O futebol brasileiro tem um novo protagonista português. Renato Paiva, conhecido pelo seu trabalho formador e pelo futebol ofensivo, prepara-se para a estreia no Brasileirão no comando do Botafogo, já este domingo, frente ao Palmeiras de Abel Ferreira. Um arranque exigente num dos campeonatos mais competitivos do mundo.

Com experiência no Independiente del Valle, Bahia e Toluca, o técnico português abraça agora um projeto ambicioso, num clube que quer voltar a lutar por títulos depois da última temporada de luxo e na qual conquistou quase tudo que havia para conquistar. Em entrevista exclusiva ao SAPO Desporto, o técnico luso revela as expectativas para esta nova etapa, fala sobre a pressão de comandar um histórico brasileiro e ainda dá a sua visão sobre a reta final do campeonato português.

"Prefiro mil vezes a pressão de jogar para ganhar todos os jogos do que de lutar para não descer"

SAPO Desporto: O que o motivou a aceitar o convite do Botafogo?
Renato Paiva: "O Botafogo é o atual campeão brasileiro, atual vencedor da Libertadores, um clube gigante, com uma massa adepta impressionante e exigente, munido de praticantes de exceção e que luta por objetivos altos. Sei que a fasquia está alta, mas é boa essa pressão, prefiro mil vezes a pressão de ter de jogar para ganhar todos os jogos do que a pressão de lutar para não descer. É um grande desafio, não sei se o maior da minha carreira, mas eu coloco uma tremenda exigência em todos os desafios. Chego a um clube acabado de ser campeão nacional e internacional, por isso é um desafio gigantesco olhando para todo o projeto."

SD: Como tem sido a adaptação ao clube e a este regresso ao futebol brasileiro?
RP: "Já não é a primeira vez que estou no Brasil, a minha primeira experiência foi no Bahia, mas hoje sou um treinador muito mais preparado e também estamos a falar de dois contextos bastante diferentes. O Bahia vinha da Série B, com 25 reforços, aqui é o campeão brasileiro. um clube gigante, com um plantel feito, uma realidade completamente diferente. Mas o Bahia ajudou-me como adaptação e conhecimento que tenho agora do futebol brasileiro."

Renato Paiva, treinador português
Renato Paiva, treinador português Renato Paiva, treinador português

SD: Qual foi a principal mensagem que John Textor lhe passou?
RP: "Uma mensagem afável, mas de grande exigência. Tem sido muito fácil lidar com ele, é um visionário, que acredita muito no seu trabalho. Gosta muito do que faz, adora futebol. Domina muitos conceitos do próprio jogo. Soube rodear-se de pessoas muito competentes que ajudaram o Botafogo a ser o que é hoje."

SD: Qual é o seu estilo de jogo e como pretende implementá-lo no Botafogo?
RP: "Há muita coisa bem feita pelo Artur e não seria inteligente da minha parte fazer uma mudança radical. Vamos introduzindo pequenas nuances. Queremos ser uma equipa equilibrada, dominante e com uma ideia de jogo atrativa aos adeptos e na qual os jogadores se sintam confortáveis."

SD: Considera que as saídas de Almada, Luiz Henrique, Junior Santos ou Tiquinho, deixaram o plantel mais débil na luta pelo título do Brasileirão?
RP: "Também chegaram outros jogadores. Mas não podemos andar a tentar encontrar substitutos para o Almada e para o Luiz Henrique. Não existe, não há. Esse é o meu trabalho, ligar as peças que chegaram e aproveitar isso dentro de um coletivo, na sequência do trabalho que o Artur Jorge fez na época passada."

SD: Como é que o balneário o recebeu e como tem sido o contacto com os jogadores?
RP: "Fui muito bem recebido, encontrei um grupo sedento de trabalhar e aprender. Este é um grupo muito trabalhador, ambicioso e sério. Tenho 16 treinos e eles acabam o treino e vão fazer ginásio por eles próprios. Vêm de uma época extraordinária, mas estão um bocadinho feridos por terem perdido o estadual e duas Supertaças. Não estão contentes, querem mais. E isso é ótimo."

SD "É um técnico que passou muitos anos na formação do SL Benfica. Como vê a base do Botafogo e o que espera dos seus jovens jogadores?
RP: "Sempre fui um treinador que gosta de olhar para os escalões de formação de qualquer clube. Essa é uma análise que está ainda a ser feita, estou no clube há pouco mais de um mês, mas já há jogadores sinalizados."

Referências: do futebol ao futsal, dos técnicos nacionais aos estrangeiros

SD: Quais são as suas principais referências como treinador?
RP: "Vários. José Mourinho... desde que entrei para o Benfica em 2004 vi a pré-época de vários treinadores como Trapattoni, Camacho, Fernando Santos, Koeman, Quique Flores, Jorge Jesus. Carlos Carvalhal abre-me as portas no V. Setúbal quando eu estava no futsal, foi muito importante. Luís Castro, mesmo como adversário quando eu estava no Benfica e ele no FC Porto. Saí do país, fui ver Guardiola, Sampaoli, Simeone. Vi muita gente e com todos aprendi muito.

SD: No Brasil, há uma cultura de troca rápida de treinadores. Como lida com esse tipo de pressão?
RP: "É uma cultura que espero que comece a mudar para que os projetos possam mostrar realmente as suas virtudes. Felizmente estou num clube em que quem decide acredita muito nos seus treinadores e apoia-os até ao limite. Diria que sou um privilegiado."

Renato Paiva num treino do Botafogo
Renato Paiva num treino do Botafogo Renato Paiva num treino do Botafogo créditos: Botafogo FR

SD: Qual a sua visão sobre o calendário apertado do futebol brasileiro?
RP: "A partir do jogo do Palmeiras vamos começar a jogar de três em três dias, com um trabalho mais explicativo do que no campo. Felizmente tivemos este período para trabalhar. Mas não há como ter mais dias, o calendário é o que é, temos de ser nós a adaptar-nos e a jogar."

SD: "Qual é o principal objetivo do Botafogo para esta temporada?
RP: "Sei que é um cliché, mas jogar bem, porque os adeptos do Botafogo gostam de ganhar mas não de qualquer maneira. Jogando bem estaremos mais perto de ganhar. E sermos competitivos em todos os jogos, todos os estádios, seja qual for o adversário. O Botafogo tem obrigação de disputar todos os jogos para qualquer competição, disso nunca abdicaremos."

SD: Como avalia o nível de competitividade do Brasileirão em relação a outros campeonatos?
RP: "O campeonato brasileiro é de um nível de dificuldade superior. Para começar, estamos no país do futebol. Depois, quantos campeonatos têm cinco, seis equipas capazes de lutar pelo título? Quem está dentro do futebol sabe perfeitamente que o Brasileirão é uma competição muito exigente, até pelo calendário apertado, com pouco tempo para treinar. Uma maratona para corredores de fundo com muita resiliência."

SD: A defesa do título da Libertadores é tarefa difícil?
RP: "Nos últimos 25 anos apenas uma equipa revalidou o título da Libertadores, o Palmeiras do Abel. Penso que isto demonstra a dificuldade de uma prova extraordinária. No entanto, jamais abdicaremos de o tentar fazer. Estamos na Libertadores para a ganhar, se vamos conseguir ou não isso é outra história, mas têm que contar connosco."

SD: Tem acompanhado o campeonato português? Como acha que vai ser a reta final?
RP: "Está tudo muito equilibrado e não deixo ninguém de lado. Se o Rúben Amorim tivesse ficado era evidente, para mim, que o Sporting ia ser campeão e isto não tem nada a ver com os treinadores que entraram depois, mas sim com um trabalho consecutivo que estava a ser feito. Claro que Benfica e Sporting estão com alguma vantagem e dado que apenas faltam nove jogos e já sem grande influência de outras competições em termos de calendário, será difícil que ambos percam tantos pontos para deixar que FC Porto ou SC Braga se aproximem, mas não excluo nada."