Setién: o 'xadrez' no futebol e o espetáculo como objetivo

Tal como Sarri, Quique Setién só chegou à ribalta depois dos 50 anos. Natural de Cantábria, Santander, o técnico de 60 anos teve uma carreira de altos e baixos como jogador profissional, tendo estado 12 épocas no seu Racing de Santander. Atuando na zona intermédia do terreno, jogou ainda no Atlético Madrid e Logrones, antes de terminar a carreira no Levante. Esteve na seleção Espanhola que disputou o Mundial de 1986 no México, mas não fez qualquer jogo.

Foram depois de seis épocas no modesto Lugo, clube que levou até aos campeonatos profissionais em Espanha (Liga Adelante), que Quique Setién começou a destacar-se. Tal com fez Sarri no Empoli, Setién tinha colocado o modesto Lugo a praticar um futebol romântico que encantava as gentes da cidade e levava cada vez mais pessoas ao Anxo Carro, o pequeno estádio onde joga o Lugo.

Não penso que os treinadores se devem adaptar aos jogadores. Antes pensava assim, mas nessa época não entendia de futebol.

Na génese da sua paixão pelo futebol espetáculo estão as ideias de Cruiff mas também os princípios do xadrez, que tão bem aplica em campo. É, por exemplo, um admirador das qualidades de Sergio Busquets, médio-centro do Barcelona, jogador capaz de ler o jogo antes de todos os outros, que raramente entra em duelos físicos para ganhar a bola.

"Temos um compromisso real com o que todos entendem como futebol vistoso e capacidade para ter o adversário no seu meio-campo. Sempre jogarei assim. Não penso que os treinadores se devem adaptar aos jogadores. Antes pensava assim, mas nessa época não entendia de futebol. Gosto da ordem, da disciplina, é fundamental. Desde criança que jogo xadrez e a ligação é igual: as peças se protegem e se ligam para atacar e defender. E é importante dominar o centro do tabuleiro", referiu Setién, em diversas entrevistas onde falou das suas ideias sobre o futebol.

Do modesto Lugo ao Unión Deportiva Las Palmas foi uma questão de tempo. Na equipa das Ilhas Canárias, Setién fazia a estreia na elite do futebol espanhol, em 2015/2016. Salvou a equipa da despromoção e, no ano seguinte, conseguiu mantê-la na Primeira Divisão, antes de se mudar para o Bétis. No clube da Andaluzia, conseguiu um 6.º lugar logo no primeiro ano e o apuramento para a Liga Europa desta época. Mas o que mais impressiona é a sua ideia de jogo.

Como o Bétis ultrapassou a barreira defensiva do Atlético Madrid no Wanda Metropolitano

"Foi a sua audácia e amplitude da equipa evidenciada em processo ofensivo que promoveu a sua ascensão e procura pelos seus métodos de trabalho. A equipa do Real Betis destaca-se pela capacidade de construir de forma apoiada desde trás, promovendo a participação ativa de quase todos os jogadores da linha defensiva e média para ultrapassar a pressão efetuada pelos seus adversários, não abdicando da forma como jogam em prol de nenhum resultado. Essa consistência de ideias tem feito os jogadores ganharem mais confiança nas suas ações e por sua vez, que o nível e fluência do jogo aumentasse qualitativamente", elogia Marcelo Chagas.

André Desterro, do 'Domínio Tático', destaca o facto de o técnico, mesmo com 60 anos, apresentar "as ideias da nova escola espanhola".

"Construção desde trás, mesmo quando pressionado, utilizando o guarda-redes e toda a largura do campo para encontrar espaços, muita calma em organização ofensiva para encontrar os melhores espaços e uma pressão bem agressiva. É uma equipa muito bem trabalhada quando tem a bola, o que provavelmente a distingue de outras que, tendo as mesmas boas intenções não as aplicam com tanto sucesso; já que é esse trabalho que lhes permite ultrapassar até as pressões mais agressivas com os apoios certos, coragem e precisão, para depois aproveitarem o espaço que criarem ao ultrapassar a pressão. O Bétis dele tem mais dificuldades do que tinha o Las Palmas na fase de criação, a meu ver, por não conseguir ser tão forte nos movimentos de rutura no último terço, mas tanto uma como outra são equipas altamente competentes a atacar", analisa André Desterro. Mas o Bétis de Setién também tem lacunas.

"Sem bola apresentam mais debilidades. A agressividade na pressão é lhes bastante útil, servindo para cortar várias potenciais transições, mas as referências da mesma são excessivamente individualizadas, e isso às vezes cria-lhes dissabores. E em organização defensiva são uma equipa com algumas deficiências estruturais, nomeadamente a descoordenação da linha defensiva, o que faz com que esteja ainda mais obrigada a dominar os jogos: quando o adversário se consegue superiorizar, cria-lhes invariavelmente imensas dificuldades.

Não obstante, há que dizer que não só é natural equipas deste perfil terem dificuldades em organização defensiva, como as equipas de Setién conseguem, de facto, dominar o jogo até contra adversários de valia individual superior. Isto vem claramente ao encontro da tal superlativa qualidade com bola das suas equipas, que até contra adversários muitíssimo superiores a eles se mostra. Basta ver que Setién foi o único treinador a conseguir ganhar tanto em Camp Nou como no Bernabéu com uma equipa que não Real ou Barça, o que não só parece contra-natura para um treinador tão ofensivo, como diz tudo da qualidade com que eles conseguem discutir a bola até com esses colossos e criar-lhes problemas", sublinha.

Setién, Guardiola e Sarri:  todos iguais, todos diferentes

Apesar de terem ideias próximas (controlar a posse de bola, entrar na defensiva contrária através de um jogo posicional), há diferenças entre estes três treinadores. Guardiola é, entre todos, o mais versátil, na opinião dos nossos analistas.

"Acho que ninguém vai fazer aquilo que o Guardiola fez. Ele tem essa capacidade de aliar o bom futebol ao lado estratégico do jogo e acaba por ganhar bastante com isto. [...] Teve a humildade de ir buscar um Ederson porque percebeu que quando é pressionado a campo inteiro, faz sentido ter um guarda-redes que mete a bola no meio-campo adversário por cima", destaca o treinador Pedro Bouças.

"Tanto procura num momento criar condições para os extremos receberem em condições ótimas para desequilibrar no 1 para 1, como procura por os interiores a receber com espaço entre a linha média e a linha defensiva. Tanto tem o avançado a esticar a linha defensiva com movimentos de rutura, como o tem a oferecer apoios frontais, a cair nas alas ou a tirar a referência aos centrais e criar jogo para junto dos médios. Toda uma variabilidade que tornam o futebol do City muito difícil de prever e consequentemente de parar", analisa Jorge Fernandes, do 'Domínio Tático'.

Sarri parece ser o mais rígido e, quando comparado com Guardiola, por exemplo, não vemos tanta variabilidade de soluções. Pedro Bouças alerta para a necessidade de o técnico italiano adaptar-se ao futebol inglês esta época, criando nuances para bater as defensivas contrárias nos anos seguintes e  "não jogar sempre igual, porque isso é o primeiro passo para que consigam anular-te".

"Sarri não procura tanto que os extremos se encontrem em situações de 1x1 com laterais, preferindo enquadrar o extremo esquerdo entre a linha media e a defensiva, juntando-se aos médios para criar, enquanto o extremo do lado oposto procura o movimento de rutura em diagonal nas costas da defensiva adversária para finalizar", sublinha Jorge Fernandes.

Menos versátil que Guardiola, o modelo de Setién não é tão padronizado como o de Sarri.

"Ao contrário de Guardiola, os extremos não garantem a largura, que é função dos laterais, mas antes aparecem em espaços mais interiores com movimentos para a profundidade, de modo a esticarem o espaço entre linhas para os médios utilizarem. Uma circulação mais lenta e menos vertical que aquela que encontramos nas equipas de Sarri e não com um bloco tão subido como o do City", analisa Jorge Fernandes.

Outra característica que os une é o facto de os três técnicos preferirem médios com grande capacidade de leitura de jogo, tecnicamente bem dotados. Jogadores que ganham a bola não pelo poder físico mas antes pelo posicionamento e leitura. Na frente também dão primazia a avançados móveis, extremos rápidos e com grande capacidade num 1x1.

Paulo Fonseca: uma 'lufada de ar fresco' no futebol português

Além dos três técnicos aqui analisados que nos apresentaram ideias de jogo apaixonantes, houve um treinador português a brilhar por esta Europa fora em 2017/2018, apesar de estar numa liga periférica. Falamos de Paulo Fonseca, técnico muito elogiado pelos nossos analistas. Pedro Bouças compara o ex-treinador do Paços Ferreira, FC Porto e SC Braga a Guardiola e colocou-o mesmo em condições de treinar um Barcelona ou um Bayern Munique.

Vídeo do golo da vitória do Shakhtar em casa do Hoffenheim para a Champions

"Da forma como prepara taticamente e tecnicamente os seus jogos, é de alguém que se aproxima dos melhores, e estou a falar aqui de um Guardiola. Por estar numa liga periférica, não é muito falado, mas Paulo Fonseca mostra ter competências superiores ao Sarri. E nem é por ter ganho ao Sarri [Shakhtar Donetsk venceu o Nápoles na época passada na Champions e apurou-se para os oitavos com o City, atirando os napolitanos para a Liga Europa] mas pela forma como monta as suas equipas. É treinador para qualquer grande da Europa. No seu modelo de jogo e o seu processo de treino, está num patamar a seguir ao Guardiola. Gostava de o ver num Barcelona ou num Bayern, equipas mais tradicionais no ataque posicional. É um treinador talhado para estas equipas", elogia.

Blessing Lumueno, que também é treinador da equipa B dos sub-17 do Estoril-Praia, também é admirador das ideias de Paulo Fonseca.

"É um treinador que gosta que as equipas tenham mais bola que o adversário, e que trabalha para que a partir disso possa criar dinâmicas ofensivas e estratégias para se defender da perda. Do ataque para a defesa. Na construção dois médios estão sempre envolvidos, criando uma espécie de quadrado com os centrais. E é essa a forma que encontra para a bola entrar com mais qualidade entre as linhas adversárias. O avançado tem liberdade para se movimentar por entre a linha defensiva, desde que garanta ser ameaça suficiente para “fixar” a linha em determinada posição para que abra espaço entre a linha defensiva e a linha média. Gosta de envolver os laterais no ataque, e que eles sejam parte fundamental dos movimentos que cria para desequilibrar. Raramente são os laterais a aparecer em cobertura; aparecem sim muitas vezes de uma segunda linha, para romper e surpreender por fora. Mesmo quando pensa em variar para o lado contrário, o lateral aparecer como 'joker' ofensivo a dar largura e profundidade. Os extremos aparecem dentro, e pegam na bola em posições com menos tempo e espaço para executarem. Mas, por se encontrarem em zonas mais centrais, teoricamente, ficam em posições mais favoráveis para acelerarem para a baliza e procurarem a finalização", analisa.

 Por estar numa liga periférica, não é muito falado, mas Paulo Fonseca mostra ter competências superiores ao Sarri.

Na sua terceira época no Shakhtar Donetsk, onde foi sempre campeão ucraniano, o técnico de 45 anos, natural do Barreiro, clama por outros voos. A forma como o seu Shakhtar tem-se exibido na Europa já despertou a atenção de muitas equipas, pelo que é uma questão de tempo até estar num projeto mais ambicioso, num campeonato com outra visibilidade.

As ideias aqui analisadas não implica que outros modelos sejam 'menores'. Os princípios de jogo de Simeone, por exemplo, podem não agradar a todos mas são eficazes naquilo que o técnico pretende.  Há um trabalho desenvolvido, no sentido de colocar a equipa a jogar daquela forma e a ter resultados.

Mas o que fica para os amantes do futebol são as ideias e os seus resultados. Sarri ou Setién podem nem vir a ganhar a Liga dos Campeões ou as Ligas espanhola e inglesa mas a forma como colocam as suas equipas a jogar não passam despercebidos a quem gosta de futebol.

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